Um inquérito que tramita sob sigilo na Justiça desde 2021 revelou a denúncia de 36 integrantes do tráfico de drogas ligados à facção Terceiro Comando Puro (TCP), expondo uma estrutura integrada de atuação entre os complexos do São Carlos e da Maré, no Rio de Janeiro.
De acordo com os autos, os grupos mantinham um acordo estruturado de cooperação, que incluía o compartilhamento de homens armados para reforço de pontos de venda, fornecimento de entorpecentes, distribuição de material bélico e oferta de esconderijos para integrantes durante operações das forças de segurança. A investigação também identificou o uso de um mesmo responsável pela preparação química das drogas.
A apuração aponta a existência de múltiplos núcleos criminosos interligados, com base no Complexo do São Carlos — que engloba, além do próprio morro, as comunidades da Mineira, Zinco, Querosene e a chamada “Boca da Laura”. Esta última é descrita como uma concentração de pontos de venda com acesso facilitado, localizada nas imediações das ruas Laura Araújo, Aníbal Benévolo e São Martinho, próximas ao Sambódromo e à estação de metrô da Praça Onze.
Segundo a investigação, a engrenagem criminosa se sustenta não apenas pela atuação territorial, mas também por alianças firmadas com integrantes da mesma facção em outras regiões da cidade. Entre os denunciados estão nomes apontados como lideranças do São Carlos, como Coelho, Léo Empada, Menor Cheru e Limão, além de integrantes da Maré, como Menor P e Mangolé.
O inquérito teve início após a expulsão de uma mulher de sua residência por traficantes do São Carlos, em represália ao fato de seu filho — também ligado ao tráfico — ter migrado para outra facção criminosa. Preso à época, o filho da vítima colaborou com as investigações e realizou o reconhecimento de diversos integrantes, com os quais afirmou ter convivido por anos.
Em depoimento, ele não apenas identificou os envolvidos, como detalhou as funções exercidas por cada integrante dentro da organização criminosa. Os autos indicam que o tráfico na região operava de forma estruturada há mais de duas décadas, com cadeia organizada de fornecimento, distribuição e controle de pontos de venda.
Durante a investigação, policiais localizaram aparelhos celulares nas celas onde estavam presos os traficantes Menor P e Coelho. Após a quebra de sigilo dos dispositivos, foi identificado um volume expressivo de conteúdo relacionado a atividades criminosas, incluindo indícios de comercialização de cocaína dentro do sistema prisional, com estrutura semelhante à de uma “boca de fumo”.
Outro episódio descrito nos autos aponta que integrantes do grupo, em deslocamento em comboio, teriam atacado uma equipe da Polícia Rodoviária Federal, dando início a um intenso confronto armado.
A investigação também mapeou detalhadamente a estrutura operacional do tráfico no São Carlos, identificando responsáveis por diferentes funções, como a gestão de pontos de venda — incluindo locais conhecidos como Volta, Bairro, Capela, Santos e Brinquedo —, além de seguranças armados, responsáveis pelo abastecimento de maconha e cocaína, integrantes envolvidos em roubos de carga e veículos e até mesmo o responsável pela contabilidade da organização.
Também foi identificado o responsável pelo tráfico na Vila dos Pinheiros, no Complexo da Maré, apontado como executor de rivais da organização criminosa.
Segundo os autos, a atuação do grupo é marcada por elevado grau de violência, com relatos de ameaças, expulsões de moradores e imposição de regras nas comunidades dominadas, onde a população convive sob constante risco de confrontos armados.
Os fatos descritos no inquérito ainda serão analisados pela Justiça, sendo assegurados aos denunciados o direito ao contraditório e à ampla defesa.