O Ministério Público Eleitoral pediu a impugnação da candidatura de João Drumond à Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) após identificar, em provas compartilhadas pelo GAECO/MPF, elementos que, segundo a Procuradoria, podem indicar a utilização da candidatura para alcançar representação dos interesses do jogo do bicho dentro do Legislativo fluminense.
As novas provas foram obtidas durante uma investigação criminal e encaminhadas à Procuradoria Regional Eleitoral após autorização judicial para o compartilhamento do material. Segundo o GAECO/MPF, a investigação apura crimes de violação de sigilo funcional e obstrução de investigação envolvendo uma organização criminosa com integrantes relacionados a contraventores do jogo do bicho.
O material aponta, de acordo com o Ministério Público, relações de proximidade entre Vinícius Pereira Drumond e Jader Areas, apontado como liderança da organização criminosa investigada na chamada Operação Trampo. Também aparecem nas investigações outros suspeitos de integrar a organização, entre eles Jomar Duarte Bittencourt Junior.
Foi justamente em material telemático relacionado a Jomar, segundo o GAECO/MPF, que foram encontradas provas sobre o envolvimento dele na candidatura de João Drumond à Alerj.
Para a Procuradoria, esse elemento é particularmente relevante porque o caso deixa de envolver apenas o parentesco do candidato com integrantes da família Drumond ligados à contravenção.
João Drumond é neto de Luiz Pacheco Drumond, o Luizinho Drumond, apontado no relatório de inteligência como um dos mais poderosos contraventores do Rio de Janeiro, e sobrinho de Vinícius Pereira Drumond, citado em investigações relacionadas ao jogo do bicho e a outros crimes.
O relatório de inteligência utilizado pelo Ministério Público afirma ser possível inferir uma ligação, ainda que indireta, de João Drumond com o jogo do bicho no Rio justamente em razão desses vínculos familiares.
O documento também cita Vinícius Drumond como alvo de investigações sobre contravenção, agiotagem, lavagem de dinheiro, corrupção e possível envolvimento no assassinato do advogado Rodrigo Marinho Crespo, morto no Centro do Rio em 2024. Segundo o relatório, Vinícius teria herdado influência sobre a escola de samba Imperatriz Leopoldinense e pontos ligados à contravenção em áreas como Ramos, Manguinhos, Maré, Bonsucesso, Complexo do Alemão, Penha, Parada de Lucas e Vigário Geral.
O relatório também menciona a participação de João Drumond em atividades de uma ONG localizada no Complexo do Alemão, região que, segundo o documento, seria dominada pelo Comando Vermelho.
Com o compartilhamento das provas obtidas pelo GAECO/MPF, a Procuradoria Regional Eleitoral afirma que o quadro apresentado no pedido inicial de impugnação foi “sobremodo robustecido”.
O Ministério Público destaca principalmente os elementos que, segundo o órgão, apontam para a participação de pessoas investigadas na própria candidatura de João Drumond.
Na avaliação da Procuradoria, os novos elementos, somados ao contexto familiar já apresentado, podem indicar que a candidatura teria sido utilizada para buscar representação dos interesses do jogo do bicho na Alerj.
Por isso, o MPE pediu que toda a documentação compartilhada pelo GAECO/MPF seja incorporada ao processo e considerada na análise da impugnação.
A acusação apresentada pelo Ministério Público ainda será analisada pela Justiça Eleitoral, que decidirá sobre a situação da candidatura.
Outra candidatura que o MPE pediu impugnação foi a de Júnior da Lucinha, sob argumentação que ela seria resultado da tentativa de preservação de uma estrutura política construída em território apontado como área de atuação de organização criminosa.
O órgão sustenta que a candidatura representa um projeto político independente, mas uma estratégia de sucessão eleitoral para preservar o espólio político e territorial da família Barros, estrutura que, segundo a acusação, estaria vinculada às mesmas redes de influência investigadas por constituição de milícia privada.
Atual vereador e filho da deputada estadual Lucinha, o candidato teria assumido, de acordo com o MPE, o papel de substituto político da mãe depois que ela foi impedida de disputar a reeleição. Para a Procuradoria, a candidatura seria uma forma de manter o projeto político familiar mesmo diante das acusações criminais que atingem Lucinha.
Lucinha é ré em ação penal que tramita no Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, decorrente das investigações da Operação Dinastia II. Segundo a denúncia do Ministério Público, ela é acusada de constituição de milícia privada e apontada como integrante do núcleo político da organização criminosa conhecida como Bonde do Zinho, Tropa do Z ou Família Braga, grupo liderado por Zinho e com atuação predominante na Zona Oeste do Rio.
A acusação sustenta que Lucinha teria utilizado sua condição de agente pública para defender interesses da organização criminosa, interferindo politicamente para favorecer o grupo, dificultar ações do Estado e proteger seus integrantes. O caso chegou a provocar o afastamento cautelar da deputada do cargo parlamentar por decisão judicial, medida posteriormente revertida pela Assembleia Legislativa.
Para o MPE, é nesse contexto que surge a candidatura de “Júnior da Lucinha”.
Segundo os Relatórios Técnico e de Inteligência anexados ao processo, existe uma forte coincidência entre a votação obtida por Lucinha nas eleições de 2022 e a votação de seu filho nas eleições municipais de 2024.
De acordo com a análise apresentada pela Procuradoria, cerca de 89,9% dos votos de Lucinha no município do Rio de Janeiro ficaram concentrados em zonas eleitorais de Santa Cruz e Campo Grande. Nas eleições seguintes, “Júnior da Lucinha” teria reproduzido praticamente o mesmo padrão, com 89,1% de sua votação concentrada nas mesmas regiões.
O relatório do TRE-RJ classificou como “extremamente atípico” o desempenho da família Barros em 36 locais de votação reunidos em um mesmo agrupamento geográfico. Segundo o documento, esses locais estariam situados em áreas apontadas como território de atuação do Bonde do Zinho.
Um dos exemplos citados é uma escola municipal onde a família Barros teria alcançado 48,1% dos votos nominais, índice 10,7 vezes superior ao obtido pelo segundo colocado.
Outro dado destacado pela investigação é que as nove zonas eleitorais nas quais Lucinha obteve suas maiores votações são exatamente as mesmas em que seu filho concentrou os maiores resultados, circunstância interpretada pelo MPE como indício de manutenção da estrutura político-eleitoral anteriormente construída pela deputada.
O relatório também aponta a atuação de Leonardo, irmão de um miliciano identificado pelo apelido de “Teco”, condenado a mais de 24 anos de prisão por constituição de milícia privada.
Segundo os documentos apresentados pela Procuradoria, Leonardo aparece em publicações nas redes sociais ao lado de Lucinha e de “Júnior da Lucinha” durante visitas a comunidades da Zona Oeste. As imagens registrariam participação em inaugurações, entrega de obras e equipamentos públicos, divulgação de serviços e reuniões com moradores em localidades como Rolas, Comunidade do Aço, Boa Esperança, Nova Jersey e Vila Califórnia.
Para o Ministério Público, a atuação recorrente de Leonardo como liderança comunitária e interlocutor político da família Barros nessas regiões é relevante porque são justamente áreas onde Lucinha e seu filho concentram parte expressiva de seus votos.
Além dos dados eleitorais e das relações apontadas nos relatórios, o processo reúne relatos encaminhados ao SAC-JE e ao Disque-Denúncia sobre supostos métodos de intimidação eleitoral.
Um dos relatos citados pelo MPE afirma que, no Conjunto Cesarão, familiares de milicianos presos estariam participando de atividades de campanha de porta em porta e pressionando moradores a comparecer a eventos políticos.
Também aparecem denúncias de que Lucinha teria realizado atos de campanha acompanhada por homens armados e ameaçado represálias contra moradores que não votassem em seu filho. Há ainda relatos sobre um suposto pagamento à milícia local para garantir exclusividade da campanha na região e sobre cobranças de taxas impostas a moradores.
O Ministério Público ressalta que não pretende atribuir responsabilidade eleitoral a “Júnior da Lucinha” simplesmente por ele ser filho de Lucinha ou por atos atribuídos a pessoas de sua família.
A tese apresentada é outra: os vínculos familiares, segundo a Procuradoria, passam a ter relevância quando são analisados em conjunto com os demais elementos reunidos na investigação, como a concentração territorial dos votos, a atuação de pessoas apontadas como integrantes ou ligadas à organização criminosa e os relatos de intimidação eleitoral.
Para o MPE, esse conjunto indicaria que a candidatura seria uma continuidade política e institucional da estrutura anteriormente associada a Lucinha, com o objetivo de preservar a influência política em territórios dominados pela organização criminosa.
A Procuradoria cita ainda decisão do Tribunal Superior Eleitoral segundo a qual a análise da participação em organização criminosa pode considerar “elementos denotativos de participação”, conforme precedente mencionado na própria manifestação.
Com base nesse conjunto de elementos, o Ministério Público Eleitoral sustenta que o registro da candidatura representaria o risco de legitimação da influência do crime organizado sobre o Poder Público e de comprometimento da liberdade do voto popular.
Por isso, pede à Justiça Eleitoral a impugnação do registro da candidatura de “Júnior da Lucinha”, argumentando que sua candidatura seria resultado da tentativa de preservação de uma estrutura política construída em território apontado como área de atuação de organização criminosa.
O deputado estadual Val do Ceasa, que busca novo mandato na Alerj também teve pedido de impugnação de sua candidatura. Neste caso, o MP Eleitoral baseou-se na Constituição (Art. 17, 4o), que veda o uso de organizações paramilitares por partidos, citando julgamentos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), inclusive em processos sobre políticos do estado do Rio de Janeiro, para impedir a interferência de grupos criminosos organizados no processo eleitoral. Na ação, o procurador regional eleitoral Flávio Paixão citou investigações que revelaram vínculos entre o político e o TCP.
A ação narra que, em 2023, Val Ceasa foi até um Batalhão da Polícia Militar para interceder e tentar impedir a deflagração de operação policial contra imóveis irregulares em Parada de Lucas. Os locais eram fortificações de luxo equipadas pela facção para disparar contra forças de segurança. Há apurações ainda de que o deputado nomeou assessores ligados ao crime organizado e teve votação expressiva concentrada em áreas dominadas pelo grupo nas eleições de 2022.
As impugnações foram encaminhadas ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE/RJ) e pedem o indeferimento definitivo dos registros de candidatura. As ações têm como fundamento o combate à interferência de organizações criminosas no processo eleitoral e o descumprimento de requisitos previstos na Lei das Inelegibilidades.
Em todas as ações, o MP Eleitoral pede ao TRE/RJ o indeferimento definitivo dos registros de candidatura questionados. Outros registros continuam sob análise, à medida que o Ministério Público Eleitoral toma ciência das candidaturas.