Apontado no passado como “sniper” e um dos principais seguranças do tráfico no Complexo da Pedreira, Luís Henrique Ferreira de Melo, o “Angolano”, agora é apontado pela Polícia Civil como líder de um esquema de extorsão de condomínios na Pavuna, na Zona Norte do Rio. A 39ª DP (Pavuna) deflagrou nesta sexta-feira (14) uma operação para desarticular o grupo, que obrigava síndicos a romper contratos de segurança e entregar o serviço a uma empresa ligada ao Terceiro Comando Puro (TCP).
Atualmente preso, Angolano tem uma longa trajetória dentro da estrutura criminosa antes de aparecer como suposto chefe do esquema investigado atualmente. Aos 21 anos, ele foi apontado em investigações anteriores como o “sniper” do tráfico no Morro da Lagartixa, em Barros Filho. Armado com um fuzil equipado com luneta e mira a laser, ocupava pontos estratégicos da comunidade para atacar policiais e integrantes de grupos rivais.
Mas sua função dentro do tráfico não se limitava à atuação como atirador. Em processo do Tribunal de Justiça do Rio, Angolano foi descrito como um dos mais importantes “seguranças” do Complexo da Pedreira. Seu posto habitual era o Morro da Lagartixa, mas ele seria deslocado para outras comunidades do complexo quando havia risco de invasão por quadrilhas rivais ou operações policiais, ficando responsável pela organização da segurança armada. Ele já atua desde os tempos do traficante Celso Pimenta, o Playboy, que mandava na área na época da facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos)
Os autos apontavam ainda que ele eventualmente exercia funções de gerência do tráfico, determinando a quantidade de material entorpecente que deveria ser preparado e o volume que seria distribuído nas bocas de fumo.
Agora, segundo a investigação da 39ª DP, Angolano estaria à frente de uma estrutura que encontrou nos condomínios uma nova fonte de exploração financeira.
Como funcionava o esquema
De acordo com a investigação, traficantes ligados ao TCP, com influência na Comunidade da Quitanda e no Complexo da Pedreira, passaram a pressionar condomínios da Pavuna para assumir o controle dos serviços de segurança. A estratégia não era simplesmente oferecer uma empresa aos moradores: os síndicos eram coagidos a cancelar contratos que já estavam em vigor e a contratar uma empresa indicada pelo grupo criminoso.
A pressão era feita por meio de ameaças. Os criminosos deixavam claro que poderiam criar problemas dentro dos próprios condomínios caso os responsáveis não obedecessem às determinações.
Entre as ameaças investigadas estava a possibilidade de permitir a entrada de usuários de drogas nos condomínios. Outra ameaça era ainda mais direta: os criminosos poderiam determinar a quebra de muros divisórios entre áreas residenciais.
Dessa forma, a organização utilizava o poder exercido pelo tráfico na região para criar uma espécie de mercado de segurança compulsório. Os moradores eram submetidos a uma escolha que, na prática, não era uma escolha: para ter a promessa de segurança e tranquilidade, precisavam aceitar a empresa indicada pelos criminosos.
Depois da contratação, os moradores eram obrigados a arcar com taxas mensais pelo serviço. O dinheiro dos condomínios, portanto, passava a alimentar uma atividade empresarial imposta sob ameaça pela estrutura criminosa.
A investigação identificou ainda diferentes papéis dentro da engrenagem. Um dos envolvidos seria responsável por funcionar como intermediário entre a liderança criminosa e os demais integrantes, recebendo as determinações e repassando as ordens para quem atuava diretamente junto aos condomínios.
Outro alvo da operação é um síndico que, segundo a polícia, teria sido o único responsável por um condomínio a aderir ao contrato imposto pelos criminosos.
A partir daí, ainda segundo as apurações, a relação teria ido além da simples contratação. O síndico teria passado a obter vantagens e trabalhar informalmente para a empresa indicada pelo grupo, criando uma conexão entre a administração do condomínio e o esquema investigado.
Do controle armado à exploração dos condomínios
O caso chama atenção pela trajetória atribuída ao principal investigado. O mesmo criminoso que, anos atrás, aparecia em investigações como homem encarregado da segurança armada do Complexo da Pedreira e como atirador de elite do tráfico é agora apontado como líder de uma estrutura que, segundo a Polícia Civil, teria utilizado a força da facção para avançar sobre uma atividade econômica fora das comunidades.
A investigação mostra como o domínio territorial pode ser utilizado não apenas para proteger pontos de venda de drogas, mas também para impor serviços e gerar novas fontes de renda para a organização criminosa.
Nesta sexta-feira, policiais civis cumprem mandados de busca e apreensão em endereços na Pavuna e em Costa Barros, com apoio de equipes do Departamento-Geral de Polícia da Capital (DGPC). Um dos mandados relacionados a Angolano foi cumprido no sistema penitenciário, já que ele se encontra preso.
A operação busca reunir novas provas sobre o funcionamento do esquema, identificar outros integrantes e aprofundar a investigação sobre a atuação do grupo nos condomínios da região.