Em meio a operação policial de hoje no Morro Dona Marta, que provocou pânico em Botafogo, deixou um passageiro baleado dentro de um ônibus e deixou turistas que visitavam um mirante em situação difícil, relatórios de inteligência da Polícia Civil, da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) e manifestações do Ministério Público revelam por que as autoridades defendem a manutenção do chefão da comunidade, Ronaldo Pinto Lima Silva, o “Ronaldinho Tabajara” ou “R9”, em uma penitenciária federal de segurança máxima, distante do Rio de Janeiro.
Apontado nos documentos como uma das principais lideranças do Comando Vermelho na Zona Sul carioca, Ronaldinho é descrito como responsável por exercer influência sobre as comunidades da Ladeira dos Tabajaras, Dona Marta e Morro dos Cabritos. Segundo os relatórios reproduzidos em decisões judiciais, ele tinha poder de decisão sobre a movimentação de criminosos, posicionamento das bocas de fumo, administração financeira do tráfico, compra e venda de drogas e armas e autorização para diversas ações praticadas por integrantes da facção.
De acordo com os documentos da inteligência penitenciária, mesmo recolhido em presídios federais, Ronaldinho continua sendo considerado uma peça importante dentro da estrutura do Comando Vermelho e é apontado como um preso de “altíssima periculosidade”.
Mais de 53 procedimentos e suspeitas de crimes mesmo preso
Os relatórios anexados aos autos indicam que existem mais de 53 procedimentos policiais instaurados para apurar a participação do criminoso em diversos delitos, entre eles homicídio, tráfico de drogas, associação para o tráfico, porte ilegal de arma, receptação, ameaça, corrupção ativa e corrupção de menores.
Segundo a Senappen, ele ainda é investigado por supostas ações criminosas praticadas durante o período em que já se encontrava preso. As autoridades afirmam que, mesmo no Sistema Penitenciário Federal, continuou sendo alvo de investigações relacionadas ao exercício de influência sobre áreas sob domínio da facção.
Uma das apurações citadas nos documentos é o inquérito que investigou o assassinato de Sandro Paulo Rangel, ocorrido em março de 2022, na localidade conhecida como Beco da Dezenove, na Ladeira dos Tabajaras. Conforme o relatório policial reproduzido na decisão, os executores do crime teriam agido subordinados às lideranças locais e, dentro da hierarquia do Comando Vermelho, ações dessa natureza dependeriam da autorização da principal liderança da região, atribuída a Ronaldinho Tabajara.
Mexicano e Coala seriam homens de confiança
As investigações apontam que Ronaldinho contava principalmente com dois homens de confiança para administrar os negócios da facção em suas áreas de influência.
Segundo os documentos, Francisco Rafael Dias da Silva, conhecido como “Mexicano”, e Luiz Roberto Pereira do Rosário, o “Coala”, eram descritos pelos investigadores como chefes do tráfico e executores das ordens atribuídas a Ronaldinho Tabajara.
Os relatórios afirmam que ambos seriam responsáveis por colocar em prática as determinações relacionadas à movimentação dos criminosos, controle das bocas de fumo e outras atividades do grupo nas comunidades da Zona Sul.
Histórico de fuga e problemas dentro do sistema prisional
Os documentos também mostram que o histórico atribuído a Ronaldinho Tabajara vai além das acusações ligadas ao tráfico.
As autoridades registram que ele possui antecedentes por evasão de unidade prisional estadual, além de um extenso histórico de faltas disciplinares. Conforme o relatório técnico, o preso foi punido por infrações previstas na Lei de Execução Penal, tendo sofrido isolamento disciplinar, suspensão de direitos e rebaixamento para índice comportamental negativo.
Ainda segundo o Ministério Público, quando esteve custodiado no sistema prisional do Rio, Ronaldinho integrava as chamadas “comissões do CV”, responsáveis pelo comando dos integrantes da facção dentro das cadeias, e chegou a responder por delitos cometidos durante o período de prisão.
Influência mesmo atrás das grades
Os relatórios da Senappen afirmam que Ronaldinho permanece exercendo posição de destaque dentro do Comando Vermelho, recebendo auxílio financeiro da facção e sendo alvo de interesse de integrantes de outra organização criminosa, que buscariam uma aproximação para possíveis articulações.
As autoridades também chamam atenção para a estrutura mantida pelo preso. Segundo os documentos, ele possui cinco advogados ativos cadastrados para atendimento e outros 22 profissionais inativos, estrutura considerada incompatível com sua condição de encarcerado e que, na avaliação dos órgãos de inteligência, pode indicar o uso de recursos provenientes da chamada “caixinha do CV”.
Temor de fortalecimento do tráfico no Dona Marta e Tabajaras
A Polícia Civil e o Ministério Público sustentam que as comunidades do Dona Marta, Ladeira dos Tabajaras e Morro dos Cabritos ainda convivem com os efeitos da influência atribuída a Ronaldinho Tabajara e afirmam que essas localidades “não experimentaram momentos de paz” desde sua ascensão ao poder paralelo.
Para as autoridades, a transferência do criminoso para uma unidade prisional do Rio de Janeiro poderia facilitar a comunicação com comparsas, fortalecer ainda mais sua liderança e potencializar conflitos armados em comunidades da Zona Sul.
Por esse motivo, a Justiça renovou sua permanência em penitenciária federal de segurança máxima. O entendimento dos órgãos de segurança é que mantê-lo distante do Estado dificulta a emissão de ordens criminosas e contribui para o enfraquecimento da estrutura do Comando Vermelho nas áreas em que ele é apontado como uma de suas principais referências.
Policiais civis da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Capital (DRE-CAP) realizam, nesta manhã, uma operação no Morro Dona Marta, na Zona Sul do Rio, para cumprir dezenas de mandados de prisão e de busca e apreensão contra integrantes do Comando Vermelho que atuam na região.
A ação é resultado de um trabalho de inteligência e investigação desenvolvido pela DRE-CAP ao longo de 22 meses, que permitiu identificar alvos estratégicos ligados à estrutura e à logística da organização criminosa. As diligências possibilitaram, ainda, identificar a liderança responsável pela administração das atividades criminosas desenvolvidas no Morro Dona Marta, incluindo a coordenação da logística do tráfico de drogas, a distribuição de funções entre integrantes da facção e a manutenção do domínio territorial armado na localidade. A operação conta com apoio de agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) e do Departamento-Geral de Polícia da Capital (DGPC).
A ação faz parte da “Operação Contenção”, uma ofensiva estratégica do Governo do Estado para conter e atacar o avanço territorial da facção criminosa Comando Vermelho. O principal objetivo é desarticular a estrutura financeira, logística e operacional da organização criminosa, além de prender traficantes que atuam na região. Até o momento, mais de 360 criminosos foram capturados e outros 137 neutralizados em confronto. Também foram apreendidas cerca de 480 armas, sendo 190 fuzis, além de mais de 51 mil munições.
A operação deflagrada nesta data tem como objetivo promover a responsabilização criminal dos investigados, além de enfraquecer a estrutura financeira e operacional da organização criminosa.
As diligências têm como objetivo localizar criminosos, apreender armas, drogas e outros materiais relacionados à atividade ilícita, além de reunir novos elementos que contribuam para o avanço das investigações.
As ações seguem em andamento.