A disputa pelo controle da Vila Kennedy, Catiri e Jardim Bangu não aparece na investigação da 34ª Delegacia de Polícia como uma simples guerra entre grupos rivais pelo domínio de uma comunidade. Segundo os elementos reunidos no inquérito, trata-se de um movimento territorial mais amplo, com o Comando Vermelho (CV) buscando avançar sobre áreas da Zona Oeste, expulsar grupos paramilitares e transformar o tráfico de drogas na principal atividade econômica de regiões que até então estavam sob influência de outros criminosos.
O inquérito policial foi instaurado pela 34ª DP para investigar integrantes envolvidos no tráfico de entorpecentes nas comunidades do Complexo da Penha, Vila Kennedy e Catiri. Durante as diligências, porém, os investigadores identificaram aquilo que consideraram um movimento estratégico de aproximação entre integrantes do Comando Vermelho e do grupo Amigos dos Amigos (ADA).
Segundo a investigação, essa cooperação estaria relacionada justamente à expansão e consolidação do domínio territorial nas regiões da Vila Kennedy, Jardim Bangu e Catiri.
O objetivo atribuído ao Comando Vermelho é descrito de maneira ainda mais ambiciosa em um relatório policial intitulado “Formação de um novo Complexo de Favelas”.
O projeto de expansão territorial
De acordo com o relatório citado na denúncia, a estratégia do Comando Vermelho seria assumir o controle econômico e territorial das comunidades do Jardim Bangu e Catiri, em Bangu, e da Carobinha, em Campo Grande.
Para isso, a facção teria como uma de suas principais metas a expulsão dos grupos paramilitares que atuam na região.
A lógica identificada pelos investigadores seria transformar áreas atualmente marcadas pela disputa entre tráfico e milícia em um corredor territorial sob influência do Comando Vermelho, consolidando o comércio de drogas como atividade predominante.
A investigação aponta que a expansão não teria apenas uma finalidade econômica.
O controle dessas áreas também teria importância estratégica por causa da proximidade com o Complexo Penitenciário de Gericinó.
Segundo a denúncia, o Comando Vermelho buscaria cercar o complexo penitenciário, criando condições mais favoráveis para eventuais fugas de lideranças da facção e ampliando o controle sobre as rotas e atividades criminosas no entorno.
Nesse cenário, o domínio do transporte alternativo em Bangu e adjacências também aparece como peça importante do projeto de expansão.
A investigação, portanto, descreve uma disputa que envolve simultaneamente território, tráfico de drogas, transporte alternativo, circulação de criminosos e proximidade com o sistema penitenciário.
Catiri vira o principal campo de batalha
Foi nesse contexto que o Catiri passou a ocupar uma posição central na guerra territorial.
Durante os meses de março e abril de 2025, mídias abertas registraram conflitos armados entre integrantes do Comando Vermelho e grupos de milicianos pela disputa do território.
A região passou a registrar mortes violentas e sucessivos confrontos armados.
Segundo a investigação, um dos principais instrumentos utilizados pelo Comando Vermelho nessa ofensiva seria o grupo denominado Bonde dos Crias.
O grupo é descrito na denúncia como um braço armado do Comando Vermelho, responsável por realizar incursões violentas e sistemáticas contra áreas controladas por grupos rivais.
Os criminosos, segundo a acusação, utilizavam inclusive indumentárias semelhantes às empregadas por forças de segurança pública, uma estratégia que, conforme a investigação, serviria para produzir dissimulação, intimidar moradores e provocar desinformação durante as incursões.
A utilização desse tipo de vestimenta acrescentaria um componente de guerra psicológica à disputa, dificultando para moradores identificar imediatamente quem eram os criminosos que circulavam armados pelo território.
Vila Kennedy como base para atacar o Catiri
As investigações avançaram até chegar à conclusão de que parte dos criminosos envolvidos nas ofensivas contra a milícia do Catiri estaria ligada à Vila Kennedy.
Segundo a denúncia, criminosos que atuavam na Vila Kennedy, comandados por lideranças do Comando Vermelho e com integrantes homiziados na região da Penha, estariam determinando e organizando incursões armadas contra os milicianos que controlavam o Catiri.
Isso colocaria a Vila Kennedy no centro de uma estrutura de expansão territorial muito maior.
A comunidade não seria apenas uma área de atuação do tráfico, mas também uma espécie de base operacional para a mobilização de homens, armas e logística destinados às ofensivas contra territórios rivais.
É justamente nesse ponto que a investigação passa a conectar os diferentes núcleos criminosos identificados pela polícia: as lideranças, os gerentes, os recrutadores e os chamados homens de guerra.
A Operação Bonde dos Crias
Depois de meses de investigação, a Polícia Civil decidiu deflagrar uma ofensiva contra essa estrutura.
Em 12 de junho de 2025, foi realizada a Operação Bonde dos Crias, em uma ação que contou com a participação conjunta de diversas delegacias de polícia.
A operação foi desencadeada depois que as investigações apontaram, segundo a denúncia, que criminosos ligados à Vila Kennedy e à Penha estavam articulando as incursões armadas contra a milícia do Catiri.
Durante a operação foram cumpridos mandados de prisão, apreendidos entorpecentes e veículos considerados suspeitos e desativada uma central clandestina de internet.
A ofensiva policial atingiu, portanto, não apenas a estrutura diretamente relacionada ao comércio de drogas, mas também mecanismos de apoio utilizados pela organizaçã
Uma disputa que ultrapassa os limites de uma comunidade
O que emerge da investigação é uma disputa territorial que ultrapassa os limites da Vila Kennedy e do Catiri.
De um lado, grupos paramilitares que já controlavam determinadas áreas da Zona Oeste.
Do outro, uma ofensiva do Comando Vermelho que, segundo os investigadores, pretendia romper esse cinturão de domínio, assumir o controle de novas comunidades e criar uma extensa área territorial contínua sob influência da facção.
A expressão “Formação de um novo Complexo de Favelas”, utilizada no relatório policial, resume a dimensão atribuída à estratégia.
O projeto descrito pela investigação conectaria Vila Kennedy, Catiri, Jardim Bangu e Carobinha, com a possibilidade de ampliação da influência criminosa para outras áreas de Bangu e Campo Grande.
E havia ainda um componente considerado estratégico pelos investigadores: Gericinó.
Ao tentar ampliar seu domínio no entorno, o Comando Vermelho poderia, segundo a denúncia, aproximar suas áreas de influência do complexo penitenciário onde estão encarceradas lideranças criminosas.
A investigação sustenta que esse domínio territorial teria potencial para facilitar rotas de fuga, movimentação de criminosos, logística de armas e drogas e controle do transporte alternativo.
Assim, a guerra do Catiri seria apenas uma parte de uma disputa maior.
A Vila Kennedy aparece como uma das bases dessa ofensiva; o Catiri, como um dos principais territórios em disputa; Jardim Bangu, como área estratégica de expansão; Carobinha, como outro alvo do projeto; e o Complexo de Gericinó, como um ponto considerado estratégico para a facção.
Nesse cenário, o Bonde dos Crias seria, segundo a denúncia, a força responsável por transformar o projeto territorial em ações concretas: recrutamento de jovens, deslocamento de criminosos, incursões armadas, confrontos com milicianos e ataques destinados a abrir caminho para a expansão do Comando Vermelho.
A investigação da 34ª DP, portanto, descreve uma guerra pelo mapa da Zona Oeste, na qual o objetivo atribuído ao Comando Vermelho não seria apenas vender drogas em novos pontos, mas substituir o domínio de grupos rivais por uma estrutura territorial, econômica e armada própria.