Uma operação criminosa com características típicas de milícia atuou livremente em Búzios, na Região dos Lagos, explorando comerciantes sob ameaça e com participação direta de um agente da lei. O caso, que começou a ser desvendado ainda em dezembro de 2025, ganha agora contornos muito mais graves com a revelação de novos detalhes da investigação.
Os criminosos se passavam por policiais civis para extorquir empresários locais, utilizando armamento, distintivos e até viatura disfarçada para dar aparência de legalidade às ações. O grupo exigia dinheiro sob ameaça de apreensão de bens — uma prática clássica de milícias que atuam como um “Estado paralelo”.
Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu na manhã de 5 de dezembro de 2025. Um empresário do ramo de construção foi surpreendido ao ser informado de que uma suposta equipe da Polícia Civil estava em seu terreno, na Estrada de Tucuns, onde mantinha máquinas e caminhões.
Ao chegar ao local, encontrou três homens dentro da propriedade. Um deles, identificado como policial civil, ostentava distintivo oficial e comandava a ação. Outro portava uma pistola na cintura. O terceiro permanecia no interior de um Renault Kwid.
A abordagem foi violenta. O empresário foi rendido sob a mira de um fuzil — posteriormente identificado como uma réplica — em uma clara demonstração de intimidação. Em seguida, o suposto agente da lei passou a questionar a documentação dos veículos.
Mesmo com os documentos apresentados, o grupo encontrou um pretexto: dois caminhões estavam com o licenciamento vencido. Foi o suficiente para a chantagem.
A exigência veio de forma direta: R$ 10 mil para “resolver a situação”. Caso contrário, os veículos seriam apreendidos — e, segundo a ameaça, dificilmente recuperados.
Pressionado e temendo prejuízos ainda maiores, o empresário iniciou os pagamentos via PIX. Foram transferidos R$ 4 mil — parte por ele, parte por familiares — enquanto tentava completar o valor exigido. A operação total só não foi concluída porque a transferência maior entrou em análise bancária.
Mesmo assim, os criminosos não foram embora de imediato. Permaneceram nas proximidades aguardando o restante do dinheiro, deixando claro que a extorsão ainda estava em andamento.
Foi nesse momento que o esquema começou a ruir.
Por volta das 10h, a polícia recebeu denúncias de que homens estavam se passando por policiais civis em Búzios, utilizando um Renault Kwid branco para extorquir comerciantes. O monitoramento confirmou que o veículo circulava pela cidade desde cedo e seguia em direção a Cabo Frio.
A interceptação aconteceu na Estrada Velha Cabo Frio/Búzios.
Durante a abordagem, um dos suspeitos voltou a se apresentar como policial civil e afirmou estar armado. Ao desembarcar, outro integrante foi flagrado com uma pistola na cintura. A situação rapidamente escalou quando um dos criminosos tentou tomar a arma de um policial, entrando em confronto físico.
Um disparo foi efetuado para conter a agressão, atingindo o suspeito.
Na revista do veículo, veio a confirmação do nível de organização do grupo:
- Pistola .40 da própria Polícia Civil
- Réplica de fuzil usada na intimidação
- Distintivos — incluindo um de “detetive particular”
- Dinheiro em espécie escondido
- Seis celulares
- Lista com nomes de possíveis vítimas e valores
Com o policial envolvido, foram apreendidos distintivo e carteira funcional da Polícia Civil, evidenciando que o esquema contava com suporte interno para dar credibilidade às ações criminosas.
As anotações encontradas reforçam que não se tratava de um caso isolado. O grupo operava de forma estruturada entre Búzios e Cabo Frio, com alvos previamente definidos — um verdadeiro roteiro de extorsões.
Um dos presos confessou ter recebido R$ 4 mil da vítima.
Posteriormente, o empresário compareceu à delegacia e reconheceu, sem qualquer dúvida, tanto o veículo quanto os autores do crime.
O caso, que inicialmente parecia mais um episódio pontual de falsos policiais, agora se revela como algo muito mais profundo: uma engrenagem criminosa com método, planejamento e participação de quem deveria combater o crime.
E o mais grave: tudo isso começou a ser descoberto em dezembro — mas só agora a dimensão real do esquema vem à tona.