A investigações da Polícia Civil apontam que, mesmo após passar cerca de 20 anos preso, o traficante Nei da Conceição Cruz, o Facão, conhecido como Facão, jamais deixou de exercer influência sobre o Terceiro Comando Puro (TCP).
Segundo doucumentos obtidos pela reportagem, mesmo quando estava preso, ele continuava determinando ataques e execuções, comandando o comércio de drogas, distribuindo armas de fogo para seus subordinados e ordenando roubos de carga, extorsões e esquemas de lavagem de dinheiro por meio dos chamados “frentes” das comunidades do Complexo da Maré.
Facão foi preso na noite de terça-feira (4), quando passava pelo pedágio da Ponte Rio-Niterói, dirigindo um Toyota Corolla. A abordagem foi realizada por agentes da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), que cumpriram um mandado de prisão preventiva expedido pela 4ª Vara Criminal da Capital.
Considerado um dos fundadores do Terceiro Comando Puro (TCP), o criminoso é investigado pelo assassinato do sargento da Polícia Militar Gabriel Guimarães Sá Izaú, de 41 anos, morto em 21 de julho do ano passado, no Complexo da Maré.
Lotado no Batalhão de Choque (BPChq), o policial foi encontrado com diversas marcas de tiros. A perícia no veículo onde o corpo foi localizado foi realizada pela Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF). As investigações concluíram que a execução ocorreu na comunidade da Vila do João, no Complexo da Maré, cerca de 15 quilômetros do local onde o cadáver foi encontrado.
De acordo com a Polícia Civil, Facão também foi um dos principais responsáveis por uma das mais violentas disputas pelo controle dos pontos de venda de drogas já registradas no Complexo da Maré, conforme registros de ocorrência da 21ª Delegacia de Polícia.
As investigações ainda revelam que ele continuava administrando e influenciando as atividades criminosas em comunidades ligadas ao TCP, como o Muquiço e o Complexo de Senador Camará. Essa atuação, segundo os investigadores, foi confirmada em depoimentos de integrantes da própria organização criminosa.
Apesar desse histórico, Facão chegou a ser tratado publicamente como um ex-chefe do tráfico que teria abandonado a criminalidade. Solto em 2023, após cumprir cerca de 20 anos de prisão, ele passou a atuar em projetos de reintegração social ligados ao AfroReggae e trabalhou na área de produção audiovisual, sendo apresentado como um exemplo de ressocialização.
Na organização, trabalhou ao lado de ex-líderes de facções rivais, incluindo antigos integrantes do Comando Vermelho (CV) e da Amigos dos Amigos (ADA). O grupo utilizava as experiências vividas no mundo do crime para dar maior realismo técnico e narrativo a produções audiovisuais.
No entanto, as investigações da Delegacia de Homicídios da Capital apontam um cenário completamente diferente. Segundo a polícia, enquanto mantinha a imagem pública de ressocializado, Facão seguia exercendo influência sobre a estrutura do TCP e participando das decisões estratégicas da facção criminosa, inclusive na determinação de homicídios e na administração de atividades ilícitas nas comunidades dominadas pelo grupo.