A Justiça do Rio recebeu a denúncia do Ministério Público e decretou a prisão preventiva de seis traficantes do Comando Vermelho (CV) acusados de participar da execução do barbeiro Fábio Oliveira Fortes, de 26 anos, que, segundo a investigação e os depoimentos de familiares, não possuía qualquer envolvimento com a criminalidade. O trabalhador foi assassinado no dia 1º de maio de 2025, durante um ataque promovido por criminosos do Complexo do Chapadão contra uma área de divisa com o Complexo da Pedreira, palco da guerra entre o CV e o Terceiro Comando Puro (TCP).
Segundo uma das testemunhas, integrantes do Comando Vermelho chegaram a comemorar o assassinato nas redes sociais, publicando a mensagem: “Baqueamos a barbearia e matamos um menino lá”. A testemunha afirmou que não conseguiu preservar a postagem, mas relatou seu conteúdo durante o inquérito policial.
Entre os denunciados está Luiz Fernando Nascimento Ferreira, conhecido como “Nando Bacalhau”, chefão do Chapadão e preso há vários anos. Outro investigado é um traficante conhecido pelo vulgo “WL”. Ao todo, seis integrantes da facção tiveram a prisão preventiva decretada e responderão por homicídio qualificado, por motivo torpe, mediante recurso que dificultou a defesa da vítima e para assegurar outro crime, além de organização criminosa.
De acordo com a denúncia, Fábio era barbeiro, morava havia mais de dez anos na Estrada do Camboatá, em Costa Barros, e mantinha uma barbearia em frente à vila onde residia. Familiares foram unânimes ao afirmar que ele era trabalhador, não usava drogas, nunca havia sido preso, não possuía dívidas, não tinha inimigos e jamais integrou qualquer facção criminosa.
Na manhã do crime, Fábio estava em frente à barbearia acompanhado de um homem identificado como Kraive, quando um veículo ocupado por criminosos se aproximou. Os ocupantes gritaram “Polícia!”, estratégia usada para surpreender as vítimas, e abriram fogo contra os dois. Kraive conseguiu fugir, mas Fábio foi atingido por diversos disparos. Moradores o socorreram para a UPA de Costa Barros e, posteriormente, ele foi transferido para o Hospital Municipal Souza Aguiar, onde morreu.
Os depoimentos apontam que o verdadeiro alvo da ação seria Kraive, que já havia sido preso por roubo no fim de 2024, ou ainda integrantes do TCP que costumam circular pela região. As investigações também indicam que Fábio pode ter sido confundido pelos criminosos por trabalhar em uma área frequentada por moradores e por pessoas ligadas à facção rival. Familiares afirmaram ainda que sua barbearia atendia clientes de toda a comunidade, inclusive traficantes do TCP, sem que isso significasse qualquer participação na organização criminosa.
Testemunhas explicaram que o local do homicídio fica em uma região estratégica, na divisa entre os territórios controlados pelo Comando Vermelho, no Complexo do Chapadão, e pelo Terceiro Comando Puro, no Complexo da Pedreira. Segundo os relatos, traficantes do CV realizam constantes invasões, conhecidas como “baques”, para tentar ampliar o domínio territorial e executar rivais. Também foi informado que criminosos costumam utilizar veículos e gritar “polícia” para surpreender as vítimas antes dos ataques.
“A irmã contou à Polícia Civil que estava trabalhando quando recebeu uma ligação informando que o irmão havia sido baleado em frente à barbearia. Segundo ela, vizinhos socorreram Fábio até a UPA de Costa Barros e, posteriormente, ele foi transferido para o Hospital Souza Aguiar, onde morreu. Ela afirmou que o irmão nunca teve envolvimento com a criminalidade, trabalhava como barbeiro havia cerca de oito anos, não era usuário de drogas, nunca havia sido preso e não possuía qualquer ligação com facções. Em novo depoimento, acrescentou que acredita que os criminosos procuravam outro homem, identificado como Kraive, e relatou ter tomado conhecimento de uma postagem atribuída ao Comando Vermelho dizendo: “Baqueamos a barbearia e matamos um menino lá”
Na decisão que recebeu a denúncia, o magistrado destacou que o crime possui extrema gravidade, ressaltando que há indícios de que os denunciados possuem estreita ligação com a organização criminosa que controla o tráfico de drogas no Complexo do Chapadão, inclusive ocupando posições de liderança.
O juiz enfatizou que a vítima teve a vida ceifada simplesmente por exercer seu trabalho em uma localidade disputada por facções rivais, circunstância que demonstra a necessidade da prisão preventiva para garantia da ordem pública. Também ressaltou que a medida é necessária para proteger as testemunhas, especialmente os familiares de Fábio, cujos depoimentos serão fundamentais durante a instrução do processo.
Com isso, a Justiça decretou a prisão preventiva dos seis denunciados e determinou a expedição de mandados de prisão com validade de 20 anos.