Uma investigação da Polícia Civil de São Paulo aponta para a infiltração do Comando Vermelho, uma das maiores facções criminosas do Rio de Janeiro, na região norte de Ubatuba, no litoral paulista, especialmente no bairro de Camburi, localizado próximo à divisa com o Estado do Rio de Janeiro.
Segundo os documentos que integram a investigação, a facção carioca teria estabelecido conexões na região e passado a atuar em meio à disputa pelo controle de pontos de venda de drogas.
A apuração identificou um grupo de pessoas que, segundo os investigadores, estaria associado à organização criminosa. Os nomes dos envolvidos não serão divulgados nesta reportagem.
Duplo homicídio teria relação com disputa pelo tráfico
Um dos episódios investigados pelas autoridades é um duplo homicídio ocorrido em 10 de dezembro de 2025, antes da operação que posteriormente seria realizada em Camburi.
De acordo com o relatório policial, os assassinatos estariam relacionados justamente à disputa pelo controle de pontos de drogas na região.
A investigação aponta que uma das pessoas investigadas teria recorrido a integrantes do Comando Vermelho para realizar uma emboscada contra dois integrantes de uma facção rival.
O ataque teria sido executado com o uso de uma Fiat Fiorino branca, que acabou atingida por disparos e posteriormente apreendida.
O episódio é apontado nos autos como um dos elementos que ajudaram a polícia a identificar a atuação de integrantes ligados à facção carioca em Ubatuba.
A partir dessas informações, os investigadores passaram a reunir elementos sobre a presença do grupo criminoso na região e sobre possíveis vínculos entre os envolvidos.
Facção carioca teria avançado para o litoral paulista
A investigação chama atenção porque revela uma possível expansão da atuação de uma organização criminosa originária do Rio de Janeiro para uma área estratégica do litoral de São Paulo.
Camburi fica no extremo norte de Ubatuba, próximo à divisa entre os dois estados, uma localização que, segundo os elementos reunidos no procedimento, teria importância na movimentação de criminosos e na disputa por mercados locais de drogas.
O relatório policial descreve a existência de integrantes que manteriam atuação coordenada na região e aponta para uma estrutura que não estaria restrita a episódios isolados de tráfico.
A hipótese investigativa é de que integrantes ligados ao Comando Vermelho teriam sido acionados para participar de ações criminosas em território paulista, inclusive em conflitos contra grupos rivais.
Operação foi realizada para atingir grupo investigado
Com base nas informações reunidas durante a investigação, a Polícia Civil representou pela realização de buscas em diferentes endereços relacionados aos investigados.
Entre os locais indicados estavam imóveis residenciais, um quiosque e um camping.
O Ministério Público se manifestou favoravelmente às medidas e a Justiça autorizou as buscas.
Foi durante o cumprimento dessas diligências, entretanto, que surgiram as principais controvérsias que hoje são discutidas no processo.
A defesa de um dos acusados sustenta que a operação teria extrapolado os limites da autorização judicial e questiona a forma como determinados locais e veículos foram abordados.
Confusão envolvendo duas Fiorinos
Um dos principais pontos de discussão é justamente o veículo utilizado no homicídio.
Segundo a defesa, a Fiorino branca relacionada ao ataque de dezembro de 2025 já havia sido apreendida.
O veículo encontrado posteriormente durante a operação seria outro, também uma Fiorino branca, mas com características distintas.
A defesa sustenta que teria ocorrido uma confusão entre os dois veículos e que essa semelhança acabou contribuindo para que a segunda Fiorino fosse incluída na diligência.
Também é questionada a existência de autorização específica para uma busca veicular.
Camping não constaria da ordem judicial, diz defesa
Outro ponto controverso envolve o endereço onde parte da operação ocorreu.
A defesa afirma que os policiais ingressaram no Camping Jambalaia, embora esse endereço não constasse da decisão judicial que autorizou as buscas.
O camping mencionado na ordem seria outro estabelecimento, relacionado a um dos investigados.
A versão apresentada pelo Ministério Público, entretanto, descreve que policiais teriam avistado uma das pessoas investigadas no camping e que ela teria fugido em direção ao matagal.
A defesa contesta essa narrativa e afirma que o local onde a abordagem ocorreu não estava entre os endereços autorizados.
Depoimentos apresentam divergências
Os depoimentos prestados em juízo também passaram a ser utilizados pela defesa para questionar a legalidade da operação.
Um policial militar afirmou que o briefing anterior à ação foi superficial e que não chegou a ver o mandado judicial.
Outro agente declarou que as equipes ingressaram simultaneamente no local e admitiu não conseguir afirmar se o endereço do camping constava da ordem.
Também houve divergência quanto à suposta fuga de uma das investigadas.
Um dos policiais afirmou que não conseguiu identificar a pessoa que correu. Segundo o depoimento, não foi possível observar características físicas, roupas ou outros elementos que permitissem confirmar sua identidade.
Testemunha apresenta versão diferente sobre droga
A apreensão de drogas também é contestada.
Uma testemunha que estava hospedada no camping afirmou em juízo que a Fiorino teria sido inicialmente revistada pelos policiais e que nada havia sido encontrado.
Segundo o relato, posteriormente um policial teria ido até uma viatura, retirado de seu porta-malas um tablete de aproximadamente um quilo e entrado atrás de uma barraca.
Quando retornou, ainda segundo a testemunha, carregava o objeto.
O cão farejador teria sido acionado somente posteriormente.
A versão da testemunha é considerada pela defesa um dos principais elementos para contestar a narrativa apresentada pelos policiais.
Investigação e operação agora são questionadas judicialmente
Apesar das controvérsias sobre a execução da operação, a investigação policial que deu origem às medidas apresenta como um de seus principais elementos a suspeita de atuação do Comando Vermelho em Ubatuba e de participação de integrantes ligados à facção em conflitos pelo controle do tráfico local.
O duplo homicídio de dezembro de 2025 aparece nesse contexto como um dos episódios investigados e teria sido relacionado à disputa entre grupos criminosos rivais.
A defesa, por outro lado, concentra seus argumentos nas circunstâncias da operação realizada posteriormente e sustenta que parte das provas teria sido obtida mediante ingresso em endereço não autorizado, buscas sem fundamentação específica e procedimentos que ultrapassariam os limites dos mandados.
A Justiça deverá analisar se as provas produzidas durante a operação podem ser utilizadas no processo.
O caso, portanto, reúne duas questões distintas: a investigação sobre a presença e atuação do Comando Vermelho em território de Ubatuba e a controvérsia sobre a legalidade da operação utilizada para tentar atingir o grupo investigado.