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Investigação revela detalhes inéditos de escândalo de corrupção envolvendo PMs (incluindo um do BOPE) e o traficante Doca, chefão do CV

MARIO HUGO MONKEN

Uma investigação da Polícia Federal que já havia revelado a existência de uma suposta rede de corrupção e vazamento de informações em benefício do Comando Vermelho ganhou novos contornos com a denúncia apresentada pelo Ministério Público na Justiça Militar. Os documentos agora detalham como dois policiais militares teriam atuado em favor da facção, quanto teria sido pago a um deles e até que tipo de informação teria sido negociada com criminosos.

Os detalhes da suposta negociação ainda não haviam sido divulgados dessa forma.

A denúncia tramita na Auditoria da Justiça Militar, na Ação Penal Militar nº 0131935-87.2025.8.19.0001, e tem como réus presos o 1º sargento PM conhecido como “Fred do BOPE”, e o cabo PM Luciano.

Segundo o Ministério Público, os dois teriam desempenhado funções distintas dentro de um esquema que, de acordo com a acusação, mantinha conexões com integrantes do Comando Vermelho.

Fred é acusado de ter recebido ou aceitado a promessa de receber mais de R$ 10 mil em troca de informações e, posteriormente, de ter recebido R$ 2 mil em outra ocasião.

Luciano, por sua vez, é acusado de integrar a organização criminosa e de utilizar seu acesso ao sistema de Justiça para obter e transmitir informações consideradas sensíveis à facção.

‘Arrego Fred’: a contabilidade do tráfico

Um dos elementos mais contundentes descritos na denúncia está relacionado à contabilidade encontrada nas mensagens extraídas de contas utilizadas por integrantes do Comando Vermelho.

De acordo com o Ministério Público, a investigação teve origem, entre outros elementos, na quebra de sigilo telemático de uma conta do iCloud atribuída a Edgar Alves de Andrade, o Doca, apontado como liderança do Comando Vermelho.

Durante a análise do material, os investigadores encontraram conversas entre Doca e Elbert Luiz dos Santos, o Pinduca.

Em uma dessas conversas, segundo a acusação, Pinduca teria informado a Doca sobre o pagamento de um saldo devedor de R$ 10 mil a “Fred”, relacionado ao vazamento de informações.

Mas a investigação teria encontrado uma segunda referência ainda mais direta.

Em 22 de março de 2025, Pinduca teria enviado a Doca uma fotografia de um caderno utilizado para a contabilidade da organização criminosa.

Na imagem, segundo a denúncia, aparecia a anotação:

“ARREGO FRED 2.000,00”.

Para o Ministério Público, a anotação seria uma confirmação do pagamento de R$ 2 mil ao policial em razão das informações fornecidas à facção.

Sargento trabalhava no BOPE

A acusação sustenta que Fred estava lotado no Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e exercia a função de sargenteante.

É justamente essa posição que dá dimensão ao suposto esquema descrito pelos investigadores.

Segundo a denúncia, o policial teria aceitado vantagens indevidas para informar criminosos sobre operações realizadas pelo BOPE.

A acusação afirma que, dessa maneira, informações obtidas por um integrante de uma unidade especializada da Polícia Militar acabariam chegando à estrutura do Comando Vermelho.

O Ministério Público atribui a Rodolfo duas condutas de corrupção passiva, ambas relacionadas à aceitação de vantagens indevidas em razão da função.

Em uma delas, o valor mencionado é superior a R$ 10 mil. Na outra, o valor apontado é de R$ 2 mil.

Um outro trecho da investigação revela que Doca teria ordenado a seus subordinados, os gerentes do tráfico de drogas, vulgos Pinduca e Gardenal
, que separassem uma quantidade específica de entorpecentes e armamentos de baixa qualidade para serem entregues voluntariamente à equipe de Fred

Com isso, seria forjado um auto de apreensão positivo e, assim, tal agente público permaneceria em unidade de elite, a fim de servir com maior eficácia aos interesses da organização criminosa, inclusive informando sobre operações que seriam realizadas em comunidades dominadas pelo “Comando Vermelho”, sobretudo no Complexo do Alemão.

Outro policial teria usado acesso ao Judiciário em favor do CV

O segundo caso apresenta uma particularidade ainda mais sensível.

Luciano era policial militar lotado no 5º Batalhão da PM, mas estava à disposição do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Segundo o Ministério Público, essa condição teria permitido que ele tivesse acesso a rotinas internas do Poder Judiciário, que posteriormente seriam utilizadas em benefício da organização criminosa.

A denúncia afirma que o cabo teria desempenhado uma espécie de função estratégica para a facção dentro do sistema de Justiça.

Entre suas atribuições no esquema, segundo a acusação, estariam o monitoramento de decisões judiciais, contato com advogados e autoridades e obtenção de informações sobre procedimentos criminais de interesse do Comando Vermelho.

Conversa com integrante da cúpula do CV

A investigação aponta ainda uma situação particularmente grave.

Nos dias 17 e 19 de abril de 2025, segundo o Ministério Público, Luciano manteve contato com Manoel Cinquine Pereira, conhecido como “Paulista”, apontado na denúncia como integrante da cúpula do Comando Vermelho.

Nas mensagens, o policial teria informado sobre o “andamento final do caveira”, expressão interpretada pelos investigadores como referência ao BOPE.

Em seguida, teria escrito:

“vi a prévia da denúncia do caveira”

e

“Irmão pode atender?”

Na sequência, segundo os autos, houve uma ligação telefônica de 18 minutos e 24 segundos.

Para o Ministério Público, a conversa demonstra que o policial não estaria apenas transmitindo informações genéricas, mas teria acesso a dados relacionados a um procedimento criminal envolvendo um integrante do BOPE.

‘Coisas importantes’ e mensagens de visualização única

O material apreendido também teria revelado, segundo a denúncia, um padrão de comunicação entre Luciano e integrantes do Comando Vermelho.

O Ministério Público afirma que o policial encaminhava informações a Paulista por mensagens de visualização única e que chegou a classificar determinados conteúdos como “coisas importantes”.

Na avaliação da acusação, isso reforçaria a hipótese de que Luciano exerceria deliberadamente a função de informante da organização criminosa.

A investigação sustenta ainda que ele se apresentaria como alguém capaz de antecipar decisões e movimentações do sistema de Justiça, utilizando sua proximidade institucional para favorecer os interesses da facção.

Investigação nasceu da Operação Buzz Bomb

O caso não surgiu isoladamente.

Os elementos que deram origem à investigação fazem parte de um desdobramento da Operação Buzz Bomb, que investigava a atuação de civis e agentes públicos ligados à estrutura do Comando Vermelho.

A operação tinha entre seus alvos a identificação de integrantes da organização criminosa e de possíveis servidores ou agentes públicos que teriam sido cooptados para fornecer informações sigilosas e sensíveis.

Segundo a decisão judicial, parte das provas utilizadas no novo procedimento foi compartilhada com a investigação que resultou na ação penal militar.

A Polícia Federal também havia representado pela prisão preventiva dos investigados, buscas e apreensões, quebra de sigilo de dados de equipamentos eletrônicos e afastamento das funções públicas.

‘Odisseia’ até a Justiça Militar

A própria decisão que recebeu a denúncia descreve a trajetória do processo como uma verdadeira “odisseia processual”.

Inicialmente, o inquérito foi encaminhado à 20ª Vara Criminal da Capital, que posteriormente declinou da competência.

O caso passou pela 1ª Vara Criminal Especializada em Organização Criminosa e acabou sendo direcionado à 2ª Vara de Organização Criminosa, diante da origem dos elementos de investigação.

Posteriormente, em razão da condição funcional dos acusados e dos crimes atribuídos a eles, o processo chegou à Justiça Militar.

Acusação aponta estrutura permanente

No caso de Luciano, a acusação é ainda mais abrangente.

O Ministério Público sustenta que ele teria promovido e integrado uma organização criminosa estruturalmente ordenada, com divisão de tarefas e atuação estável e permanente.

A denúncia cita diversos integrantes do Comando Vermelho e afirma que a organização teria como objetivo obter vantagens por meio de crimes como tráfico de drogas, extorsão, comércio ilegal de armas, tráfico de influência e violação de sigilo funcional.

A acusação também sustenta que Luciano teria utilizado sua posição no sistema de Justiça para beneficiar a facção.

Um esquema que vai além da propina

O que emerge dos documentos, portanto, é mais do que a suspeita de um policial recebendo dinheiro de criminosos.

A acusação descreve uma engrenagem em que informações obtidas dentro de estruturas estratégicas do Estado poderiam ser transformadas em moeda de troca com uma das maiores facções criminosas do país.

De um lado, segundo o Ministério Público, estaria um policial que trabalhava no BOPE e teria recebido dinheiro para fornecer informações sobre operações da unidade.

Do outro, um policial com acesso à rotina do Tribunal de Justiça que, segundo a acusação, teria utilizado essa posição para obter informações sobre processos, decisões e procedimentos de interesse do Comando Vermelho.

E, no meio dos dois casos, aparecem registros de pagamentos, conversas extraídas de contas de traficantes, anotações de contabilidade do tráfico e mensagens sobre procedimentos sigilosos.

Os dois policiais respondem presos e as acusações ainda serão submetidas ao contraditório e à ampla defesa. A ação penal deverá determinar, ao longo da instrução, se os elementos reunidos pela investigação serão suficientes para comprovar as acusações feitas pelo Ministério Público.

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