Depois de oito anos da ocorrência dos fatos, um suposto esquema de corrupção envolvendo policiais civis de duas delegacias, PMs e responsáveis por instalação de TV a cabo clandestina na Zona Norte da cidade virou alvo da Justiça
A 2ª Vara Criminal de Madureira abriu processo no ano passado contra os supostos pagadores de propina identificados pelos vulgos de Russo, Tiquinho e Porco e três policiais.
Foi determinado o encaminhamento de ofício à Corregedoria-Geral da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, com cópia integral dos autos, para ciência e adoção das providências cabíveis, de modo que em sede administrativa poderão ser deferidas as medidas pleiteadas aqui, e sendo assim, indefiro neste momento as referidas medidas.
A denúncia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro revela que, segundo as investigações, os agentes da lei teriam recebido propinas mensais para não fiscalizar nem reprimir a exploração ilegal de serviços de internet, televisão por assinatura e telecomunicações, conhecidos popularmente como “gatonet”, em áreas da Zona Norte do Rio.
De acordo com a acusação, os pagamentos eram realizados por integrantes do grupo responsável pela operação clandestina, identificados pelos apelidos de “Russo”, “Tiquinho” ou “Dr.”, “Porco”, além de outros envolvidos conhecidos como “Gordinho”, “Palitinho” e “Rato”.
Propinas mensais dentro da 30ª DP
Segundo a denúncia, entre abril e novembro de 2017, um policial civil lotado na 30ª DP (Marechal Hermes), em conjunto com outro agente identificado como “Rocha”, teria solicitado e recebido pagamentos mensais em dinheiro.
O Ministério Público afirma que os valores eram entregues regularmente por integrantes do esquema de gatonet para garantir que as atividades ilegais continuassem funcionando sem repressão policial.
A acusação sustenta que os policiais, em troca das vantagens indevidas, deixaram deliberadamente de investigar e combater o serviço clandestino operado pelo grupo.
Conversas interceptadas detalham pagamentos
A denúncia cita uma série de mensagens extraídas de celulares apreendidos que, segundo os investigadores, comprovam a rotina dos repasses.
Em uma conversa entre “Russo” e “Tiquinho Dr”, este último pergunta se o comparsa iria até Marechal Hermes — uma referência à sede da 30ª DP — e pede que sua parte fosse entregue.
Já em diálogos entre “Russo” e “Porco”, os investigadores identificaram diversas referências diretas aos pagamentos.
Em uma das mensagens, um dos envolvidos afirma:
“Então, me espera aí. Me espera aí, que eu tô pegando aqui. Quer dizer, já falou com o TIQUINHO já? Vai levar o do TIQUINHO? Vai fazer o que?”
Em outro trecho, a conversa continua:
“Marca um 10 aí, que eu tô só esperando pra levar o do TIQUINHO aqui. 10 minutinhos, que a gente já leva logo o do TIQUINHO.”
Pouco depois, aparece uma referência explícita à delegacia:
“Já passei lá na Delegacia, pô. Já paguei lá já. Falta só pegar 300 reais contigo aí que o TIQUINHO mandou.”
Outra mensagem reforça a dinâmica dos repasses:
“Pô, se tu quiser me esperar aí no Extra ali, naquele posto de gasolina ali, eu levo lá pra tu. Tu que sabe. Se quiser deixar aí o dinheiro aí no barbeiro… Espera aí, cara. Tô chegando. 4 hora tu tá em casa. Quando eu tiver chegando, aí tu vai lá pra Delegacia e já dá logo, que eu tenho que te devolver 100 reais pra tu dar pro TIQUINHO.”
Para os promotores, as conversas demonstram a movimentação de dinheiro destinada ao pagamento de propinas e a preocupação dos envolvidos com a distribuição dos valores.
Esquema também alcançaria delegacia especializada
A denúncia afirma ainda que o grupo mantinha um segundo canal de pagamento de propinas na Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), especializada justamente em investigar crimes relacionados a serviços públicos e concessões.
Segundo o Ministério Público, até junho de 2018, “Russo”, “Tiquinho” e “Rato” teriam oferecido mensalmente quantias que variavam entre milhares de reais a policiais identificados como “Beto” e “Viana”.
O objetivo seria o mesmo: impedir investigações e operações contra a rede clandestina de telecomunicações.
As investigações apontam que os próprios integrantes do esquema passaram a desconfiar da forma como o dinheiro estava sendo distribuído.
Mensagens encontradas pelos investigadores mostram “Russo” e “Tiquinho” reclamando de divergências nas informações repassadas pelos intermediários e levantando suspeitas de que parte dos valores poderia não estar chegando aos destinatários.
Diante das desconfianças, os envolvidos decidiram interromper temporariamente os pagamentos realizados por intermédio de um homem identificado como Reynaldo, até que a situação fosse esclarecida.
Acusação também envolve policial militar da inteligência
A denúncia do MPRJ também descreve pagamentos destinados a um policial militar que atuava na Agência de Inteligência (P2) do 9º BPM.
Segundo a acusação, entre abril e novembro de 2017, “Russo”, “Tiquinho” e “Porco” teriam oferecido vantagens indevidas ao policial para que ele deixasse de agir contra a exploração clandestina do gatonet.
As mensagens reproduzidas na denúncia fazem referência direta aos pagamentos.
Em uma delas, um dos investigados diz:
“Já passei lá na Delegacia, pô. Já paguei lá já. Falta só pegar 300 reais contigo aí que o TIQUINHO mandou.”
A resposta menciona outro destino para o dinheiro:
“Ué, tu pagou lá já? Então eu pago lá a P2 pra tu. Tem os 400 lá da P2 né? Eu pago a P2 pra tu lá, então.”
Em seguida, surge uma referência ao policial citado na investigação:
“MEIRELES me ligou aqui. Falou que vai chegar 2 horas, aí tu dá o meu a ele aí. Só que o TIQUINHO falou pra mim pegar 300 reais contigo aí, mas não deve tá nem contigo, então?”
A resposta foi:
“Tá não. Tá com meu chefe. Ainda não peguei o dinheiro não. Vou pra lá e vou pegar com ele daqui a pouquinho.”
Pouco depois, nova mensagem indica contato direto:
“Já me chamou aqui. Já me chamou aqui já. Tá numa operação na Serrinha. E aí, qual vai ser?”
Ministério Público vê rede de proteção para o gatonet
Na denúncia, o Ministério Público sustenta que os pagamentos de propina tinham como finalidade garantir uma espécie de blindagem para a rede clandestina de gatonet operada pelos acusados.
Segundo os promotores, os valores seriam utilizados para comprar a omissão de agentes públicos responsáveis justamente por investigar e reprimir esse tipo de atividade ilegal.
As conversas extraídas dos aparelhos celulares são apontadas pela acusação como um dos principais elementos que sustentam a existência do esquema e a suposta relação entre operadores do gatonet e agentes de segurança pública.