A apreensão de mais de 18 quilos de drogas e diversos aparelhos celulares dentro de uma unidade prisional do Rio de Janeiro deu origem à investigação que culminou na operação deflagrada nesta segunda-feira (03) pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco), com apoio da Subsecretaria de Inteligência do Sistema Penitenciário (SSISPEN). A ação tem como objetivo desarticular uma organização criminosa responsável por introduzir entorpecentes, celulares e acessórios no sistema prisional fluminense. Até o momento, três pessoas foram presas durante o cumprimento de mandados de prisão temporária e de busca e apreensão na capital e na Região Metropolitana.
As investigações começaram após uma tentativa frustrada de ingresso de uma grande carga de drogas e aparelhos celulares em uma unidade prisional. O episódio, registrado em auto de prisão em flagrante e posteriormente detalhado em decisão da Justiça, revelou um esquema que, segundo a Draco, abastecia integrantes de facções criminosas presos no sistema penitenciário.
De acordo com o processo, um policial penal responsável pela fiscalização de materiais que ingressavam na unidade utilizava o scanner, procedimento obrigatório durante a revista, quando percebeu, ainda à distância, imagens que indicavam a existência de objetos suspeitos no interior de uma das bolsas.
Diante da suspeita, ele solicitou ao policial penal Wagner Jardim Dias, responsável pela inspeção dos materiais, que passasse novamente todas as bolsas pelo scanner até identificar aquela que havia despertado a atenção. Segundo o depoimento, Wagner abriu a bolsa de forma que o conteúdo não pudesse ser visualizado pelo colega, limitando-se a informar que havia “algo estranho” em seu interior.
A atitude levantou ainda mais suspeitas. Outro policial penal determinou que todas as bolsas fossem novamente submetidas à fiscalização. Na nova revista, os agentes encontraram uma grande quantidade de materiais ilícitos escondidos nas bagagens.
Foram apreendidos 3,48 quilos de cocaína, 15,10 quilos de maconha, 180 gramas de haxixe, além de diversos aparelhos celulares que seriam destinados aos presos.
O policial que identificou a irregularidade afirmou em depoimento que o volume de drogas e celulares era tão expressivo que seria impossível passar despercebido durante uma fiscalização realizada de forma regular. Segundo ele, os superiores hierárquicos compareceram imediatamente ao local, acompanharam toda a apreensão e determinaram o encaminhamento da ocorrência para a Draco.
Embora tenha afirmado que não viu quem deixou as bolsas na portaria da unidade, o servidor acompanhou toda a lavratura do procedimento policial.
Com base nas investigações, a Polícia Civil concluiu que Wagner Jardim Dias, responsável pela custódia e inspeção dos materiais destinados ao presídio, teria permitido deliberadamente a entrada das bolsas contendo drogas e celulares, contrariando os protocolos obrigatórios de segurança.
Segundo a decisão judicial, a quantidade de entorpecentes encontrada, o volume dos materiais e a forma como estavam acondicionados tornam incompatível a versão de que o agente não teria percebido a existência dos objetos ilícitos durante a fiscalização.
Para a Justiça, há fortes indícios de que o policial penal tenha participado conscientemente da introdução clandestina do material dentro da unidade prisional, facilitando o abastecimento de integrantes de organizações criminosas presos no sistema penitenciário.
A decisão destaca que a conduta atribuída ao servidor possui elevada gravidade por representar uma possível colaboração deliberada para o ingresso de drogas e aparelhos celulares no interior do presídio, comprometendo a segurança da unidade, a ordem pública e a credibilidade da administração penitenciária.
O magistrado também ressaltou que a quantidade expressiva de drogas apreendidas, a variedade dos entorpecentes e a forma de execução da ação demonstram elevada periculosidade, justificando a manutenção da prisão preventiva para garantir a ordem pública, preservar a instrução criminal e impedir a continuidade das práticas criminosas.
Ainda de acordo com a decisão, a apreensão de 3,48 quilos de cocaína, 15,10 quilos de maconha e 180 gramas de haxixe, substâncias consideradas de elevado potencial lesivo, reforça os indícios de intensa atuação no tráfico de drogas e de integração do investigado a organização criminosa, afastando a hipótese de um episódio isolado de traficância eventual.
A Justiça também observou que, em casos envolvendo organizações criminosas, a prisão preventiva constitui medida necessária para interromper a atuação dos integrantes do grupo e impedir a continuidade das atividades ilícitas dentro do sistema penitenciário.
A partir desse flagrante, a Draco aprofundou as investigações utilizando análise de imagens, cruzamento de informações, diligências de inteligência e investigação financeira, conseguindo identificar um grupo criminoso estruturado, com divisão de tarefas e atuação coordenada para introduzir drogas, celulares e acessórios destinados a integrantes de facções presos nas unidades prisionais do Estado.
As investigações também revelaram movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda de um dos principais investigados. Segundo a Polícia Civil, ele movimentou mais de R$ 259 mil em transferências bancárias sem justificativa econômica aparente em um curto espaço de tempo.
O conjunto de provas reunido pela Draco fundamentou os pedidos de prisão temporária e de busca e apreensão autorizados pela Justiça e cumpridos na operação desta segunda-feira, que busca desarticular a organização criminosa e identificar todos os envolvidos no esquema de abastecimento ilícito do sistema penitenciário fluminense.