O traficante Tiriça, que foi nomeado pelo chefe do Comando Vermelho, vulgo Doca, como o interventor da facção na guerra em Cordovil, teve a prisão preventiva decretada este ano suspeito de um homicídio cometido na comunidade da Chacrinha, na Praça Seca, em 2023. Corpo nunca foi encontrado
Mário Luiz Gomes Trindade tinha 60 anos, era paraplégico e se deslocava com auxílio de muletas. O filho dele contou à polícia que Mário era usuário de cocaína e que, quando se mudou para a Chacrinha, a comunidade estava em guerra. Pouco depois, a facção criminosa Comando Vermelho se estabeleceu no local.
Segundo o filho, Mário havia “desenrolado” com os traficantes sobre o passado dele com a milícia. O idoso teria explicado que já havia feito parte do grupo paramilitar que atuava na região, mas que havia deixado a organização e não participava mais de nenhuma atividade ilícita.
O filho afirmou que, mesmo após essa conversa, soube que alguém da comunidade havia “dedurado” Mário para o tráfico, dizendo que ele estaria passando informações para a milícia.
De acordo com o depoimento, Mário acabou morto no domingo, dia 9 de julho de 2023.
Naquele dia, segundo o filho, estava ocorrendo um evento de bate-bola na favela, na localidade conhecida como Campo de 11. Ele acredita que os traficantes tenham aproveitado a realização do evento para pegar seu pai, por causa dos comentários de que o idoso estaria passando informações para a milícia.
O filho contou ainda que soube de comentários na comunidade de que os traficantes haviam matado diversas pessoas durante o mês de julho.
Segundo ele, os envolvidos na morte de Mário seriam GTA, Weltinho, Sussé, Tiriça, Menino Rei e Mbappé. O filho afirmou que Menino Rei e Mbappé teriam vindo do Complexo da Penha para reforçar a Chacrinha e seriam gerentes do tráfico na região.
Perguntado novamente sobre o motivo pelo qual os traficantes teriam matado seu pai, o declarante afirmou acreditar que o crime poderia estar relacionado ao seu próprio envolvimento anterior com a milícia ou a alguma questão relacionada à dependência química de Mário.
Uma testemunha revelou que Mário havia, na época, discutido com uma mulher de um bar próximo e, devido a isso, teria levado uma “trava” dos traficantes da comunidade.
Segundo a testemunha, um dos filhos de Mário já havia sido preso por envolvimento com a milícia que atuava na Chacrinha. O idoso teria “dado o papo” aos traficantes de que tinha um filho envolvido com o grupo paramilitar, mas que ele havia deixado a milícia.
Ainda de acordo com o relato, os traficantes teriam dito que estava tudo tranquilo, que Mário era “família” e que não iriam mexer com ele.
A testemunha disse que perdeu contato com Mário no dia 10 de julho de 2023, quando tentou falar com ele pelo WhatsApp e por ligação normal, mas o telefone já estava desligado.
Ela esteve na comunidade procurando por Mário e, após perguntar a conhecidos, soube que os traficantes do local haviam matado o idoso e levado o corpo “lá pra cima”.
Questionada sobre o motivo que teria levado os traficantes a atentarem contra a vida de Mário, a testemunha afirmou não saber se foi pelo envolvimento do filho dele com a milícia ou por causa da discussão que o idoso havia tido com uma mulher na comunidade.
Conversando com conhecidos na comunidade, soube ainda que os traficantes já haviam matado e ocultado os corpos de diversas pessoas desde que tomaram a favela.
A testemunha disse que, na época, o responsável pela frente da favela da Chacrinha era o traficante conhecido como GTA e que o criminoso estaria diretamente ligado à morte de Mário. Segundo ela, a ordem para matar o idoso teria partido de GTA.
Mário teria dito ainda que havia escutado na favela que o “papo” era matar qualquer pessoa que tivesse contato com milicianos.
Testemunha relata expulsões, mortes e casas tomadas pelo tráfico
Uma mulher afirmou que, em 2023, foi expulsa da comunidade e teve sua casa invadida e seus bens furtados por traficantes do Comando Vermelho que dominam a região até os dias de hoje.
Na ocasião, compareceu à 28ª DP e reconheceu, por meio de mosaico de fotografias, todos os traficantes do Comando Vermelho que atuariam no local e que, segundo ela, subjugavam os moradores.
Ela disse que, quando os traficantes chegaram à comunidade, tomaram diversas casas e colocaram os moradores para fora. As residências tomadas, segundo a testemunha, eram entregues aos próprios parentes dos traficantes.
Esses criminosos também teriam matado diversos moradores que poderiam ter ou manter qualquer tipo de relação com os milicianos que anteriormente dominavam a comunidade e que foram expulsos da localidade.
Sobre Mário, a mulher afirmou que ele tinha três filhos envolvidos com a milícia. Disse ainda que o idoso teria sido morto por GTA, Da Serra e Thiago.
Apesar de ter sido expulsa, ela afirmou que tem irmãos e muitos familiares morando na Chacrinha até hoje e, por isso, continua tendo acesso a informações sobre tudo o que acontece na comunidade.
Sua mãe ainda frequenta a Chacrinha, mas os traficantes não sabem que ela mora com a testemunha fora dali, em outra comunidade dominada pelo Terceiro Comando Puro. Ela afirmou que sempre alerta a mãe para que tenha cuidado.
A testemunha contou ainda que uma jovem chamada Monalisa e outras duas pessoas teriam sido levadas pelos traficantes para serem mortas, entre elas um rapaz homossexual.
Relatou também o caso de uma mulher que havia se relacionado com um miliciano. Segundo ela, os traficantes chegaram a pensar que a mulher também havia sido morta, mas ela conseguiu escapar. O miliciano com quem ela havia se relacionado, porém, foi morto pelos criminosos.
A testemunha disse ainda que, após a invasão, cada traficante teria ficado responsável por uma vila.
Mbappé e Sussué também tiveram as prisões decretadas.