Investigados por suposta ligação com facções criminosas e envolvidos em uma investigação sobre lavagem de dinheiro, libaneses recorreram à Justiça para tentar retirar do processo referências à Al-Qaeda. A menção à organização terrorista internacional aparece no contexto das apurações conduzidas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, que identificaram, segundo os autos, conexões entre os investigados e pessoas ligadas a grupos criminosos envolvidos com o narcotráfico.
A tentativa de afastar a referência à Al-Qaeda ocorre dentro de uma ação penal que nasceu de uma investigação inicialmente relacionada a outro tipo de crime. A Polícia Civil começou a apurar a atuação da empresa JF Multimarcas, localizada no Complexo do São Carlos, na região central do Rio, depois de uma representação apresentada por um escritório de advocacia denunciar a produção e comercialização de produtos contrafeitos.
O caso, porém, ganhou proporções maiores durante o trabalho de investigação. A análise das movimentações financeiras dos envolvidos, especialmente depois da quebra dos sigilos bancários, levou os investigadores a suspeitar de uma estrutura destinada à movimentação, ocultação e dissimulação de valores provenientes de atividades criminosas.
De acordo com a narrativa apresentada pelo Ministério Público, a atividade empresarial investigada estaria relacionada a pessoas que exerceriam posições de liderança ou influência em facções criminosas dedicadas ao narcotráfico. A partir daí, a apuração passou a examinar não apenas a eventual comercialização de produtos ilegais, mas também o caminho percorrido pelo dinheiro.
É nesse contexto que aparecem os libaneses e a referência à Al-Qaeda.
Segundo os elementos apresentados no processo, os investigados teriam sido relacionados a integrantes ou estruturas ligadas às facções criminosas que atuam no Rio de Janeiro. A investigação também trouxe para os autos referências à organização terrorista internacional Al-Qaeda.
Os libaneses, entretanto, tentam agora retirar essa referência do processo. A iniciativa judicial busca afastar dos autos a associação feita durante a investigação, impedindo que a menção à Al-Qaeda permaneça como elemento relacionado aos investigados.
A questão é particularmente sensível porque a referência à organização terrorista aparece dentro de uma investigação que já havia identificado, segundo a acusação, conexões entre os investigados e integrantes de organizações criminosas responsáveis pelo tráfico de drogas.
O processo descreve uma estrutura financeira que teria sido utilizada para dificultar a identificação da origem dos recursos. Segundo o Ministério Público, o dinheiro proveniente das atividades criminosas seria inicialmente introduzido no sistema financeiro por meio de depósitos pulverizados.
A técnica é conhecida como smurfing. Em vez de realizar uma única operação de valor elevado, os recursos são fracionados em diversas transações de menor valor, muitas vezes distribuídas entre diferentes contas e pessoas. A finalidade, segundo a acusação, seria dificultar a detecção das operações pelos mecanismos de controle financeiro e evitar que as movimentações despertassem alertas automáticos.
A investigação aponta que essa estrutura teria sido utilizada para a chamada reciclagem de capitais, permitindo que recursos provenientes de atividades ilícitas circulassem pelo sistema financeiro com o objetivo de ocultar sua origem.
A origem da apuração, contudo, foi a JF Multimarcas. A empresa entrou no radar da Polícia Civil após a denúncia sobre a produção e comercialização de produtos contrafeitos. Com o aprofundamento das diligências, os investigadores passaram a analisar as relações financeiras e pessoais dos envolvidos.
Foi a partir dessas diligências que, de acordo com os autos, apareceram indícios de que a atividade empresarial poderia estar relacionada a pessoas ligadas a facções criminosas do narcotráfico.
A quebra dos sigilos financeiros teve papel importante na ampliação da investigação. A movimentação das contas permitiu aos investigadores reconstruir parte do caminho percorrido pelos recursos e identificar operações consideradas incompatíveis com a atividade empresarial declarada.
Segundo a acusação, não se tratava apenas da circulação de dinheiro decorrente da venda de produtos. A suspeita era de que a estrutura empresarial e financeira pudesse ser utilizada para ocultar valores provenientes de atividades criminosas.
O caso passou, então, a envolver suspeitas de lavagem de dinheiro e conexões com organizações criminosas.
É justamente dentro dessa investigação que a referência à Al-Qaeda passou a integrar o processo e agora é alvo de contestação por parte dos libaneses.
A estratégia dos investigados na Justiça concentra-se, portanto, em afastar uma das associações mais graves presentes na narrativa investigativa. A Al-Qaeda não aparece como objeto original da apuração — que começou com a denúncia contra a JF Multimarcas —, mas surgiu posteriormente no conjunto de elementos reunidos pela Polícia Civil.
A discussão judicial deverá definir se a referência à organização permanecerá no processo e poderá continuar sendo considerada pelas autoridades na análise das relações dos investigados ou se deverá ser retirada dos autos.
Enquanto os libaneses contestam essa parte da investigação, permanecem em discussão os demais elementos reunidos pela Polícia Civil e pelo Ministério Público sobre suas supostas relações com integrantes de facções criminosas e sobre a estrutura financeira investigada.
O processo, dessa forma, reúne uma sequência que começou com uma denúncia de falsificação de produtos, avançou para a investigação de movimentações financeiras suspeitas, alcançou uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro relacionada ao crime organizado e passou a envolver pessoas apontadas como ligadas a facções do narcotráfico.
No meio dessa investigação surgiu a referência à Al-Qaeda — e é justamente essa parte que os libaneses agora tentam retirar da ação penal.
A Justiça terá de analisar os argumentos apresentados pelos investigados e os elementos que levaram a Polícia Civil e o Ministério Público a incluir a referência à organização terrorista no contexto da apuração.
Os libaneses são suspeitos de integrar uma sofisticada rede de lavagem de dinheiro que movimentou mais de R$ 100 milhões provenientes do tráfico de drogas. As investigações apontaram que a estrutura financeira prestava serviços ao Terceiro Comando Puro (TCP) e também ocultava recursos ligados ao Comando Vermelho (CV) e ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
A investigação teve início a partir da atuação do TCP no Complexo de São Carlos, na Região Central do Rio. Ao longo das diligências, os agentes descobriram que a mesma engrenagem financeira também era utilizada para lavar recursos provenientes de outras facções criminosas, como o CV e o PCC, funcionando como uma espécie de “prestadora de serviços” para diferentes organizações criminosas.
De acordo com as apurações, entre 2021 e 2024, a estrutura movimentou mais de R$ 100 milhões por meio de dezenas de empresas de fachada distribuídas em diferentes estados. Esses empreendimentos eram utilizados para conferir aparência de legalidade ao dinheiro obtido com o tráfico de drogas, receptação qualificada e comercialização de produtos falsificados. As análises financeiras contaram com o apoio do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) da Polícia Civil.
O trabalho investigativo identificou toda a engenharia empregada para ocultar a origem ilícita dos recursos. Os criminosos utilizavam empresas de fachada, transferências sucessivas entre pessoas jurídicas vinculadas, depósitos fracionados em espécie, interpostas pessoas para movimentação bancária e operações incompatíveis com a capacidade financeira declarada pelos investigados.
Durante as diligências, os agentes identificaram ainda um núcleo de empresários de origem libanesa apontado como responsável por ampliar a circulação interestadual e internacional dos recursos ilícitos. Empresas registradas em São Paulo e Minas Gerais eram utilizadas para movimentar valores entre operadores financeiros, empresas de fachada e integrantes das organizações criminosas no Rio de Janeiro.
As investigações também identificaram elementos que indicam a atuação de integrantes desse núcleo na região conhecida como Tríplice Fronteira (Brasil–Paraguai–Argentina), área que, segundo organismos nacionais e internacionais de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, é historicamente monitorada como um importante polo de operações financeiras e logísticas de grupos terroristas. Essas organizações arrecadam recursos por meio de práticas como lavagem de dinheiro, contrabando e tráfico de drogas, além de manterem ligações com facções criminosas brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho. Segundo as apurações, essa estrutura teria sido utilizada para ampliar a capacidade de circulação internacional dos recursos investigados.
Os agentes também identificaram uma relação comercial entre uma empresa vinculada aos investigados e um indivíduo sancionado pelo Office of Foreign Assets Control (OFAC), órgão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos responsável pela aplicação de sanções econômicas. De acordo com as informações levantadas, esse indivíduo integra uma estrutura de financiamento da organização terrorista Al-Qaeda. Esse vínculo será aprofundado a partir da análise das provas apreendidas durante a operação.
As apurações envolveram inteligência financeira, cruzamento de dados fiscais, societários e telemáticos, além da reconstrução do fluxo dos recursos utilizados para ocultar valores de origem ilícita. Os dados coletados apontaram que uma operadora financeira administrava empresas que movimentaram mais de R$ 47 milhões no período investigado, enquanto um contador responsável pela escrituração de empresas ligadas ao núcleo financeiro da organização criminosa seria um dos principais facilitadores do esquema. Segundo as investigações, ele desempenhava papel fundamental para conferir aparência de regularidade às empresas utilizadas na lavagem de dinheiro, deixando de cumprir obrigações legais relacionadas à prevenção desse crime e à comunicação de operações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Sua atuação é apontada como determinante para a manutenção da estrutura empresarial empregada no esquema. Ainda segundo os agentes, o investigado já figurou em outros inquéritos policiais relacionados a fraudes societárias envolvendo alterações contratuais de empresas inativas e constituição de sociedades utilizadas para práticas ilícitas.
As investigações prosseguem para identificar outros integrantes do esquema, localizar novos ativos e aprofundar as linhas investigativas relacionadas às movimentações internacionais dos valores ilícitos, em cooperação com órgãos nacionais e estrangeiros especializados no combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.