O traficante Pierre Sá da Silva, conhecido como “PQD”, morto nesta terça-feira (18) após ser localizado por policiais civis da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco), carregava uma acusação muito mais grave do que a de integrar a estrutura armada do Comando Vermelho.
Ele era um dos investigados pela morte do policial militar Adelmo da Silva Guerini Fernandes, apontado como integrante e comandante de uma estrutura de milícia que atuava na comunidade Asa Branca, em Curicica, na Zona Oeste do Rio.
Adelmo foi assassinado em 16 de outubro de 2025, na comunidade, no mesmo episódio em que também foi morto Alex Sandro da Fonseca Silva. Outras duas pessoas, Carlos Henrique da Silva e Ubirani Viana de Lima, foram alvo de tentativas de homicídio.
A investigação policial que apura o caso resultou em uma ação penal própria e levou a Justiça a determinar a prisão de integrantes do grupo apontado como responsável pelos crimes.
E entre os nomes que apareceram no inquérito estava justamente PQD.
Justiça apontou ligação direta de PQD com grupo investigado
Documentos judiciais obtidos pela reportagem mostram que o inquérito que atingiu Pierre Sá da Silva nasceu do desmembramento do IP nº 901-01091/2025, instaurado para investigar os homicídios de Adelmo e Alex Sandro e as tentativas de assassinato contra Carlos Henrique e Ubirani.
O caso dos homicídios tramita na 1ª Vara Criminal da Comarca da Capital, com competência para julgamento de crimes dolosos contra a vida.
Em outro inquérito, de número 901-01166/2025, a Polícia Civil pediu a prisão temporária de Jonathan Figueiredo Batista, Tauan de Melo Silva e Pierre Sá da Silva.
O Ministério Público deu parecer favorável e a Justiça decretou a prisão temporária dos três por 30 dias.
A decisão é contundente ao descrever a posição ocupada pelos investigados dentro da estrutura criminosa.
Segundo os elementos reunidos pela investigação, os três atuariam diretamente com Ewertton da Fonseca Ramos, o “Maktão”, apontado como mandante, exercendo funções relacionadas à intimidação, extorsão e controle territorial na Asa Branca.
Ou seja: para os investigadores, PQD não era apenas um traficante que circulava pela região. Ele estaria inserido em uma estrutura organizada que exercia poder armado sobre moradores e comerciantes.
Cestas básicas depois dos assassinatos
Um dos pontos que chamou a atenção da Justiça foi a existência de relatos de testemunhas e registros fotográficos que, segundo a investigação, vinculavam os denunciados às atividades criminosas.
Entre os elementos citados está a distribuição de cestas básicas após os homicídios, interpretada pelos investigadores como uma estratégia para tentar conquistar apoio popular e fortalecer a presença do grupo na comunidade.
Depoimentos de Ana Paula Severo da Silva e Liliana Nascimento Ribeiro, além de denúncias anônimas e imagens obtidas durante a investigação, foram apontados na decisão judicial como elementos que indicavam a participação dos investigados em práticas de extorsão e intimidação e sua vinculação aos crimes violentos investigados.
A Justiça destacou ainda que testemunhas relataram cobranças de taxas de segurança, monitoramento de estabelecimentos comerciais e intimidação de comerciantes entre os dias 16 e 22 de outubro de 2025, período imediatamente posterior aos assassinatos.
Para o Judiciário, não se tratava, portanto, de uma suspeita baseada apenas em fatos antigos ou em conjecturas.
De frente de boca a homem de guerra do Comando Vermelho
A investigação sobre a morte de Adelmo é apenas uma parte da trajetória criminosa atribuída a PQD.
De acordo com a Draco, Pierre Sá da Silva era um dos principais líderes armados do Comando Vermelho na chamada Zona Sudoeste do Rio.
O criminoso seria integrante da “Equipe Astro”, grupo apontado pelas autoridades como uma das estruturas armadas utilizadas pela facção para ações de guerra e expansão territorial.
Segundo a Polícia Civil, PQD exercia a função de frente de bocas de fumo nas comunidades da Gardênia Azul e Cidade de Deus e participava diretamente da mobilização de criminosos, coordenação de ataques e planejamento de ações violentas.
As investigações apontam ainda que ele teria participado de disputas territoriais em Curicica, Camorim e Asa Branca.
O nome de PQD também apareceu em investigações relacionadas às sucessivas tentativas de invasão de Rio das Pedras, uma das áreas mais estratégicas da Zona Oeste.
A imagem construída pela investigação é, portanto, a de um criminoso que teria acumulado funções dentro da organização: liderança armada, coordenação de ataques, controle territorial e atuação na linha de frente do tráfico.
A guerra que chegou à Asa Branca
O assassinato de Adelmo ocorreu justamente em meio a uma disputa pelo controle territorial da Asa Branca.
A comunidade havia se transformado em uma área estratégica em meio ao avanço de grupos criminosos e às disputas entre estruturas de tráfico e milícia.
Adelmo, policial militar apontado como ligado ao comando de uma milícia que atuava na região, acabou morto junto com Alex Sandro.
A investigação passou então a buscar não apenas os executores, mas também quem teria ordenado e organizado a ação.
Foi nesse contexto que surgiu o nome de Ewertton da Fonseca Ramos, o Maktão, apontado como mandante, e dos demais integrantes que, segundo a investigação, davam suporte operacional à estrutura.
Entre eles estava PQD.
A própria decisão judicial registra que os crimes investigados envolveram dois homicídios consumados, duas tentativas de homicídio, extorsões, intimidação e associação criminosa, dentro de uma estrutura organizada.
Capturado pela Draco com pistola
Nesta terça-feira (18), a Draco localizou PQD na Gardênia Azul, considerada pela investigação seu principal reduto e um dos locais utilizados para planejamento e coordenação das atividades criminosas.
Segundo a Polícia Civil, durante a abordagem, o traficante atacou os policiais. Ele foi baleado e socorrido para uma unidade de saúde.
Uma pistola foi apreendida com ele.
Ainda durante a operação, outro integrante do grupo de PQD, que possuía mandado de prisão por roubo, também foi capturado.
A ação integra a Operação Contenção, ofensiva do Governo do Estado contra a expansão territorial do Comando Vermelho.
Segundo os dados divulgados pelas forças de segurança, a operação já resultou em mais de 375 prisões e 138 criminosos mortos em confrontos, além da apreensão de aproximadamente 482 armas, entre elas 191 fuzis, e mais de 51 mil munições.
Um dos investigados pela morte de Adelmo termina morto
A morte de PQD encerra de forma violenta a trajetória de um dos homens apontados pela investigação como integrantes da engrenagem criminosa que atuava na Zona Oeste.
O traficante que, segundo a Polícia Civil, era um dos principais homens de guerra do Comando Vermelho e participava da expansão territorial da facção também era um dos investigados pela morte de Adelmo da Silva Guerini Fernandes, episódio que desencadeou uma investigação específica sobre a guerra pelo controle da Asa Branca.
A Justiça chegou a considerar presentes os requisitos legais para sua prisão temporária, destacando a existência de elementos que apontavam sua participação nas atividades do grupo e a necessidade de preservar testemunhas e provas.
PQD morreu antes de responder em liberdade às acusações que pesavam contra ele.
As acusações descritas nesta reportagem decorrem de investigações policiais e decisões judiciais e não equivalem, por si só, a uma condenação definitiva.