Uma investigação da Polícia Civil revela uma estrutura hierárquica do Comando Vermelho (CV) que, segundo a denúncia, atuava para manter o domínio da facção sobre a Vila Kennedy e, ao mesmo tempo, ampliar seu território para o Catiri, Jardim Bangu e áreas adjacentes, na Zona Oeste do Rio. O esquema descrito pelos investigadores reunia lideranças regionais, comando territorial, gerentes do tráfico, responsáveis pelas finanças, recrutadores, homens de guerra e soldados encarregados de executar incursões armadas.
No topo dessa estrutura regional, segundo a denúncia, estavam Edgar Alves de Andrade, vulgo Doca, e Carlos da Costa Neves, vulgo Gadernal, identificados como líderes do Comando Vermelho com atuação nas comunidades do Complexo da Penha, Vila Kennedy e Catiri.
Gadernal, segundo a acusação, atuava sob as ordens de Doca e era responsável por coordenar as ações de expansão territorial na região denominada Catiri, além de organizar o deslocamento de indivíduos da Vila da Penha para a Vila Kennedy.
Logo abaixo dessa liderança regional aparece Marcelo Cardoso, vulgo Pezão, apontado na denúncia como o “dono” da comunidade Vila Kennedy.
Segundo a acusação, Pezão encontrava-se recolhido ao sistema penitenciário, mas, mesmo preso, mantinha amplo e total domínio dos atos ilícitos praticados pelos integrantes da associação criminosa. De dentro do cárcere, ele dirigiria as atividades dos comparsas responsáveis pela exploração do tráfico de drogas naquela localidade.
A investigação descreve, portanto, uma estrutura na qual a liderança poderia ser exercida mesmo a partir do sistema penitenciário, mantendo sob comando as atividades criminosas desenvolvidas nas ruas.
Sombrão: o homem que controlava a Vila Kennedy
Na estrutura territorial da Vila Kennedy aparece Jorge Alexandre Cândido Maria, vulgo Sombrão, apontado na denúncia como o “dono da Vila Kennedy”.
Em outro trecho da investigação, Sombrão é identificado como lugar-tenente de Pezão, seu subordinado direto e responsável por atuar como o longa manus do chefe.
Segundo a acusação, Sombrão era o “frente” da Vila Kennedy e controlava o funcionamento criminoso dos demais integrantes da associação.
A investigação atribui a ele uma atuação que ia muito além da simples participação no tráfico.
Sombrão seria responsável por oferecer apoio logístico à associação e fornecer abrigo a integrantes do tráfico.
Segundo a denúncia, foi também Sombrão quem integrou Caio Felipe Ferreira da Cruz, vulgo Reizin, como soldado do tráfico do Comando Vermelho.
Além disso, teria sido Sombrão quem autorizou Gadernal a ceder o controle do transporte alternativo de Bangu e adjacências para Rafael Luz Souza, vulgo Pulgão.
Sombrão possuía ainda mandado de prisão em aberto, segundo a denúncia, após ter sido libertado por progressão de regime, retirado a tornozeleira eletrônica e não justificado sua conduta às autoridades competentes.
Branco: o “dono dos drones” e os olhos da facção no território
Logo depois de Sombrão aparece Alexsandro Teixeira Torres, vulgo Branco, apontado pela investigação como uma das peças estratégicas do aparato operacional utilizado pelo Comando Vermelho na guerra territorial.
Branco, segundo a denúncia, era responsável por oferecer apoio aéreo aos traficantes locais e aos integrantes do Bonde dos Crias, utilizando drones para monitorar as regiões onde seriam realizadas as missões.
Os equipamentos permitiam acompanhar a movimentação das áreas que seriam alvo das incursões e fornecer informações aos criminosos antes e durante as operações.
As informações obtidas pelos drones eram repassadas aos demais integrantes da associação por meio dos grupos de WhatsApp utilizados para organizar as ações.
A investigação ganhou novos elementos a partir da decisão judicial proferida no processo nº 0049046-76.2025.8.19.0001, que autorizou o afastamento do sigilo de dados telemáticos e das comunicações telefônicas armazenados no aparelho celular apreendido no IP 034-06345/2025.
Posteriormente, segundo a denúncia, verificou-se que o aparelho pertencia ao menor Abraão de Paula Gomes da Silva, vulgo B2.
A análise das mensagens enviadas aos grupos de WhatsApp permitiu, segundo os investigadores, identificar Branco como o “dono dos drones”.
Sua atuação, conforme descrita na denúncia, não se limitava à operação dos equipamentos.
Branco seria responsável por coordenar ataques e facilitar as movimentações dos criminosos, utilizando os drones para monitorar as áreas, indicar os alvos, apontar as rotas de acesso e acompanhar a movimentação dos milicianos.
Com essas informações, segundo a acusação, Branco auxiliava os membros do Comando Vermelho, os chamados “soldados do tráfico” e os integrantes do Bonde dos Crias a evitar o cerco das forças de segurança pública, contribuindo diretamente para a efetividade das investidas criminosas.
A denúncia aponta ainda indícios de que Branco seria responsável pelo lançamento de granadas por meio de drones na região do Catiri.
Embora os ataques tivessem como alvo os milicianos, segundo a investigação, os artefatos acabavam por vezes atingindo residências que não possuíam qualquer relação com a guerra entre os criminosos.
Os relatos constariam do RO 034-11771/2025.
Também há registro, segundo a denúncia, de lançamento de drones na direção das forças policiais que atuavam no Catiri, conforme o RO 034-14663/2025.
Chel da Congo e RD: recrutamento e formação do Bonde dos Crias
Depois do núcleo de comando territorial, a investigação aponta Gabriel Pinagé do Carmo Maria, vulgo Chel da Congo ou Iluminado, e Rodney Lima de Freitas, vulgo RD, como responsáveis por uma das principais engrenagens da expansão territorial.
Segundo a denúncia, os dois tinham a missão de recrutar jovens na Vila Kennedy e no Catiri para formar o grupo denominado Bonde dos Crias.
O objetivo seria realizar incursões armadas para expulsar milicianos e consolidar o domínio do tráfico nas regiões do Catiri, Jardim Bangu e adjacências.
RD é apontado como ex-integrante de grupos de milicianos que ingressou no tráfico de drogas do Comando Vermelho.
Segundo a investigação, atualmente ele lidera a chamada Tropa do RD, formada por traficantes provenientes de diversas comunidades da Zona Oeste, e também uma célula denominada GAT dos Crias.
RD ainda forneceria apoio logístico ao Bonde dos Crias.
Para colocar as ações criminosas em prática, segundo a denúncia, RD recebia as missões dos líderes Doca e Gadernal e as repassava a Chel da Congo.
Chel da Congo, por sua vez, atuaria recrutando e coordenando os chamados “soldados do tráfico” por meio de grupos de WhatsApp, especialmente os grupos “ATAQUE”, “ATAQUE RESULTADO” e “PLANTÃO CASINHAS”.
Léo Barrão, Teik e Tia Néia: a gerência do tráfico
Além do apoio logístico de Branco e da estrutura de recrutamento e guerra coordenada por Chel da Congo e RD, a associação criminosa contaria, segundo a denúncia, com Leonardo Farinazo, vulgo Léo Barrão; Moisés da Silva, vulgo Teik; e Adriano Ferreira, vulgo Tia Néia.
Os três são identificados como gerentes do tráfico em diferentes áreas.
Léo Barrão é apontado como gerente do tráfico na Vila Kennedy.
Segundo as investigações, ele atuava na supervisão da venda e distribuição de entorpecentes, no controle dos pontos de venda e no controle de armas.
Além disso, Léo Barrão seria o responsável pela parte financeira da associação, exercendo a função de “caixinha do crime”.
Durante as investigações, Léo Barrão foi preso e teve seu mandado de prisão temporária cumprido no interior do sistema prisional.
Na ocasião, segundo a denúncia, foram apreendidos cinco aparelhos celulares na cela em que ele se encontrava, conforme o RO 034-10153/2025.
Moisés da Silva, vulgo Teik, é identificado como gerente do tráfico na Manilha.
Homem de confiança de Sombrão, Teik também exerceria a função de “gerente operacional” da organização.
Segundo a acusação, era responsável pelo planejamento e execução dos planos de defesa territorial e dos ataques contra integrantes de grupos rivais.
Por essa atuação, é apontado como um dos principais “homens de guerra” da associação.
Já Adriano Ferreira, vulgo Tia Néia, é identificado como gerente na região da Metral.
Ele atuaria na supervisão da venda e distribuição de entorpecentes, no controle dos pontos de venda e no controle das armas.
A denúncia também atribui a Tia Néia uma função relacionada ao controle financeiro e à disciplina interna do grupo.
Segundo a acusação, caberia a ele conferir os valores obtidos com o tráfico, fiscalizar as vendas diárias e determinar punições aos integrantes considerados inadimplentes.
Pulgão: transporte alternativo sob controle do tráfico
Rafael Luz Souza, vulgo Pulgão, ex-inspetor da Polícia Civil, é apontado como um dos líderes da Tropa do RD.
Segundo a investigação, Pulgão fornecia apoio logístico e armado à associação criminosa e atuava ainda na vertente de controle administrativo do transporte alternativo na região de Bangu e adjacências.
O objetivo, segundo a denúncia, seria facilitar o domínio do Comando Vermelho e consolidar o tráfico de drogas como atividade predominante na região.
A atuação de Pulgão estaria diretamente ligada aos objetivos da facção de consolidar o tráfico no Catiri e Jardim Bangu, além de dominar as áreas de acesso ao complexo penitenciário para facilitar eventuais fugas de líderes criminosos.
A investigação afirma ainda que Pulgão tentava transitar entre integrantes do Comando Vermelho e do Terceiro Comando, além de negociar com milicianos.
Para os investigadores, esse comportamento demonstraria uma atuação articulada e de dominância entre diferentes grupos criminosos.
Reizin: ex-miliciano que virou soldado do CV
Caio Felipe Ferreira da Cruz, vulgo Reizin, é apontado como ex-miliciano e braço direito de RD.
Segundo a denúncia, ele atuava diretamente nas disputas territoriais contra as milícias na Vila Kennedy.
O relatório de investigação da 34ª DP aponta ainda possível participação de Reizin na morte do policial penal Henry dos Santos Oliveira, em dezembro de 2024, e do policial civil da CORE João Pedro Marquini.
Reizin foi preso em 17 de junho de 2025, quando, segundo a investigação, participava de uma tentativa de invasão à comunidade do Catiri.
Ao ser interrogado nos procedimentos 901-01239/2024 e 034-08662/2025, teria confessado ter sido integrado ao Comando Vermelho por Sombrão.
Também teria relatado que recebia ordens de Chel da Congo para realizar missões destinadas à expansão territorial e ao controle da região do Catiri.
A prisão ocorrida em 17 de junho teria frustrado uma tentativa de emboscada contra o miliciano conhecido como Montanha, em meio à disputa pelo controle do transporte alternativo na região de Bangu e adjacências.
Segundo a denúncia, a ação contou com a participação de Reizin, Pulgão e Branco.
Vanvan e a Tropa do Pará
Erivan Silva de Souza, vulgo Vanvan, é apontado como “homem de guerra” da associação criminosa.
Segundo a investigação, ele estaria diretamente ligado a Gadernal e integraria a chamada Tropa do Pará, grupo que realizaria ofensivas em apoio ao Comando Vermelho para ampliar o domínio territorial da facção.
A denúncia menciona ainda imagens publicadas em redes sociais abertas nas quais Vanvan apareceria ostentando armas de guerra.
Sassá e os Crias CTR
Anderson Sá dos Santos, vulgo Sassá, é identificado como soldado do tráfico.
Ele foi preso em 14 de abril de 2024 e, segundo a denúncia, confessou sua participação na associação criminosa.
Sassá teria relatado que foi recrutado pelo grupo denominado Os Crias CTR, que apoiaria o Comando Vermelho com a intenção de expulsar os milicianos do Catiri.
Ainda segundo seu relato, o CV receberia apoio da facção Amigos dos Amigos (ADA).
Quando ocorriam operações na Vila Kennedy, integrantes do Comando Vermelho seriam autorizados, segundo o relato mencionado na denúncia, a se esconder na comunidade controlada pela ADA.
WL e 2D: tráfico e vigilância armada
Wendel da Silva Ferreira, vulgo WL, e David Allan da Silva Monteiro, vulgo 2D ou Da VK, são apontados como integrantes da chamada Tropa do Ódio.
Segundo as investigações, os dois atuavam na venda de entorpecentes e na vigilância armada das bocas de fumo.
A Tropa do Ódio também seria ligada à prática de roubos, atuando de maneira coordenada em diferentes pontos estratégicos, sobretudo na Vila Kennedy.
A investigação sustenta que a atuação de WL e 2D tanto no tráfico quanto nos crimes patrimoniais contribuía para o aumento da violência na região de atuação da associação criminosa.
Mãozinha: coordenador dos mais jovens
Guaracyã de Oliveira Nogueira, vulgo Mãozinha, atuaria principalmente nas invasões realizadas nas regiões do Catiri, Cancela Preta e Jardim Bangu 2.
Segundo a denúncia, ele seria responsável por coordenar a atuação dos “soldados do tráfico” mais jovens.
Mãozinha foi preso na comunidade do Catiri portando uma arma de fogo.
A investigação também menciona imagens obtidas por meio do Disque Denúncia nas quais ele apareceria portando um fuzil.
GB: conhecimento do território
Gabriel da Silva Cezario Sanches, vulgo GB, é identificado como soldado do tráfico e membro do Bonde dos Crias do Catiri.
Sua função estaria relacionada ao apoio tático.
Segundo a denúncia, por ser morador antigo da região e conhecer sua geografia, GB orientava os demais membros da associação, indicando caminhos e rotas de fuga.
GB foi preso no curso das investigações.
Ele já havia sido preso anteriormente, no início de 2025, na Avenida do Canal, em Jardim Bangu, portando uma arma de fogo.
A acusação afirma que a circunstância também seria corroborada por imagens obtidas por meio do Disque Denúncia.
PL: o “plantão” do tráfico
Pedro Lucas Protásio de Oliveira, vulgo PL, é identificado como integrante do Bonde dos Crias e soldado do tráfico.
Segundo a investigação, ele atuava principalmente no monitoramento das regiões onde seriam realizadas as incursões armadas e participava dos grupos de mensagens utilizados pelos criminosos.
PL foi preso enquanto atuava na região do Catiri, no dia 14 de abril de 2025, ocasião em que portava uma arma de fogo.
A acusação afirma que imagens obtidas durante as diligências corroboravam a posse da arma.
Ainda segundo a denúncia, PL relatou que, no dia da prisão, fazia “plantão” para o Comando Vermelho.
Menino Deus e JF: braços direitos de Chel da Congo
Dilson Pimenta Ramos da Silva Costa, vulgo Menino Deus, é identificado como integrante do tráfico na Vila Kennedy e apontado como braço direito de Chel da Congo.
Segundo a investigação, ele participava de inúmeros confrontos armados, tanto nas disputas entre milicianos e traficantes quanto nos enfrentamentos com forças policiais durante operações na Vila Kennedy.
Antônio Jefferson Mendes Pereira, vulgo JF, também é apontado como braço direito de Chel da Congo.
Ele integra o Bonde dos Crias como soldado do tráfico e é considerado, segundo a denúncia, “homem de guerra” e de alta periculosidade.
Sua atuação estaria ligada aos confrontos entre traficantes e milicianos no Catiri e aos enfrentamentos com as forças de segurança.
B2: o menor na linha de frente
A investigação aponta ainda a participação do menor Abraão de Paula Gomes da Silva, vulgo B2.
Segundo a denúncia, os integrantes da associação criminosa teriam corrompido o adolescente para que se associasse ao grupo com o objetivo de praticar tráfico ilícito de entorpecentes.
B2 foi identificado como integrante tanto do Bonde dos Crias quanto do Grupo de Ações Táticas, o GAT dos Crias.
Ele é descrito como “puxador de guerra” e articulador violento das ações criminosas no Catiri.
As diligências apontariam ainda que B2 frequentemente se colocava na linha de frente dos confrontos com as forças de segurança.
Além de participar da execução das ações, ele também atuaria no planejamento por meio de sua participação nos grupos de mensagens do WhatsApp utilizados pela organização.
Uma estrutura de tráfico, guerra e controle territorial
Segundo descreve a denúncia, durante aproximadamente sete meses, a partir de maio de 2025, os denunciados teriam se associado de forma estável e permanente para praticar reiteradamente crimes de tráfico de drogas na Vila Kennedy.
A organização exploraria diversas “bocas de fumo” distribuídas pela comunidade e comercializaria cocaína, maconha, haxixe e lança-perfume, descrito na denúncia como solvente organoclorado constituído por cloreto de metileno.
O conjunto probatório produzido na fase pré-processual teria demonstrado, segundo o Ministério Público, que os integrantes atuavam nos moldes de uma sofisticada associação criminosa, marcada por poder hierárquico, controle territorial, divisão de tarefas, conluio com outros criminosos e ação bélica contra agentes da segurança pública.
Para incrementar o comércio das drogas, a organização manteria vários pontos de venda.
Para proteger o território, os criminosos exibiriam armamento de guerra e montariam um esquema de contenção armada destinado a impedir incursões das forças de segurança e enfrentar integrantes de grupos rivais.
A denúncia afirma que homicídios e torturas eram praticados como mecanismos de intimidação coletiva, com o objetivo de aterrorizar a população e manter ou expandir o controle territorial.
As redes sociais também seriam utilizadas como instrumento de demonstração de poder. Os integrantes publicariam centenas de fotos e vídeos exibindo o poderio bélico da organização e corpos de rivais.
Segundo a acusação, eles chegavam a realizar transmissões ao vivo de invasões a comunidades dominadas por grupos rivais, patrulhamento em diferentes localidades, ataques contra forças de segurança e execuções de adversários.
A organização teria ainda passado a utilizar drones para monitoramento de grupos rivais e lançamento de artefatos explosivos, colocando Branco em posição estratégica dentro do aparato de guerra.
Além disso, segundo a denúncia, os criminosos teriam incorporado atividades tradicionalmente associadas às milícias, como cobrança de “taxa de circulação” do transporte alternativo, exploração do comércio irregular, monopólio da distribuição de gás de cozinha, Gatonet, rede clandestina de internet, constrangimentos ilegais e extorsões contra moradores, comerciantes e funcionários de concessionárias de serviços públicos.
A acusação afirma ainda que os integrantes determinavam e praticavam homicídios para consolidar o poder de fato nas regiões dominadas e exterminar integrantes de facções rivais.