Carlos Alberto de Lima da Silva, o “Cascão”, já era identificado pela polícia, anos antes da prisão desta quarta-feira (19), como um dos responsáveis pela articulação internacional do tráfico de drogas. Investigações que remontam a 2017 apontam que ele atuava como gerente-geral do tráfico na comunidade Nova Brasília, em Niterói, e que chegou a viajar pessoalmente ao Paraguai para buscar carregamentos de maconha destinados à facção.
Preso nesta quarta-feira (19) por policiais civis da 76ª DP (Niterói), durante a Operação Fronteira Quebrada, Cascão é apontado como integrante da estrutura do Comando Vermelho responsável pela coordenação do abastecimento de drogas e armas para comunidades da Região Metropolitana e do interior do Rio. Ele foi localizado no Fonseca, em Niterói, enquanto visitava a namorada.
A investigação atual mostra que a atuação do criminoso não começou recentemente. Documentos de uma investigação anterior já descreviam Carlos Alberto, à época, como gerente-geral do tráfico na Nova Brasília, subordinado a “Pão com Ovo” e responsável diretamente pela compra de entorpecentes e armamentos, incluindo fuzis calibre 7,62 mm.
Mais do que exercer uma função de gerenciamento dentro da comunidade, Cascão já era apontado naquele período como responsável por operações de tráfico com conexão internacional, especialmente no Paraguai.
Celular colocou Cascão no Paraguai
Um dos episódios mais contundentes registrados na investigação ocorreu quando Cascão teria ido pessoalmente ao Paraguai para adquirir um carregamento de maconha para a organização criminosa.
A informação inicialmente surgiu a partir das declarações do delator Fernando Cesar, que apontou Carlos Alberto como um dos responsáveis pelo comando da venda direta de drogas na Nova Brasília, sob as ordens de “Pão com Ovo”. Segundo o relato, Cascão teria viajado ao Paraguai justamente para negociar e buscar a carga de maconha.
A versão, porém, não ficou restrita ao depoimento do colaborador.
O deslocamento internacional foi posteriormente confrontado com dados de telefonia. O geoposicionamento da antena ERB que atendia o celular utilizado por Cascão indicou que ele efetivamente estava no Paraguai na data apontada pela investigação.
Em depoimento prestado em juízo, o delegado Luiz Henrique Pereira confirmou a informação e explicou que o deslocamento mencionado pela testemunha foi corroborado pelo posicionamento da antena de telefonia. Os agentes Bernardo Mendonça e Alexandre Davi também confirmaram judicialmente os elementos reunidos durante a investigação.
Conversas da própria família também foram interceptadas
As investigações reuniram ainda interceptações telefônicas que reforçaram a ligação de Cascão com o comércio de drogas.
Uma das conversas ocorreu entre o criminoso e sua própria avó. Em outro diálogo, Cascão conversou diretamente com um integrante da organização sobre assuntos relacionados à maconha e ao tráfico de drogas.
O conjunto de provas levou os investigadores a apontarem que ele não exercia apenas uma função periférica na organização. Segundo a investigação, sua atuação estava diretamente ligada à estrutura responsável pela aquisição, transporte e distribuição dos entorpecentes.
Naquele período, Cascão era descrito como gerente-geral do tráfico na Nova Brasília, posição que o colocava no centro da logística de abastecimento da comunidade.
Prisão no Paraguai em 2019
A conexão internacional apontada nas investigações acabou levando o criminoso a ser preso no próprio Paraguai.
Em 2019, Carlos Alberto foi capturado em Presidente Franco, no país vizinho, em uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro que apurava justamente sua participação na estrutura responsável pelo fornecimento de drogas e armas para comunidades de Niterói.
Na ocasião, ele chegou a ser apontado como possível substituto do traficante conhecido como “Marcelo Piloto”.
O histórico, portanto, revela uma trajetória que vai muito além da atuação local. Anos antes de ser preso novamente em Niterói, Cascão já aparecia nas investigações como um elo entre os fornecedores internacionais e a estrutura do tráfico instalada nas comunidades fluminenses.
De gerente da Nova Brasília a operador da logística da facção
Após deixar o sistema prisional, em dezembro do ano passado, segundo as investigações mais recentes, Cascão teria retomado suas atividades criminosas em Niterói.
Desta vez, passou a exercer funções financeiras e logísticas dentro da organização, utilizando suas ligações com comunidades como Nova Brasília, no Fonseca, e Morro do Castro, em São Gonçalo, para coordenar a aquisição e o abastecimento de drogas e armamentos destinados a territórios controlados pela facção.
As diligências da 76ª DP apontaram ainda que o criminoso participava do gerenciamento da preparação e da embalagem dos entorpecentes e da definição de diretrizes relacionadas à segurança armada das comunidades.
A Operação Fronteira Quebrada é resultado de quatro meses de investigação, com utilização de técnicas de inteligência, monitoramento e cruzamento de dados. O objetivo é desmontar a estrutura do narcotráfico que exerce domínio territorial sobre o Morro do Estado, Chácara, Arroz e comunidades vizinhas, em Niterói.
As investigações continuam para identificar outros integrantes da organização criminosa e esclarecer toda a cadeia responsável pela movimentação de drogas e armamentos.