A operação deflagrada nesta quinta-feira pela Draco contra a narcomilícia que domina o Catiri, em Bangu, ganhou destaque na imprensa carioca. A maioria dos veículos, no entanto, limitou-se a reproduzir as informações divulgadas pela Polícia Civil. Os documentos da investigação revelam que as autoridades já haviam identificado a cúpula da organização criminosa e solicitado a prisão dos principais líderes do grupo.
Entre os alvos apontados como chefes da estrutura estão criminosos conhecidos pelos apelidos de Montanha, Gordinho da Van e da Kombi, Pirulito, Gaspar, Mariola e Gil. Segundo as investigações, eles integram uma organização altamente estruturada, responsável pelo controle armado do Catiri, Jardim Bangu e Cancela Preta.
As apurações mostram que a região vive um cenário de guerra permanente, marcado pela atuação simultânea de milicianos e integrantes do Comando Vermelho, além da migração de antigos membros da milícia para a facção. O conflito desencadeou ataques armados, execuções, retaliações, incêndios de veículos e disputas pelo controle territorial.
Morto em 2022, Marquinho Catiri mandou ali na região. Com a morte dele, houve uma cisão dentro da própria milícia entre o “Montanha” e o “Pirulito”, só que o “Pirulito” estava preso e quando foi solto começou essa briga, essa disputa com o “Montanha”, e”Gordinho.
Os investigadores identificaram um verdadeiro regime de domínio imposto pela organização criminosa. A quadrilha mantém estrutura hierarquizada, divisão de funções e elevada capacidade bélica. Cada integrante possui atribuições específicas nos núcleos operacional, armado e financeiro, responsáveis por administrar recursos ilícitos, coordenar homens armados e controlar pontos estratégicos da região.
A investigação teve início após denúncias de extorsão contra uma empresa terceirizada responsável por obras públicas de infraestrutura e saneamento. De acordo com a Draco, os criminosos passaram a exigir pagamentos para permitir a continuidade dos serviços e garantir a permanência dos trabalhadores nas áreas sob seu domínio.
Mas o esquema não se limitava às obras públicas. Os investigadores descobriram um sistema permanente de exploração econômica do território. Comerciantes, moradores e diversos setores produtivos eram obrigados a pagar taxas impostas pela organização para continuar funcionando.
Seguindo o caminho do dinheiro, a Polícia Civil descobriu uma sofisticada rede de lavagem de capitais que movimentou mais de R$ 25 milhões. A investigação revelou movimentações incompatíveis com a renda declarada dos investigados, além do uso de contas de passagem, transferências fragmentadas e circulação acelerada de recursos entre pessoas físicas e jurídicas utilizadas para ocultar a origem ilícita do dinheiro.
As diligências permitiram mapear toda a engrenagem financeira da organização. Empresas formalmente constituídas e contas em nome de terceiros eram utilizadas para conferir aparência de legalidade aos recursos provenientes das extorsões e demais atividades criminosas.
Outro ponto que chamou atenção dos investigadores foi a existência de uma rede de apoio que contaria com a participação de um policial militar. Segundo a investigação, ele seria responsável por auxiliar na movimentação financeira do grupo e prestar serviços de segurança privada para integrantes da cúpula da narcomilícia.
Além das prisões, a operação desta quinta-feira mobilizou equipes do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE), Departamento-Geral de Polícia da Capital (DGPC), Departamento-Geral de Polícia da Baixada (DGPB) e da Corregedoria da PM. Ao todo, foram cumpridos 50 mandados de busca e apreensão na capital, Baixada Fluminense e interior do estado.
A ofensiva também inclui o bloqueio judicial de contas bancárias, bens e ativos vinculados aos investigados, numa tentativa de atingir o principal pilar de sustentação da organização: o dinheiro. O objetivo é asfixiar financeiramente a quadrilha e interromper o fluxo de recursos utilizado para manter o domínio territorial e financiar a guerra que há anos transforma o Catiri, Jardim Bangu e Cancela Preta em um dos principais focos de violência da Zona Oeste.