Segundo o Ministério Público, o conjunto de elementos reunidos na investigação aponta que a estrutura atribuída a Rogério Costa de Andrade e Silva não se limita a uma atuação isolada ou recente no jogo do bicho, mas compõe uma engrenagem ampla, altamente estruturada e territorialmente espalhada, com mais de 6 mil pontos de exploração distribuídos por 58 municípios do estado do Rio de Janeiro, segundo os dados apreendidos.
A investigação descreve um sistema que combina controle territorial, exploração econômica e articulação entre diferentes gerações da contravenção, conectando a chamada velha cúpula, lideranças tradicionais e a reorganização recente do setor.
Conexão com a velha cúpula e a família Drumond
Os autos indicam que, muito antes da consolidação da chamada “nova cúpula do jogo do bicho”, já havia interlocuções diretas entre o núcleo ligado a Rogério e a tradicional família de Luiz Pacheco Drumond.
Em diálogos e registros analisados pelo MP, aparecem tratativas envolvendo o grupo ligado a Rogério e integrantes ligados aos Drumond, com destaque para Vinícius Pereira Drumond, apontado como elo operacional entre a estrutura histórica e a reorganização mais recente.
Essas conversas, segundo o Ministério Público, se estendem ao longo de anos e envolvem temas centrais do funcionamento do jogo do bicho: vazamentos de operações policiais, antecipação de ações de repressão, reorganização de áreas de exploração e articulação entre grupos historicamente rivais, mas que aparecem em diálogo constante.
Piruinha e a velha engrenagem da contravenção
Nesse mesmo contexto, o Ministério Público destaca de forma recorrente a presença de José Caruzzo Escafura (Piruinha), integrante da chamada velha cúpula do jogo do bicho.
O nome de Piruinha aparece em anotações e registros ligados a reuniões e articulações envolvendo disputas de área e reorganização de pontos de exploração, sendo tratado pelo parquet como parte da estrutura histórica que ajuda a sustentar a continuidade do sistema da contravenção no estado.
Nova cúpula e articulação com Adilsinho
No outro polo dessa reorganização, os autos citam a atuação de Adilson Oliveira Coutinho Filho (Adilsinho), apontado como integrante da chamada “nova cúpula do jogo do bicho”, ao lado de Rogério.
Segundo o Ministério Público, os elementos indicam alinhamentos de interesse e interlocuções indiretas entre esses grupos, especialmente na reorganização de áreas de exploração e na gestão do mercado ilegal em diferentes regiões do estado.
Codinomes, disputas e cooperação entre grupos
Os diálogos interceptados e registros recuperados mostram o uso recorrente de linguagem codificada para tratar de atividades ilegais e disputas territoriais.
Em 14/04/2017, Vinícius Pereira Drumond informa ao denunciado que “mandaram desligar tudo na aliança”, expressão interpretada como referência à retirada/desativação de máquinas caça-níquel na Vila Aliança, em Bangu, área atribuída ao grupo ligado a Rogério.
Já em 11/04/2020, Vinícius pergunta se o interlocutor havia “resolvido câmara”, entendido como possível referência ao bairro de Senador Camará. Em resposta, ele afirma que não deixaria a área “virar leilão”, mencionando disputa com grupo rival pela implantação de negócios no local.
Para o Ministério Público, esse conjunto de mensagens reforça que os grupos ligados à velha cúpula (Drumond) e à estrutura atribuída a Rogério mantinham cooperação e alinhamento em disputas territoriais do jogo do bicho.
Piruinha e a rede de interlocução histórica
Em outro eixo das investigações, o MP destaca conversas desde 2014 envolvendo Haylton Carlos Gomes Escafura, filho de José Caruzzo Escafura (Piruinha).
Em um desses diálogos, Haylton menciona o homicídio de Michel Vasconcelos Fernandes e relata preocupação com boatos de que poderia ser alvo de execução ligada a Rogério, identificado como “01”, em razão de um atentado ocorrido em 2010. Segundo o MP, o interlocutor assegura que isso não ocorreria.
Também aparecem conversas posteriores envolvendo outros interlocutores ligados à estrutura da contravenção, incluindo discussões sobre informações internas, disputas e movimentações de grupos rivais.
Homicídio de Marcos Falcon e disputa de poder
O caso do homicídio de Marcos Falcon é citado como um dos episódios mais relevantes desse contexto.
Falcon foi executado em 2016 durante sua campanha eleitoral, e o Ministério Público aponta que o crime se insere em um período de forte disputa interna por controle de áreas e influência dentro do jogo do bicho, envolvendo diferentes grupos com atuação consolidada no Rio de Janeiro.
Milícia, Gardênia Azul e ligação com Girão
O MP também aponta que essa estrutura se sobrepõe a áreas onde há influência de grupos armados.
Nesse contexto, aparece a menção ao ex-vereador e apontado miliciano Cristiano Girão Matias.
Segundo os autos, há registro de intervenção para “resolver um problema” relacionado a um depósito de gás ligado ao entorno de Girão, na região da Gardênia Azul, o que é interpretado como indicativo de atuação em disputas locais envolvendo influência territorial e interesses econômicos em área sob controle de grupos armados.
Estrutura, pontos e domínio territorial
A investigação destaca ainda a dimensão estrutural do grupo: um arquivo com 6.437 pontos de exploração de comércios de rua distribuídos por 58 municípios fluminenses, com identificação completa de locais e responsáveis.
Segundo o Ministério Público, esse material não representa apenas controle administrativo, mas um mapa de domínio territorial e econômico do jogo do bicho em escala estadual, com capacidade de gestão ampla e organizada.
Síntese do Ministério Público
No conjunto, o Ministério Público descreve uma estrutura criminosa de grande porte, que articula:
- a velha cúpula da contravenção (Drumond e Piruinha);
- a reorganização recente da chamada nova cúpula (Rogério e Adilsinho);
- disputas territoriais com grupos rivais;
- episódios de violência como o caso Marcos Falcon;
- e áreas de sobreposição com estruturas milicianas.
Para o parquet, não se trata de relações isoladas, mas de uma engrenagem contínua de poder, sustentada por alianças históricas, redes de comunicação codificada, controle de territórios e disputa permanente pelo domínio do jogo do bicho no estado do Rio de Janeiro.