A Polícia Civil investiga a participação dos traficantes Doca e Gadernal. líderes do Comando Vermelho,. na morte de Cleyton Ferreira Andrade de Souza, homem apontado como ligado à milícia, assassinado a tiros em 6 de janeiro de 2025, na região da Estrada Santa Veridiana, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. O ataque teve uma circunstância especialmente grave: duas mulheres que estavam dentro de uma igreja foram atingidas pelos disparos. Ambos figuram no processo que tramita na Justiça;
Cleyton, de 28 anos, acabou socorrido e levado para a UPA do Cesarão, mas não resistiu aos ferimentos provocados pelos tiros. As outras duas vítimas foram encaminhadas para o Hospital Municipal Pedro II.
A investigação aponta que o homicídio teria ocorrido durante uma perseguição envolvendo duas motocicletas. O relato de uma das mulheres atingidas forneceu aos investigadores uma das principais informações sobre a dinâmica do ataque.
Segundo o depoimento prestado por um cabo do 27º BPM, uma das vítimas contou que estava dentro da igreja quando percebeu a passagem de duas motocicletas pela Estrada Santa Veridiana.
De acordo com o relato, Cleyton estaria na motocicleta que seguia à frente e teria sido alvejado pelos ocupantes da segunda motocicleta.
A motocicleta que vinha atrás era ocupada por dois homens. Conforme a testemunha, os disparos partiram daquele veículo.
A sequência de tiros, entretanto, não atingiu apenas o alvo da ação. Sandra Helena de Freitas Damasceno foi baleada de raspão na região abdominal, enquanto Maria Celma Gomes Queiroz também foi atingida.
As duas estavam na igreja no momento do ataque.
A ocorrência inicialmente foi registrada como uma lesão corporal provocada por disparos de arma de fogo em via pública. Os policiais foram acionados pelo sistema Maré Zero às 20h16.
Quando chegaram à Estrada Santa Veridiana, porém, não encontraram mais vítimas, suspeitos ou qualquer movimentação que permitisse identificar imediatamente o que havia ocorrido.
A rua estava deserta.
Diante disso, os policiais decidiram seguir para o Hospital Pedro II para verificar se algum ferido havia dado entrada.
Policiais descobrem terceira vítima
No hospital, os agentes encontraram Sandra e Maria Celma recebendo atendimento.
Sandra já havia sido medicada e recebeu alta. Ela foi conduzida pelos policiais à 36ª DP, onde os agentes descobriram que havia uma terceira pessoa ferida no mesmo episódio.
Tratava-se de um homem pardo, de 28 anos, que havia sido levado para a UPA do Cesarão na tentativa de receber atendimento médico.
Os policiais foram até a unidade e encontraram Cleyton.
Ele, porém, não havia resistido aos ferimentos causados pelos disparos.
A equipe policial entrou em contato com a permanência da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) para comunicar a morte e permitir a adoção das providências necessárias.
Foi nesse momento que o episódio passou a ser tratado como homicídio.
Investigação aponta ligação da vítima com a milícia
Um dos elementos que dá maior peso à investigação é a informação de que Cleyton era apontado como ligado à milícia que atua na região.
A partir dessa circunstância, a polícia passou a trabalhar também com a possibilidade de que o ataque estivesse relacionado à disputa entre grupos criminosos armados que atuam na Zona Oeste.
Doca e Gadernal aparecem como suspeitos da execução, e a investigação busca esclarecer a participação de cada um deles na ação.
A hipótese ganha relevância diante da própria dinâmica relatada pela testemunha: uma motocicleta seguindo outra e os ocupantes do segundo veículo efetuando os disparos contra o homem que estava à frente.
O fato de os tiros terem sido efetuados em uma região controlada por milicianos também passou a ser considerado nas diligências destinadas a esclarecer a motivação do assassinato.
Cena do crime desapareceu
Um dos maiores problemas enfrentados pelos investigadores foi justamente a impossibilidade de realizar uma perícia adequada no local onde os disparos ocorreram.
O registro policial é explícito ao informar que o local do fato estava desfeito e não havia sido preservado.
Também não houve perícia de local.
A situação foi agravada pelas fortes chuvas que atingiram a região naquele dia, prejudicando ainda mais a possibilidade de encontrar cápsulas, marcas de disparos, sangue, impressões ou outros vestígios capazes de ajudar na reconstrução do homicídio.
Não houve apreensão de materiais relacionados diretamente ao crime e também não foram recolhidas impressões digitais.
Área de milícia impediu diligência imediata
Outro fator considerado pela polícia foi a característica da região.
O documento classifica o endereço como área de milícia armada.
Segundo o registro, uma diligência inopinada poderia colocar em risco não apenas os policiais, mas também moradores, transeuntes e outros agentes públicos.
Com isso, os investigadores não puderam simplesmente retornar ao local imediatamente para realizar uma varredura completa.
A própria dinâmica territorial imposta por grupos criminosos acabou se tornando um obstáculo para a investigação de um homicídio ocorrido naquela área.
O resultado foi uma situação particularmente complicada: a vítima morreu, duas mulheres foram atingidas, mas a principal cena do crime não pôde ser preservada nem periciada.
Relato das testemunhas é peça importante
O depoimento do cabo Vagner da Silva de Souza é um dos elementos utilizados para reconstruir os acontecimentos.
O policial relatou que, quando chegou ao endereço indicado, não encontrou ninguém. A rua estava vazia.
Posteriormente, no Hospital Pedro II, os agentes conseguiram ouvir Sandra, que contou ter presenciado a passagem das duas motocicletas.
O relato estabeleceu a sequência básica investigada: uma motocicleta seguia à frente, outra vinha atrás com dois ocupantes e os tiros teriam sido disparados da segunda motocicleta contra quem estava no primeiro veículo.
As mulheres que estavam dentro da igreja acabaram atingidas pelos disparos.
A investigação precisa agora estabelecer se Cleyton era efetivamente o alvo exclusivo da ação, se o ataque foi motivado por sua suposta ligação com a milícia e qual teria sido a participação de Doca e Gadernal.
Duas mulheres foram vítimas de uma guerra que não era delas
O caso também expõe o risco para moradores e pessoas que circulam em regiões dominadas por grupos criminosos.
Sandra e Maria Celma não seriam os alvos da ação, mas acabaram baleadas simplesmente por estarem dentro da igreja no momento em que os criminosos abriram fogo.
A ocorrência mostra como uma perseguição armada em via pública pode atingir pessoas completamente alheias à disputa entre criminosos.
No caso de Sandra, o tiro atingiu a região abdominal e provocou um ferimento de raspão. Maria Celma também foi ferida e precisou de atendimento médico.
Cleyton teve um destino diferente: foi atingido pelos disparos e morreu após ser levado para a UPA do Cesarão.
Polícia ainda tenta esclarecer a motivação
A investigação de segmento ficou responsável por aprofundar as informações e tentar responder às principais perguntas deixadas pelo crime: onde exatamente Cleyton foi atingido, quem efetuou os disparos, qual foi a motivação da execução e qual a participação dos suspeitos apontados pela investigação.
Os procedimentos realizados no IMLAP também devem contribuir para o esclarecimento das circunstâncias da morte.
A ausência de uma perícia no local, entretanto, representa uma dificuldade importante para a investigação.
Sem a cena preservada, a polícia perdeu a possibilidade de analisar diretamente diversos vestígios que poderiam ajudar a determinar a posição das motocicletas, a trajetória dos tiros e a quantidade de disparos efetuados.
A forte chuva que atingiu a região no dia do crime agravou o problema.
O homicídio, portanto, começou a ser investigado em condições adversas: uma vítima apontada como ligada à milícia morta em uma possível perseguição, duas mulheres atingidas dentro de uma igreja, uma área sob domínio de criminosos armados e uma cena de crime que não pôde ser preservada.
Agora, a investigação tenta reconstruir a execução a partir dos relatos e demais elementos obtidos posteriormente e esclarecer se Doca e Gadernal tiveram participação na morte de Cleyton.