Relatório da Justiça destrincha bastidores de uma equivocada operação do BOPE em 7 de junho do ano passado que terminou com a morte de um jovem inocente e deixou cinco pessoas baleadas no Morro do Santo Amaro, no Catete, na Zona Sul carioca.
O documento mostra como um rapaz chamado Herus Guimarães Mendes, então com 23 anos, acabou morto.
Segundo a Justiça, o jovem foi atingido por disparos porque fez menção de correr, desatendendo a ordem dada por um dos PMs, segundos antes, conforme demonstram as imagens captadas pela câmera corporal.
Após ver o rapaz caído, o PM que efetuou os disparos chegou a afirmar: “Sai filho da puta”, de acordo com o que consta no relatório.
Quando foi atingido, Herus encontrava-se de costas para o PM, completamente desarmado, em movimentação indicativa de sua intenção de buscar abrigo e proteção em relação à ação policial
O relatório aponta que o PM estava no topo de uma escadaria onde pôde visualizar Herus encostado a um poste de iluminação, quando, então, sob a mira de seu fuzil, determinou que o rapaz seguisse, dizendo “vem, vem”.
Ocorre que a vítima hesitou por alguns instantes e, então, fez menção de correr (sem esboçar, vale dizer, nenhuma ação que pudesse colocar em risco o policial ou seus colegas de farda).
Não obstante não ter havido nenhum sinal que pudesse sugerir agressão atual ou iminente por parte da vítima, o PM de maneira inteiramente injustificada, efetuou disparos de arma de fogo contra Herus, vindo a causar-lhe o resultado morte.
“A peça técnica, demonstra que “a convergência dos elementos dinâmicos e dos achados médico-legais” e “a análise técnica integrada da dinâmica dos fatos e dos achados necroscópicos permite concluir, com elevado grau de certeza pericial” que “a movimentação corporal de Herus Guimarães Mendes era inequivocamente compatível com a busca por abrigo e proteção, e não com qualquer ato de agressão ou ameaça”, diz o relatório.
O documento aponta que o oficial de operações do BOPE omitiu- se de maneira penalmente relevante, faltando aos deveres acima referidos, ao deixar de comunicar aos seus superiores que se realizava uma festa junina no local no momento da operação.
Na ocasião, conforme a Ordem de Operações nº 072/2025 do BOPE, foi determinada a realização de operação policial dos tipos A Rep I (vasculhamento) e A Rep II (busca e captura), na localidade a ser desempenhada pela Equipe ALFA de Operações Especiais,
Para justificar a operação, havia a notícia de que “a ação de indivíduos fortemente armados integrantes da organização criminosa Comando Vermelho, responsável por diversas práticas criminosas na comunidade Santo Amaro e que vem causando comprometimento à segurança e ordem públicas trazendo crescimento exacerbado nos indicadores de criminalidade de roubo de cargas, roubo de veículo e letalidade violenta da AISP
Durante o dia anterior (06/06/2025), um dos PMs contactou várias vezes o Subcomandante da unidade, solicitando autorização para realizar a operação.
A ação só foi concedida somente por volta das 23:00h, ao que o PM chegou a se insurgir, sob o argumento de que a equipe já estaria descansando. Ainda assim, o subcomandante manteve a autorização, afirmando que o descanso da equipe não seria motivo para o adiamento de uma operação que já havia sido devidamente autorizada.
Neste cenário, por volta da 01:00h da madrugada do dia 07 de junho, a Equipe de Busca do Serviço Reservado (P2) do BOPE, foi acionada proceder ao reconhecimento aéreo, com o drone da corporação, da comunidade do Santo Amaro.
Em um primeiro sobrevoo, não foram visualizados criminosos ostensivamente armados ou praticando a mercancia ilícita de material entorpecente.
Porém, foi constatada a realização de uma festa junina com grande aglomeração de pessoas.
Registre-se que este primeiro voo foi interrompido devido às condições meteorológicas, tendo sido retomado por volta das 02h30min, quando, então, foi possível visualizar a presença de criminosos armados do outro lado da comunidade, em uma escadaria localizada na Rua Pedro Américo, além da própria festa junina.
O cenário foi comunicado a um dos PMs que, não obstante, deixou de informar seus superiores hierárquicos e decidiu pela manutenção da operação policial, mesmo diante da aglomeração de pessoas causada pela festa junina em andamento, em clara violação de seu dever objetivo de cuidado, proteção ou vigilância, quando podia e devia ter agido de modo a garantir a incolumidade das pessoas presentes no evento e, em última instância, de seus próprios comandados.
Vale ressaltar que a orientação dada pelo PM aos seus comandados de que não ingressassem na mas que circulassem apenas pelas vias próximas à toda evidência, se mostrava claramente insuficiente para mitigar o altíssimo risco de danos colaterais durante a ação policial.
De fato, em diálogo captado pela câmera corporal vê- se que o PM tinha plena ciência da perigosa proximidade dos traficantes :
…Posso te falar uma parada… olha só… presta atenção! Tem uma caixa de som no meio da rua… que está dividindo… atrás da caixa de som, está vazio e lá atrás é onde o bonde… então, se tu entrar… em vez de entrar pela rua que a gente entrou, entrar pelo que o Daniel foi, entrou e até o final, tu sai lá no miolo da favela, tu sai atrás da festa, que é onde o bonde…
[…]
… Tu entendeu, o beco da direita… … … tu vai descer reto nele, tu vai entrar à esquerda, tu vai sair atrás da festa… a festa vai estar atrás de tu e o bonde vai tá ali, né…
… Tu tá entendendo o que eu tô falando? … (…) … sim, mas tu tá entendendo que tu vai sair atrás da festa e o bonde vai estar atrás…
Já durante o deslocamento, o PM reforçou sua posição:
Por volta das 03h10min, um tenente comentou já foi informado de alguns meliantes estão em uma laje após o local da festa.
Um minuto depois, o tenente recebe ligação onde foi informado que tem muita gente na rua, crianças, e que o ideal seria realizar a operação às 05h30min ou 6h, pois tem muita criança no meio, correndo, brincando São João e informa que o bonde que foi visto já tinha saído.
O operador do drone disse”o senhor avalia aí”, contudo, o tenente informou que vão entrar
.
Minutos deois o tenente pediu a um colega que confirme que ouviu e repete”está cheio de criança na rua e que seria para entrar mais tarde”, então o tenente falou”aí é foda, se for entrar mais tarde vai subir todo mundo pra descansar e acordar de novo?”e perguntou ao colega” vc acha melhor? “que responde” sei lá.
Então o Felipe reforçou a pergunta”dá sua opinião aí, vc é comandante de patrulha”então o outro PM respondeu se for para voltar a dormir e sair de novo é melhor ir agora “, com isso o tenente confirmou a operação no momento”.
O Relatório Definitivo de Imagem (juntado aos autos do IP nº 901-00598/2025), os próprios policiais militares componentes da Equipe Alfa se mostraram desconfortáveis com a decisão tomada de prosseguir com a operação policial naquelas condições.
Um cabo, por exemplo, quando ainda no interior do Batalhão afirmou que “no local da missão havia muitas crianças em um ‘pula-pula’ (brinquedo inflável) e que, caso os criminosos abrissem fogo, não seria possível revidar sem o risco de atingir inocentes que participavam da festa”
O Relatório Definitivo de Imagem informou que, “na sequência, outro policial afirma que não pretende disparar sua arma de fogo durante a operação.
Diante disso, um colega questionou que, ao agir assim, ele poderia morrer caso precisasse se defender.
O mesmo policial respondeu que, por esse motivo, não iria subir a comunidade, acrescentando que era melhor evitar subir e não correr o risco de acertar uma criança por engano do que acabar preso no sábado”.
Ainda em diálogos captados pela câmeras corporais, “ouve-se um policial, em tom de crítica, dizer: ‘ficar de gato e rato, negócio é abortar a missão’. Outro complementa: ’se fosse ficar de gato e rato e não tivesse efeito colateral, mas tendo…’.
Os demais policiais concordaram com esse posicionamento”. Ato contínuo, “um terceiro policial acrescentou que o verdadeiro problema não seriam os disparos dos policiais, mas, sim, dos criminosos que atiravam, segundo ele, ‘a culha’ (de qualquer maneira, sem cuidado)”.
Em seguida,, “esse mesmo policial relatou ainda que havia informado ao ‘01’ que, no levantamento inicial (sobre os alvos e a visibilidade da operação), não constava a realização de uma festa junina no local.
Por essa razão, teria sugerido ao ‘01’ que enviasse o ‘print’ com a informação sobre a festa ao coronel, de forma a cancelar a operação diante da elevada possibilidade de efeitos colaterais”.
Imagens captaram “ainda no interior do BOPE (…) um grupo de policiais aguardando o início da operação e discutindo sobre a melhor forma de adentrar a comunidade”.
Nesta conversa, “um policial se afasta um pouco do grupo e, demonstrando preocupação, dirige-se ao portador da câmera corporal alertando-o para ter cuidado, pois, no local da operação há muitas crianças na rua. (…)
O policial que fez o alerta acrescenta que, muito próximo à barricada, encontram-se traficantes posicionados atrás das crianças.
Ressaltou ainda que havia até um pula-pula no local.
Ao chegarem nas proximidades da comunidade do Santo Amaro, a equipe ALFA foi dividida em três frações diversas, cada uma delas com a missão de ingressar na comunidade por uma via diferente.
Um grupo recebeu determinação de acessar a Rua Marília Tonini (paralela à Rua Nome), enquanto outros PMs ingressariam pelo outro lado da comunidade, na Rua Pedro Américo.
Um PM efetuou disparos de arma de fogo, supostamente reagindo ao ataque de criminosos – muito embora, no Relatório Definitivo de Imagem, conste que “na gravação não foi possível identificar ameaças que justificassem a ação” – o que imediatamente desencadeou uma série de disparos de arma de fogo em outros pontos da comunidade, notadamente na Rua Luiz Onofre Alves, onde se realizava a referida festa junina, causando grande tumulto que culminou com as pessoas baleadas enquanto procuravam abrigar-se dos disparos efetuados.
Os PMs atingiram o final da via, que dava acesso à escadaria;
No topo dela, o PM avistou Herus, que acabaria morto.
“O sargento Daniel chegou na parte baixa da escada e visualizou Herus às 03h27min41s totalmente de costas e abrigado atrás do poste na Rua Luís Onofre Alves onde acontecia a festa, exatamente na frente da parte alta da escada. Neste momento é possível ouvir tiros, os quais não partiram dos policiais, contudo, não se pode determinar a origem.
Com o avanço do sargento, configurado nas imagens pela movimentação de sua sombra no chão e pela mudança da área de captação da câmera corporal, Herus pode ser visualizado novamente segundos depois, às 03h27min45s.
Neste momento, Herus estava posicionado junto ao muro, já entrando no beco da escada, e com a lateral esquerda de seu corpo voltada para o sargento;
O PM falou: vem, vem e o rapaz iniciou sua tentativa de saída do local, abraçando o poste com o braço direito e circundando-o com o tronco, ficando naquele momento, com sua lateral direita na direção do PM.
Herus se organizou corporalmente como tronco inclinado para frente e com a elevação da perna direita para correr em fuga, quando imediatamente em seguida, tem-se disparos de forte intensidade.
Na sequência, visualizou-se a quebra do movimento de fuga de Herus que segurou o poste e começou a cair.
O sargento avançou um pouco mais em direção à Rua Luís Onofre Alves, uma mulher passou descendo as escadas e Herus permanecia sentado no chão encostado no muro verde nos 2 degraus mais altos, com a perna direita flexionada, a esquerda mais abaixo, braços junto ao tronco e olhando na direção do sargento.
Foi possível perceber que o sargento realizou movimentos com a mão direita com características de pedido de afastamento
e falou:” (Vai) pra lá! “.
Ato contínuo, outra mulher apareceu junto ao poste da Rua Luís Onofre Alves.
O sargento chegou à Rua Luís Onofre Alves, passando por Herus que caiu com o corpo sobre os degraus e o chão ainda se ouviam disparos.
Ao passar pelo rapaz, o PM, disse:” Sai, filho da puta! “.
Apesar das evidências apontadas no relatório, a Polícia Civil concluiu que a morte de Herus foi resultado de legítima defesa putativa por parte de um policial do Bope.
Segundo a investigação da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), o PM reagiu “em meio a um cenário de tiros, correria e ataque pesado com armamento de guerra por parte de traficantes”.
A legítima defesa putativa ocorre quando uma pessoa, acreditando estar numa situação em que corre risco, reage a ela, mesmo que esse risco se comprove depois falso.
O inquérito descartou que tenha havido excesso ou ilegalidade na conduta policial, usando para isso laudos e imagens de câmeras corporais: “o caso foi analisado com total transparência e encaminhado ao Ministério Público”.
A Promotoria, no entanto, denunciou à Justiça o 1º sargento PM Daniel Sousa da Silva e o 1º tenente PM Felippe Carlos de Souza Martins pelo homicídio Herus.
Segundo a denúncia do GAESP/MPRJ, o 1º sargento Daniel efetuou os disparos que causaram a morte da vítima. As imagens das câmeras operacionais portáteis demonstram que Herus não esboçou qualquer atitude agressiva e tentou se afastar para se proteger, estando de costas no momento em que foi atingido. Já o 1º tenente Felippe, comandante da equipe ALFA do BOPE, foi denunciado por omissão penalmente relevante, pois decidiu manter a operação mesmo após receber informações de que havia uma festa junina em andamento, com grande número de moradores, incluindo crianças, na Rua Luiz Onofre Alves. O GAESP/MPRJ afirma que o tenente descumpriu seu dever de cuidado e expôs a população a risco grave.
Os dois policiais responderão por homicídio qualificado por motivo fútil e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima.
A denúncia também destaca que o Inquérito Policial concluiu, pela existência de legítima defesa putativa por parte do 1º sargento Daniel, porém essa interpretação não encontra respaldo em nenhuma prova técnica produzida. Segundo o GAESP/MPRJ, as análises de imagens, os laudos periciais e os próprios depoimentos colhidos demonstram que não houve qualquer gesto da vítima que indicasse agressão ou ameaça. O MPRJ ressalta que o IP desconsiderou elementos objetivos da investigação e que a tese de legítima defesa putativa não se sustenta diante do conjunto probatório reunido.
Pedido de suspensão da função pública
O GAESP/MPRJ requereu ao Juízo a aplicação de medidas cautelares, incluindo a suspensão integral do exercício da função policial militar dos dois denunciados. O Ministério Público também solicitou restrição de contato com testemunhas, comparecimento periódico em juízo, proibição de acesso a unidades militares e limitação de deslocamento.
Segundo os promotores, a continuidade dos denunciados no serviço ativo pode comprometer a regularidade da instrução criminal. A denúncia apontou, inclusive, tentativa de manipulação de imagens de câmera por um dos policiais, o que reforça a necessidade das medidas cautelares.
O resultado trágico da operação levou o então governador Cláudio Castro a afastar o comandante do Bope, coronel Aristheu Lopes. Já o coronel André Luiz de Souza Batista, comandante do Comando de Operações Especiais (COE), unidade a qual o Bope é subordinado, também foi afastado.
Posteriormente, o MPRJ denunciou o traficante de drogas Marcos Antonio Pereira Firmino da Silva, conhecido como My Thor, pela tentativa de homicídio de cinco pessoas durante uma festa junina na comunidade do Santo Amaro, no Catete. A ação penal foi recebida pela 4ª Vara Criminal da Comarca da Capital, que decretou a prisão preventiva do denunciado.
Segundo a denúncia, My Thor, que chefia o tráfico de drogas na comunidade, ordenou que traficantes atirassem contra agentes da Polícia Militar
Para conter o avanço dos policiais, os criminosos teriam efetuado disparos em direção à população que estava na Rua Luiz Onofre Alves, onde se realizava a festa com grande aglomeração de pessoas, inclusive crianças.