A expansão do crime organizado em Duque de Caxias teria ultrapassado o tráfico de drogas, o roubo de cargas e de veículos. Segundo elementos reunidos em uma investigação policial e citados em decisão judicial, uma liderança do Comando Vermelho teria usado a força e a ameaça para tomar o controle do mercado de internet em comunidades da Baixada Fluminense.
O caso é analisado na ação penal nº 011659-64.2025.8.19.0001, em tramitação na 1ª Vara Criminal Especializada da Comarca da Capital. O acusado responde, em tese, pelos crimes de organização criminosa e extorsão e teve a prisão preventiva decretada.
De acordo com a investigação, o acusado, apontado como liderança criminosa da comunidade do Bom Retiro, em Duque de Caxias, teria sido responsável por uma verdadeira expulsão de um provedor de internet da região.
A vítima, empresária do ramo, teria recebido uma videochamada do criminoso, que se identificaria pelo vulgo de “Frei”. Segundo o relato incorporado ao processo, ele teria se apresentado como a “frente” das comunidades do Bom Retiro e do Rasta e determinado que a empresa deixasse de operar na região.
A ameaça teria sido acompanhada de uma ordem clara: o fornecimento de internet passaria a ser feito por uma empresa escolhida pelo próprio tráfico, a W.M. Telecom, apontada na investigação como uma empresa gerida pelo grupo criminoso.
Na prática, segundo o Ministério Público e os elementos descritos no processo, o crime organizado teria utilizado o domínio territorial para eliminar a concorrência e transformar o serviço de internet em um monopólio controlado pela facção.
O caso revela uma modalidade de atuação cada vez mais sofisticada das organizações criminosas: o controle de serviços essenciais dentro das comunidades. Em vez de apenas cobrar taxas clandestinas de empresas, a facção, segundo a investigação, teria avançado para a própria exploração direta do mercado, expulsando concorrentes e direcionando os moradores para um provedor escolhido pelo grupo.
FACÇÃO TERIA ESTRUTURA PARALELA
As investigações conduzidas nos Inquéritos Policiais nº 060-02118/2022 e nº 060-02796/2025 apontaram, segundo a decisão judicial, a existência de uma organização criminosa armada ligada ao Comando Vermelho e estruturada em diferentes núcleos.
O grupo teria atuação em diversas comunidades de Duque de Caxias e estaria envolvido, conforme os investigadores, com tráfico de drogas, roubos de veículos e cargas, exploração extorsiva de serviços de internet e lavagem de dinheiro.
A suspeita é de que as diferentes atividades funcionassem de forma integrada, sob uma mesma estrutura de comando e com o domínio territorial garantido pelo uso ostensivo de armas e pela violência.
No caso específico da internet, a acusação é de que o controle territorial teria sido utilizado para impedir que empresas concorrentes continuassem trabalhando na região.
DONO DO PROVEDOR TERIA SIDO IDENTIFICADO EM VIDEOCHAMADA
A defesa contestou a forma como o acusado foi reconhecido, argumentando que a identificação teria ocorrido por meio da comparação entre uma fotografia extraída de uma videochamada e uma imagem antiga existente em cadastro estatal.
O Tribunal, entretanto, entendeu que a discussão exigiria uma análise aprofundada das provas e não poderia ser resolvida naquele momento por meio do habeas corpus.
Além do reconhecimento, a investigação teria reunido registros de ocorrência, depoimentos de empresários do setor, quebra de sigilo telemático de terminal utilizado pelo líder criminoso, apreensão de drogas e de um caderno de contabilidade, entre outros elementos.
Segundo a acusação, o acusado teria utilizado um telefone cadastrado em seu próprio nome para realizar a videochamada na qual teria ordenado que a empresa concorrente deixasse de atuar na região.
PRISÃO PREVENTIVA
Ao manter a prisão preventiva, a Justiça considerou a gravidade concreta da acusação e a posição que o investigado ocuparia dentro da estrutura criminosa.
A decisão aponta que ele seria uma liderança local do Bom Retiro e estaria ligado à expulsão de provedores concorrentes e à imposição de um serviço de internet supostamente controlado pela organização criminosa.
Para a Justiça, a liberdade do acusado poderia representar risco à ordem pública e à continuidade das atividades do grupo.
O caso expõe como o crime organizado vem ampliando seu modelo de negócios. A facção não se contentaria apenas em controlar o território para vender drogas: segundo a investigação, também teria usado a ameaça para escolher quem poderia trabalhar, qual empresa poderia prestar serviço e quem ficaria com o dinheiro dos moradores.
A acusação ainda será submetida ao julgamento definitivo da Justiça. O acusado é considerado inocente até o trânsito em julgado de eventual condenação.