O Terceiro Comando Puro (TCP) atravessa um dos períodos mais turbulentos de sua história recente no Rio de Janeiro. Desde 2025, a facção perdeu territórios importantes para o Comando Vermelho (CV), passou a enfrentar novas ofensivas em áreas consideradas estratégicas e, paralelamente, iniciou uma série de contra-ataques para recuperar espaços e impedir o avanço rival.
O resultado é um cenário de disputas territoriais simultâneas, com confrontos em diferentes regiões da capital e também em Niterói, enquanto o grupo mantém sob seu domínio alguns de seus principais complexos.
1. 2025: o ano em que o TCP começou a perder terreno
Depois de anos de confrontos, o TCP perdeu para o Comando Vermelho o controle do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na Zona Norte.
A derrota não foi isolada.
A facção também deixou de controlar os morros do Fubá e do Campinho, que passaram para o domínio do CV.
As perdas atingiram áreas importantes do mapa criminal da cidade e aumentaram a pressão sobre o TCP, que passou a adotar uma postura mais ofensiva em outras regiões para tentar recuperar espaço.
2. Juramento virou uma das principais frentes de batalha
Uma das disputas mais persistentes ocorre no Morro do Juramento, em Vicente de Carvalho.
O TCP vem tentando tomar a comunidade do CV e, segundo relatos, chegou a conseguir entrar no território em algumas ocasiões.
O problema, porém, seria a dificuldade de manter homens no local de forma permanente.
A disputa transformou o Juramento em uma das principais frentes de confronto entre as duas facções.
À frente de parte dessa ofensiva está Walace de Brito Trindade, o Lacoste, apontado como chefe do Complexo da Serrinha, em Madureira.
3. Cordovil e Brás de Pina: uma guerra marcada por avanços e recuos
Outra frente de conflito surgiu recentemente em Cordovil e Brás de Pina.
O TCP conseguiu tomar do CV os morros do Dourado e da Tinta, mas posteriormente perdeu as áreas e voltou a recuperá-las.
A disputa, entretanto, permanece aberta.
Os confrontos nessa região ganharam um componente particularmente perigoso: o uso de drones para lançar granadas, com episódios que já deixaram moradores inocentes feridos.
A escalada colocou essas comunidades entre os principais pontos de tensão da guerra entre as duas facções.
4. Jardim América também entrou no mapa da guerra
O TCP também passou a enfrentar o CV no Jardim América, ampliando o número de frentes de confronto simultâneas.
A multiplicação das disputas mostra que a guerra deixou de estar concentrada em poucos territórios e passou a envolver diferentes áreas da Zona Norte e da Zona Oeste.
5. Tijuca: territórios do TCP estão sob pressão
Se existe uma região especialmente problemática para o TCP atualmente, é a Tijuca.
Os morros da Casa Branca, Cruz e Chácara do Céu vêm sendo alvos constantes de ataques do CV.
A violência chegou diretamente aos moradores.
Nos morros Cruz e Chácara do Céu, mãe e filha foram feridas por granadas lançadas de drones durante os confrontos.
Em meio aos ataques, criminosos ligados ao TCP também conseguiram matar um rival, apreender um fuzil atribuído ao CV e divulgar imagens nas redes sociais em tom de provocação. A violência foi tanta que os bandidos exibiram um video do suposto inimigo morto com o rosto completamente desfigurado e qie teria tido o corpo queimado.

6. Costa Barros e Barros Filho: outra área de risco
O avanço do CV também atingiu territórios ligados ao TCP em Costa Barros e Barros Filho.
A facção chegou a perder o controle do Morro do Chaves e do Bairro 13, no Complexo da Pedreira.
A região se tornou mais um ponto de pressão sobre o grupo, que precisa administrar simultaneamente territórios ameaçados e novas tentativas de expansão.
Operações policiais têm provocado resistência na região com traficantes espalhando caos pelas ruas.
7. Niterói: TCP tenta recuperar áreas perdidas
A guerra não está restrita à capital.
Em Niterói, o TCP se envolveu em uma intensa disputa pelo controle do Fonsequistão, região que esteve sob domínio da facção durante anos.
O grupo conseguiu recuperar algumas áreas, mas a disputa demonstra que o cenário de instabilidade territorial também se espalhou para outros municípios da Região Metropolitana.
Na Baixada, o TCP teria sido alijado de São João de Meriti e enfrentou golpes que resultaram em perdas e disputas por territórios com o CV em Belford Roxo.
8. Vargem Grande: uma derrota provocada por uma mudança de lado
Outra perda recente ocorreu em Vargem Grande, na Zona Sudoeste do Rio.
Uma mudança brusca no equilíbrio entre os grupos criminosos provocou a perda dos redutos que estavam sob influência do TCP, que acabaram passando para o CV.
O episódio representa mais uma redução da presença territorial da facção na capital.
9. Aliança com milicianos amplia o campo de batalha
Pressionado pelo avanço do CV, o TCP também passou a estabelecer alianças com grupos de milícia.
Essa aproximação colocou a facção em disputas pelo controle de áreas da Zona Oeste, especialmente em regiões como Rio das Pedras e Curicica, em Jacarepaguá.
O fenômeno tornou o mapa criminal ainda mais complexo, com alianças circunstanciais e inimigos que podem variar de acordo com o território.
10. Peixão: uma das principais lideranças do TCP
Entre as principais figuras do TCP está Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado como liderança do Complexo de Israel.
Depois de passar um período escondido na Bolívia, Peixão retornou ao Rio de Janeiro.
Pouco depois, a região sob sua influência passou a ser palco de uma nova frente de guerra contra o CV, especialmente em Cordovil.
11. Lacoste e a pressão sobre o Juramento
Outra liderança de destaque é Walace de Brito Trindade, o Lacoste, apontado como comandante do Complexo da Serrinha, em Madureira.
Seu nome aparece associado às ofensivas contra o CV no Juramento, uma das áreas onde o TCP tenta ampliar novamente sua presença territorial.
12. Apesar das perdas, TCP ainda controla grandes complexos
O avanço do CV não significa que o TCP esteja próximo de desaparecer do mapa criminal do Rio.
A facção ainda mantém o controle de importantes territórios.
Entre eles estão o Complexo da Maré, considerado uma de suas principais bases; o Complexo de São Carlos, na Região Central; o Morro do Dendê, na Ilha do Governador; a Cidade de Deus, na Zona Oeste; além de Acari, reduto historicamente associado ao grupo, e o Muquiço, em Deodoro.
Esses territórios garantem ao TCP uma estrutura significativa de poder, população sob influência criminosa e fontes de arrecadação.
13. Vila Aliança: resistência às operações policiais
Na Zona Oeste, um dos problemas enfrentados pelas forças de segurança está relacionado à resistência armada de criminosos ligados ao TCP.
Na Vila Aliança, traficantes utilizam barricadas e chegam a colocar ônibus atravessados nas ruas para dificultar a entrada das forças policiais.
A estratégia transforma operações de rotina em ações de maior complexidade e cria obstáculos para a circulação de moradores e agentes de segurança.
14. O TCP não vive apenas da venda de drogas
A disputa territorial é apenas uma parte do poder econômico da facção.
Assim como outras grandes organizações criminosas do Rio, o TCP também passou a diversificar suas fontes de renda.
Um dos casos que mais chamou atenção foi a ligação de traficantes do Complexo da Maré com uma quadrilha especializada em roubos e distribuição de medicamentos de alto valor, incluindo medicamentos oncológicos e imunossupressores.
Segundo as investigações mencionadas no caso, o esquema movimentou R$ 33 milhões em apenas um ano.
15. A “Máfia da Farinha”
Outra operação revelou uma forma diferente de exploração econômica.
Na Baixada Fluminense, o TCP teria participado de um esquema conhecido como “Máfia da Farinha”, no qual donos de padarias de Duque de Caxias e Belford Roxo eram obrigados a comprar uma determinada marca de farinha de trigo por preços superiores aos praticados no mercado.
O saco de 25 quilos era imposto aos comerciantes por R$ 100, enquanto o preço médio no atacado ficava entre R$ 60 e R$ 70.
A diferença era repassada ao consumidor.
Em algumas localidades, o preço do pão francês teria subido de R$ 0,50 para R$ 0,80.
O episódio mostra como a atuação criminosa pode ultrapassar os limites das comunidades e atingir diretamente atividades comerciais e consumidores.
16. Uma rede de empresas para lavar dinheiro
O poder econômico da facção também aparece em investigações sobre lavagem de dinheiro.
Em uma operação recente, a polícia identificou uma estrutura composta por dezenas de empresas de fachada espalhadas por diferentes estados.
Segundo a investigação, a rede teria movimentado mais de R$ 100 milhões.
O caso reforça uma característica cada vez mais presente nas grandes organizações criminosas: o dinheiro obtido com atividades ilegais passa por estruturas empresariais destinadas a ocultar sua origem e reinseri-lo na economia formal.
O novo mapa do TCP
O cenário atual é, portanto, contraditório.
De um lado, o TCP perdeu territórios importantes para o CV, como Macacos, Fubá, Campinho e áreas de Vargem Grande, além de sofrer pressão sobre comunidades na Tijuca, Costa Barros e Barros Filho.
De outro, a facção continua tentando recuperar terreno no Juramento, Cordovil, Brás de Pina e Niterói, mantém alguns dos maiores complexos criminosos do estado e busca novas fontes de financiamento.
A guerra deixou de ser apenas uma disputa por pontos de venda de drogas.
Ela envolve território, armas, alianças com milicianos, barricadas, drones, lavagem de dinheiro, extorsão de comerciantes e participação em redes criminosas especializadas.
O TCP, portanto, enfrenta uma situação de pressão territorial, mas continua sendo uma das principais forças criminosas do Rio de Janeiro.
O mapa da facção mudou — e continua mudando.