No meio das guerras travadas pelas facções criminosas no Rio de Janeiro, existe uma população que não escolheu nenhum dos lados, mas acaba pagando um preço cada vez mais alto. Moradores, trabalhadores, idosos e crianças são atingidos por tiros, granadas e confrontos que transformam comunidades e ruas da cidade em cenários de guerra.
Inocentes perdem a vida ou ficam feridos simplesmente por estarem no lugar errado, na hora errada.
Uma das vítimas mais recentes foi Leda Maria da Conceição Antônio, de 75 anos, conhecida como Tia Lêda. Em 20 de julho de 2026, ela foi morta a tiros dentro de uma padaria na comunidade Furquim Mendes, no Jardim América, Zona Norte do Rio. Segundo as investigações, ela acabou atingida durante um ataque de traficantes do Terceiro Comando Puro contra criminosos rivais do Comando Vermelho.
Um entregador de aplicativo também foi baleado durante a ação e precisou ser socorrido para o Hospital Estadual Getúlio Vargas.
Dias antes, outro idoso havia sido vítima da violência. João José da Silva, de 80 anos, conhecido como Badu, morreu após ser atingido por uma bala perdida dentro do próprio bar, na comunidade Chácara do Céu, na Tijuca. Na ocasião, criminosos do Comando Vermelho atacaram a região, dominada pelo Terceiro Comando Puro.
E a violência voltou a atingir a mesma comunidade nesta semana. Uma menina de apenas 11 anos e a própria mãe ficaram feridas depois que uma granada foi lançada por um drone.
Facções controlam até o direito de ir e vir
A guerra entre as organizações criminosas não se limita aos confrontos armados. Ela também impõe uma espécie de fronteira invisível sobre milhares de moradores e trabalhadores.
Pessoas podem ser impedidas de circular simplesmente porque moram em uma área dominada por uma facção rival. Quem atravessa essas fronteiras corre o risco de ser abordado, interrogado, revistado e até desaparecer.
Em Rio das Pedras, em Jacarepaguá, diversos jovens que foram à região a trabalho ou para encontrar alguém acabaram desaparecendo. Criminosos costumam perguntar onde essas pessoas moram e verificar seus celulares em busca de qualquer indício de ligação com territórios ou integrantes de grupos rivais.
O domínio territorial também já chegou ao transporte por aplicativo.
Nesta semana, um áudio ao qual tivemos acesso revelou o alerta feito por um motorista de aplicativo: trabalhadores de áreas dominadas pelo TCP, como o Complexo da Maré e o Dendê, deveriam evitar fazer corridas para o Complexo da Penha, território controlado pelo Comando Vermelho.
No áudio, o motorista afirmou ter presenciado dois colegas de profissão sendo espancados por criminosos.
Policiais também viram alvos
Os criminosos também colocam policiais na mira. Agentes são mortos durante o serviço, atacados nas ruas e até assassinados durante períodos de folga.
Recentemente, um policial civil foi morto durante uma operação na Favela do Muquiço, em Guadalupe. Um policial militar também morreu após ser atacado na Avenida Brasil.
Até operações policiais deixam inocentes no fogo cruzado
A violência contra a população, porém, não ocorre apenas durante confrontos entre facções. As próprias operações policiais realizadas contra criminosos também podem colocar moradores e trabalhadores em meio ao fogo cruzado.
Nesta semana, uma passageira foi baleada dentro de um ônibus durante um confronto entre policiais militares e criminosos em Vila Kosmos, na Zona Norte do Rio.
Na Favela do Metrô, na Mangueira, um menino de apenas seis anos foi atingido no olho por estilhaços durante uma ação policial.
A esses episódios somam ações dos criminosos que fecham ruas com barricadas, provocam fechamento de postos de saúde e escolas, a chegada de serviços públicos nas comunidades,
São episódios diferentes, envolvendo circunstâncias diferentes, mas que revelam uma mesma realidade: para quem vive ou trabalha nas áreas afetadas pela guerra do crime organizado, o risco pode surgir a qualquer momento, independentemente de estar envolvido com o tráfico ou de ter escolhido qualquer um dos lados.
Enquanto as facções disputam territórios e impõem suas próprias regras, a população fica encurralada no fogo cruzado — sem controle sobre quando os tiros começam, de onde vêm e quem será a próxima vítima.