Segundo documento de investigação que a reportagem teve acesso, o traficante Dalton Vieira Santana, o DT, que foi morto em um suposto tribunal do tráfico do Comando Vermelho neste fim de semana, teve que deixar a Favela Kelsons, na Penha, depois do assassinato da sua ex-namorada Bianca Lourenço, de 24 anos, em 2021.
Quem assumiu no seu lugar foi um bandido conhecido como Maçã, que acabaria morto anos depois também em um ‘tribunal do tráfico’.
DT foi o responsável pela estruturação do esquema que continuou operando com outros nomes à frente da facção
O modelo operacional do grupo era baseado na integração entre tráfico de drogas, roubo de cargas e extorsão de comerciantes. De acordo com os depoimentos colhidos, ele exercia papel de comando, determinando ações do grupo e influenciando diretamente a dinâmica criminosa na região.
outros nomes à frente da facção.
Mesmo após sua saída, a investigação sustenta que o modelo criminoso por ele associado permaneceu ativo, com divisão de funções entre traficantes, executores de roubos, receptadores e operadores logísticos responsáveis pelo escoamento de cargas roubadas.
ESQUEMA NO MERCADO SÃO SEBASTIÃO: ARROMBAMENTOS, CAMINHÕES E EXTORSÃO EM SÉRIE
O núcleo mais detalhado do esquema descrito nos autos envolve o entorno do Mercado São Sebastião e empresas próximas, onde comerciantes passaram a relatar uma sequência de arrombamentos seguidos de cobranças extorsivas.
Uma das testemunhas afirmou que o padrão criminoso começava com um ataque de grande impacto: galpões e lojas eram arrombados durante a madrugada, com quebra de paredes, portas e sistemas de segurança. Em um dos casos, foi relatado que os criminosos subtraíram praticamente todo o estoque de uma empresa, causando prejuízo estimado em mais de R$ 300 mil, além de danificar estrutura física do local.
Logo após esses ataques, segundo os depoimentos, começavam as ligações telefônicas com exigências de pagamento. As primeiras cobranças chegaram a cerca de R$ 10 mil, apresentadas como condição para que os comerciantes pudessem “trabalhar em paz” na região.
Com a negativa das vítimas, os valores passaram a ser reduzidos gradualmente durante as conversas, até chegar em torno de R$ 2 mil mensais, valor que seria pago de forma recorrente para evitar novos roubos e invasões.
As testemunhas relataram que não se tratava de uma cobrança única, mas de um sistema contínuo de pressão: os criminosos ligavam diversas vezes, insistindo na “negociação”, alternando ameaças e promessas de cessar os ataques caso o pagamento fosse aceito.
Em alguns relatos, as vítimas afirmaram que não chegaram a efetuar pagamento, mas que as ligações tiveram efeito imediato no funcionamento dos estabelecimentos, levando comerciantes a: fechar lojas mais cedo por medo de novos ataques; reforçar segurança privada; reduzir circulação de mercadorias;
suspender atividades temporariamente após os episódios.
DINÂMICA DOS ROUBOS: CAMINHÕES, VAN E TRANSPORTE PARA DENTRO DA KELSON
Além das extorsões, os depoimentos descrevem a logística dos roubos de carga como parte essencial do esquema.
Segundo testemunhas e policiais, os crimes ocorriam principalmente na Avenida Brasil, onde caminhões, vans e veículos de carga eram interceptados por criminosos armados. Após a subtração, os veículos eram direcionados para dentro da Comunidade da Kelson.
Em um dos relatos, foi mencionado o uso de dois caminhões, uma van e diversas motos para transportar mercadorias roubadas de um grande galpão. Após o arrombamento, os veículos teriam seguido em direção à comunidade, conforme identificado por marcas de pneus e análise de imagens de câmeras de segurança.
Dentro da Kelson, os caminhões eram descarregados e as mercadorias imediatamente distribuídas entre integrantes do grupo, que participavam do escoamento, separação e ocultação dos produtos roubados.
As investigações apontam que esse fluxo era recorrente, com múltiplos episódios semelhantes na mesma região, envolvendo desde alimentos e ferramentas até grandes volumes de mercadorias de alto valor.
EXTORSÃO COMO “SEGUNDA FASE” DO CRIME
O ponto central destacado nos depoimentos é que a extorsão não ocorria de forma isolada, mas como continuação direta dos roubos.
Segundo uma das testemunhas, o padrão era sempre o mesmo:
Primeiro vinha o roubo ou arrombamento com grande prejuízo;
Em seguida, surgiam os contatos telefônicos;
Os criminosos apresentavam a cobrança como forma de “evitar novos ataques”;
O valor era inicialmente alto e depois reduzido para parecer uma negociação.
Uma das falas resumiu a dinâmica como uma estratégia de intimidação progressiva: o grupo causava o dano e depois oferecia a solução mediante pagamento mensal.
CONTEXTO GERAL DO ESQUEMA
A investigação aponta que a Comunidade da Kelson funcionava como base territorial de uma organização criminosa voltada simultaneamente para tráfico de drogas, roubo de cargas e extorsão de comerciantes.
A estrutura incluía líderes, operadores de rua, responsáveis pelo transporte de cargas, vigilância armada e receptadores. Depoimentos também indicam a utilização de rádios transmissores para comunicação interna e controle da movimentação de veículos na região.
O conjunto de provas reunido — incluindo depoimentos de policiais civis, militares e testemunhas civis — foi considerado convergente no sentido de demonstrar a existência de uma organização criminosa estável, com atuação contínua e divisão de tarefas, tendo Dalton como uma das figuras centrais da estrutura original.