Uma operação policial realizada em agosto do ano passado na Mangueirinha, em Duque de Caxias, teve um desdobramento que ultrapassou em muito o resultado imediato da ação. O celular apreendido com um gerente do tráfico preso durante a operação teve os dados extraídos e revelou informações que deram origem a uma investigação contra a estrutura do Comando Vermelho na região e resultaram na denúncia de 85 traficantes, entre eles Edgar Alves de Andrade, o Doca e Bochecha Rosa, que é o chefão local.
O aparelho pertencia a Leonardo da Silva Raimundo, conhecido como Toreto, apontado como gerente do tráfico na região da Corte Oito. A partir da análise do telefone, a Polícia Civil identificou a atuação de integrantes da facção de forma coordenada, com divisão de tarefas para a venda de drogas e utilização de grupos de WhatsApp para organização e monitoramento da comunidade.
A investigação resultante da extração dos dados foi registrada no inquérito policial nº 964-00015/2025, que deu origem à ação penal nº 0002958-80.2026.8.19.0021, na qual 84 pessoas foram denunciadas. Entre os denunciados está Doca, apontado como liderança do Comando Vermelho.
O telefone, portanto, acabou se transformando em uma das principais peças da investigação que levou a Justiça a receber uma ação penal contra dezenas de integrantes da organização criminosa.
A operação que deu origem à investigação
A operação ocorreu em 22 de agosto de 2025, por volta das 9h, e reuniu equipes da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC) e da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA).
Os policiais realizaram uma grande ação nas comunidades de Corte Oito e Mangueirinha, em Duque de Caxias, apontadas como áreas dominadas pelo Comando Vermelho.
Durante o cerco, moradores indicaram aos agentes o paradeiro de um gerente do tráfico conhecido como Toreto.
Leonardo estava armado dentro de uma casa de dois andares, próxima a uma torre de comunicação, na comunidade do Sapo.
Quando uma equipe se aproximou do imóvel, os policiais foram recebidos a tiros vindos de uma área de mata. Houve confronto.
O policial civil Anderson Ribeiro da Silva foi atingido no peito.
O disparo, porém, foi contido pelo colete balístico. O agente sofreu hematoma e lesão, posteriormente comprovados por laudo pericial.
Mesmo depois de um dos policiais ser baleado, as equipes mantiveram o cerco à residência.
Após receber ordem de rendição, Leonardo abriu a porta e se entregou. Ele foi imediatamente algemado.
No interior da casa, os policiais encontraram um fuzil calibre 7,62 municiado e uma mochila contendo grande quantidade de drogas.
Leonardo indicou ainda aos agentes a localização de outro fuzil, escondido em um buraco na mata próxima. No ponto indicado foram encontrados um fuzil calibre 5,56, carregadores de fuzil e pistola, munições e mais entorpecentes.
Ao todo, a operação resultou na apreensão de dois fuzis, cinco carregadores e 204 munições.
Também foram apreendidos cerca de 1,6 quilo de drogas, entre haxixe e maconha, distribuídos em milhares de unidades prontas para a venda.
Parte do material trazia inscrições relacionadas ao Comando Vermelho, como “CORTE8 LAGOINHA RUA 5 BANANAL ICE CV 10/25” e “FLOR CV 10”.
Os policiais apreenderam ainda uma capa de colete com placas balísticas e o celular que posteriormente seria submetido à extração de dados e daria origem à investigação contra os 84 denunciados.
O gerente do tráfico
Em interrogatório, Leonardo confessou ser gerente da “boca de fumo JL”, localizada próxima a uma padaria.
Segundo ele, trabalhava no ponto de venda de segunda a sexta-feira e recebia R$ 20 por cada 110 canudos de cocaína vendidos.
Ele admitiu integrar o Comando Vermelho e afirmou ter efetuado disparos contra os policiais durante a operação.
Segundo seu depoimento, o fuzil que utilizava apresentou uma pane mecânica, impedindo que continuasse atirando. Ele então procurou refúgio dentro da residência onde acabou preso.
Leonardo também declarou que a reposição de drogas era realizada semanalmente por mototaxistas da própria comunidade.
O auto de apreensão registrou 332,88 gramas de haxixe, divididos em 1.500 unidades; 179,30 gramas de haxixe, distribuídos em 793 unidades; e 1.159,70 gramas de maconha, divididos em 2.450 unidades.
A prisão de Toreto, entretanto, seria apenas o primeiro capítulo.
A partir do conteúdo armazenado no celular apreendido com ele, os investigadores passaram a identificar outros integrantes da organização criminosa, suas funções e a utilização de grupos de WhatsApp para a organização e o monitoramento da comunidade.