Quase extinta na capital fluminense, onde sua atuação ficou restrita a poucos redutos na Zona Oeste, a facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA) ainda representa uma preocupação para as forças de segurança. Mesmo enfraquecida territorialmente, a organização continua aparecendo em investigações sobre disputas armadas, alianças com outras quadrilhas e tentativas de retomada de áreas dominadas por milicianos.
Nos últimos tempos, investigações apontaram uma aproximação entre integrantes da ADA e o Comando Vermelho (CV), inclusive em conflitos pela expansão territorial na Zona Oeste. Um dos exemplos é a disputa pela região da Carobinha, em Campo Grande, onde criminosos ligados às duas facções teriam se mobilizado contra áreas controladas por milicianos.
Nesse cenário, o retorno de uma das figuras históricas do grupo chamou atenção das autoridades. Depois de passar mais de duas décadas preso, Celsinho da Vila Vintém voltou a ocupar espaço nas investigações sobre o crime organizado no Rio de Janeiro.
Durante o período em liberdade, Celsinho chegou a afirmar que havia abandonado a criminalidade e apareceu em vídeos nas redes sociais criando porcos. Posteriormente, porém, voltou a ser preso após ser apontado pelas autoridades como integrante de uma nova articulação criminosa.
Segundo denúncia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, Celsinho teria retomado a aliança com o Comando Vermelho — facção da qual havia se afastado no passado — com o objetivo de recuperar comunidades que haviam passado para o domínio de grupos paramilitares.
As investigações apontaram que ele teria negociado diretamente com integrantes de uma milícia e participado de uma articulação para a retomada de territórios. Entre as áreas citadas está a Vila Sapê, em Curicica, cujo controle teria sido negociado com criminosos ligados ao grupo paramilitar.
A articulação faria parte de um pacto envolvendo integrantes do Comando Vermelho, uma milícia local e membros da ADA para recuperar territórios perdidos para grupos paramilitares, sobretudo na região de Santa Cruz.
Celsinho também teria determinado a ocupação da Comunidade Dois Irmãos, em Curicica. No dia 17 do mesmo mês, traficantes teriam seguido para a Gardênia Azul com o objetivo de reforçar a ofensiva e consolidar a tomada do território.
Segundo as apurações, a mobilização foi articulada depois que Celsinho solicitou apoio a Edgar Alves de Andrade, com quem chegou a conversar por videoconferência. O suporte teria sido organizado antes da formalização do acordo entre Celsinho e integrantes da milícia local, negociação que teria sido intermediada por André Costa Barro, conhecido como Boto.
ADA também aparece em guerras na Zona Oeste
A atuação do ADA não se limita às articulações envolvendo Celsinho.
Em abril, uma operação policial teve como alvo integrantes da facção que atuavam na comunidade do Jardim Novo, em Realengo. As investigações reforçaram a existência de uma aproximação entre criminosos ligados ao ADA e integrantes do Comando Vermelho, transformando a região em um ponto estratégico para a expansão territorial das duas organizações na Zona Oeste.
A localização do Jardim Novo ajuda a explicar o interesse dos criminosos. A comunidade faz divisa com a Taquara e fica próxima à Cidade de Deus, uma das principais áreas de influência do Comando Vermelho.
As investigações também apontaram que o homem identificado pelo vulgo Índio, apontado como chefe do tráfico no Complexo do Jardim Novo, seria responsável por parte significativa dos roubos de veículos e cargas praticados na região.
Além dos crimes patrimoniais, os criminosos são acusados de impor uma rotina de violência aos moradores. As investigações apontam cobranças ilegais de comerciantes e o controle coercitivo de serviços como gás, água e internet.
Armados com fuzis e outras armas de alto poder de fogo, os integrantes do grupo utilizariam a violência e a intimidação para manter o controle da comunidade.
Enquanto isso, integrantes do ADA também travam uma disputa territorial com o Terceiro Comando Puro (TCP) pelo controle de comunidades como Batan e Conjunto Fumacê, em Realengo.
Facção perdeu espaço na capital, mas mantém força no interior
A situação do ADA na capital, portanto, contrasta com sua presença no interior do estado.
Embora tenha perdido grande parte dos territórios que controlava no passado e hoje esteja restrito a poucos redutos no Rio, o grupo mantém uma estrutura criminosa relevante no Norte Fluminense.
Em Campos dos Goytacazes, a facção controla ou mantém influência sobre diferentes territórios e disputa áreas com o Terceiro Comando Puro.
Em Macaé, o ADA também mantém presença e rivaliza diretamente com o Comando Vermelho em uma disputa que envolve o controle de comunidades e pontos estratégicos para as atividades criminosas.
O cenário mostra que, apesar do enfraquecimento do ADA na capital, a facção está longe de desaparecer. O grupo passou a depender cada vez mais de alianças, articulações e disputas locais para preservar sua influência, enquanto mantém no Norte Fluminense uma de suas principais áreas de resistência territorial.