Um novo episódio envolvendo o ex-delegado da Polícia Civil do RJ Maurício Demétrio veio à tona a partir de depoimentos colhidos em investigação que apura supostas irregularidades praticadas pelo policial civil. Segundo o relato de um comerciante do ramo de automóveis, o então delegado teria solicitado ajuda para retirar infrações de trânsito do prontuário de um veículo e transferi-las para outras pessoas que aceitassem assumir a responsabilidade pelas multas.
De acordo com o depoimento, o comerciante, proprietário de uma loja que atua na compra e venda de veículos, conheceu Demétrio em 2019, durante a negociação de uma Land Rover Evoque blindada e usada. A partir desse contato, segundo ele, os dois passaram a manter comunicação por mensagens de celular.
O depoente afirmou que reconheceu os diálogos apresentados durante a investigação e confirmou que as conversas ocorreram entre ele e o delegado. Segundo o relato, em determinado momento, Maurício Demétrio teria pedido que ele “operacionalizasse” a transferência de infrações de trânsito para o prontuário de outra pessoa.
O veículo envolvido seria uma Toyota Hilux, ano 2009, de cor preta, pertencente a Carlos Henrique. Conforme o depoimento, o delegado teria oferecido pagamento para pessoas que aceitassem assumir as multas como se fossem os verdadeiros condutores responsáveis pelas infrações.
A proposta, segundo o comerciante, envolvia o pagamento de R$ 00.000,00 por cada multa transferida. O dinheiro deveria ser repassado às pessoas que aceitassem receber os pontos em seus prontuários.
O comerciante afirmou que procurou integrantes da própria família — incluindo sogra, filha, genro e esposa — que teriam concordado em assumir as infrações. Segundo ele, os documentos de notificação já chegavam assinados pelo proprietário do veículo, cabendo ao comerciante preencher os dados das pessoas indicadas como supostos condutores.
Após o preenchimento, toda a documentação teria sido enviada ao Detran por meio do aplicativo oficial do órgão.
No depoimento, o comerciante afirmou que não chegou a receber os valores prometidos pelo delegado e que o acordo não teria sido integralmente cumprido. Ele declarou ainda que, no momento em que realizou os procedimentos, não tinha conhecimento de que a conduta poderia configurar crime, tendo compreendido a suposta ilegalidade somente posteriormente, após orientação jurídica.
O depoente assumiu responsabilidade pelos atos praticados, mas afirmou desconhecer se o proprietário do veículo tinha ciência da suposta irregularidade ou das tratativas feitas com o delegado.
O caso passou a integrar o conjunto de acusações investigadas contra Maurício Demétrio, que já foi alvo de outras apurações envolvendo sua atuação como delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Demétrio foi preso há cinco anos durante uma operação que investigava um suposto esquema de cobrança de propina para permitir a comercialização de roupas falsificadas na Rua Teresa, em Petrópolis, na Região Serrana do Rio.
Embora tenha sido absolvido recentemente da acusação de obstrução de Justiça, Demétrio permanece preso em razão de outros processos ainda em andamento. Ele responde a acusações que envolvem crimes como organização criminosa, concussão, corrupção e lavagem de dinheiro.
Antes de ser exonerado do cargo em 2024, l seu transporte para audiências presenciais era realizado pela instituição, mediante escolta que lhe garantia maior segurança e o mantinha afastado dos demais detentos.
Depois disso, l perdeu a escolta oferecida pela instituição para os momentos em que era necessário deixar o presídio.
Atualmente seuransporte para audiências é realizado pela SEAP, mediante requisição do Juízo.
A defesa alega, durante sua carreira, Maurício foi um delegado combativo, tendo sido responsável pela prisão de centenas de pessoas. Assim, revela-se altamente perigosa a participação do requerente em audiências presenciais, pois há grande probabilidade de ele encontrar alguém cuja prisão decorreu de investigações por ele presididas .
Diante disso, o ex-delegado vem solicitando, em todos os processos de que é parte, autorização para participar das audiências por videoconferência, diretamente do Complexo de Gericinó.