Uma investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) sobre uma milícia que atuava nos bairros Xavantes e Babi, em Belford Roxo, revela um episódio que chama atenção pela possível conexão entre grupos criminosos de territórios distintos: uma carga de 80 caixas de munição calibre 9mm teria sido disponibilizada para retirada na Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio, área de atuação do Comando Vermelho (CV).
A informação aparece nas mensagens recuperadas do celular de Gustavo Sena de Castilho, o “Pulga”, durante a investigação que resultou na Operação Dazazé. Segundo a denúncia, o aparelho continha comunicações que detalhavam o funcionamento da milícia, sua divisão de tarefas e a atuação de seus integrantes.
Entre os investigados está Joaquim Ilson Oliveira Costa, o “Ilsinho”, apontado pelo Ministério Público como integrante da organização criminosa. De acordo com a investigação, ele teria exercido diferentes funções de apoio ao grupo, entre elas a comunicação de roubos ocorridos na região, o transporte de integrantes, a ocultação de veículos roubados ou adulterados e a intermediação para aquisição de munições.
Foi justamente essa última atividade que levou a investigação até a Vila Kennedy. Conforme os elementos extraídos do aparelho celular, em 27 de setembro de 2024, Ilsinho teria encaminhado a Pulga uma fotografia de caixas de munição calibre 9mm acompanhada de uma mensagem informando que 80 caixas estavam disponíveis para retirada na Vila Kennedy.
O episódio ganha relevância porque a Vila Kennedy é uma área historicamente associada à atuação do Comando Vermelho. A informação, portanto, levanta uma suspeita sobre a existência de uma conexão ou de algum tipo de canal de fornecimento de munições entre integrantes da milícia investigada em Belford Roxo e criminosos que atuam em território do CV.
A investigação, por si só, não estabelece que a facção tenha fornecido as munições à milícia nem identifica, no trecho analisado, quem seria o responsável pela disponibilização da carga. O que consta é que a munição foi anunciada para retirada naquele território e que o contato atribuído a Ilsinho aparece relacionado à negociação. A circunstância, contudo, passou a integrar o conjunto de elementos usados pelo Ministério Público para sustentar a participação dele na estrutura criminosa.
A linha telefônica utilizada nas conversas estava registrada no celular apreendido sob o nome “Ilsinho” e, segundo a denúncia, encontrava-se vinculada à chave PIX atribuída ao investigado.
A atuação de Ilsinho, segundo o Ministério Público, não teria se limitado à questão das munições. Em 26 de março de 2024, ele teria avisado Pulga sobre dois homens que estariam praticando roubos na região em uma motocicleta e portando uma arma de fogo, informação que serviria para que integrantes da milícia os abordassem posteriormente.
Dois dias depois do episódio envolvendo a munição, em 29 de setembro de 2024, Ilsinho teria sido acionado para buscar o corréu Lucas da Silva Santos no bairro Babi e levá-lo até Xavantes. Depois que Lucas se envolveu em um acidente com uma motocicleta apontada como produto de crime, Ilsinho teria comparecido ao local. No dia seguinte, ainda segundo a investigação, encaminhou um vídeo mostrando que havia retirado a motocicleta, evitando que o veículo fosse apreendido pela polícia.
Os elementos foram obtidos no âmbito do Procedimento Investigatório Criminal nº 02.22.0006.0031349/2024-49, conduzido pelo Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado (GAECO), e posteriormente utilizados para fundamentar a prisão preventiva dos investigados.
A investigação descreve uma estrutura organizada de milícia privada em Belford Roxo, com atuação especialmente nos bairros Xavantes e Babi. Segundo o Ministério Público, o grupo teria divisão de tarefas, cobrança de “taxas de segurança” de moradores e comerciantes mediante ameaças, corrupção de agentes públicos, utilização de armas de fogo e planejamento de ações violentas contra desafetos.
Dentro dessa estrutura, Ilsinho é apontado como alguém que desempenhava funções operacionais de apoio aos demais integrantes. Além da suposta intermediação de munições, teria funcionado como uma espécie de apoio logístico do grupo, transportando criminosos, repassando informações sobre ocorrências, comunicando a presença de suspeitos na região e retirando veículos que poderiam ser apreendidos pela polícia.
A decisão judicial que manteve a prisão preventiva destacou que a acusação não estava baseada apenas em afirmações genéricas. O magistrado considerou especialmente as mensagens, fotografias e vídeos recuperados do celular de Pulga, entendendo que esses elementos forneciam indícios concretos da participação de Ilsinho na organização.