A reportagem teve acesso ao conteúdo de uma investigação da Polícia Civil do Rio que aponta que o traficante Maurinho Macaé, morto hoje em uma operação do BOPE no Complexo de Manguinhos, na Zona Norte carioca, era o responsável por gerir as incursões de roubos de carga que acontecem na comunidade. Ele tinha 60 anotações criminais, em sua maioria pelos crimes de tráfico de drogas, associação para o tráfico e porte ilegal de arma de fogo.
Segundo o documento, Maurinho foi apontado por um detento do Presídio Ary Franco) como detentor de uma posição de destaque no organograma do Comando Vermelho na localidade. Foi ele” quem encomendou ao preso roubo de um caminhão Kia Bongo, entregando-lhe um revólver cal. 357 e prometendo recompensa.
Maurinho também foi formalmente reconhecido pelos policiais militares lotados na UPP de Manguinhos, como o traficante armado que fugiu da viatura conduzida por eles no dia 25 de novembro de 2024, na Rua Leopoldo Bulhões.
Um outro PM reconheceu formalmente Maurinho como o homem que chefiou o transbordo de uma carga de óleo lubrificante, roubada no dia 11 de junho de 2025, conforme RO 918-00323/2025.
Mais dois PMs disseram que Maurinho era o gerente do tráfico de drogas do Complexo de Manguinhos.
O documento que tivemos acesso revela que o Complexo de Manguinhos é uma região do Rio de Janeiro que engloba as comunidades de Manguinhos, Varginha, Arará e Mandela, sendo certo que toda essa área é dominada pela facção criminosa Comando Vermelho (CV) e chefiada por Nome, vulgo “Choque”, atualmente preso.
O local é margeado pela Endereçomostra como um ponto estratégico para o transbordo de cargas roubadas. Os criminosos costumam abordar motoristas de caminhão na Av. Brasil com motocicletas e, mediante grave ameaça, obrigá-los a dirigir o veículo com a carga até o interior das comunidades, onde ocorre o transbordo.
No ano de 2024 o Complexo de Manguinhos foi um dos principais destinos de cargas roubadas na capital fluminense, sendo palco de centenas de roubos. Apenas no mês de setembro, os índices apontaram quase 20 roubos, conforme gráfico extraído do ISPGEO:
No dia 10 de outubro de 2024 um motorista abordado por roubadores na Endereçoaté o interior do Complexo de Manguinhos, onde se deu início ao transbordo da carga.
Quando a carga já se encontrava na posse dos criminosos, a Polícia Militar manejou uma operação para resgatar o motorista que, àquela altura, tinha a sua liberdade cerceada pelos roubadores, logrando libertá-lo, bem como apreender o caminhão e recuperar toda a carga roubada.
A vítima apenas o criminoso, vulgo “GB”, como um dos participantes do roubo. Ele. Nome, foi morto nesse ano durante operação policial no Complexo de Manguinhos, fato investigado no IP 901- 00027/2025.
As investigações voltaram-se, então, à malta responsável pelos roubos de carga cujo transbordo é direcionado ao Complexo de Manguinhos, de forma que se identificou a atuação de uma associação criminosa armada voltada tanto para o emprego de violência e grave ameaça para subtração da carga, mas principalmente para a disponibilização de uma infraestrutura logística e bélica a viabilizar a prática de roubos e o transbordo da carga em territórios dominados pelo Comando Vermelho.
Assim, identificou-se que os integrantes do Comando Vermelho que atuam no Complexo de Manguinhos passaram a fornecer “serviços de logística” para o roubo e o transbordo de carga roubada para aqueles indivíduos que pretendessem subtrair (executar o roubo) a carga.
Dessa forma, os personagens aqui denunciados se valem da hegemonia territorial do Comando Vermelho para disponibilizar um ambiente propício à consumação dos crimes de roubo que ocorrem naquela região.
As investigações mostraram que a associação criminosa armada emprega homens armados e barricadas para fazer a segurança das entradas das comunidades que compõem o Complexo de Manguinhos, impedindo que agentes de segurança tentem reaver a carga roubada. Da mesma forma, os denunciados possuem um esquema de logística próprio, determinando a melhor localidade para o descarregamento e empregando um pessoal próprio para realizar o transbordo da carga, normalmente usuários de entorpecentes.
Verificou-se que as cargas que são efetivamente subtraídas são vendidas para receptadores por metade do preço da nota fiscal. Esse valor é dividido entre os integrantes da Facção Criminosa que garante proteção e logística aos roubadores e os próprios executores do roubo, cada um recebendo 50%.
Os denunciados integram a facção criminosa autodenominada Comando Vermelho, que exerce o domínio territorial do Complexo de Manguinhos. Cada um cumpre uma função de importância no núcleo associativo, viabilizando toda a estrutura logística para o roubo da carga, desde o fornecimento de armamento, o acesso de cargas roubadas à Comunidade, o transbordo e posterior revenda.
A fim de robustecer o acervo probatório, a d. autoridade policial compareceu em unidades prisionais para colher depoimentos de custodiados que foram presos em flagrante por roubo de carga na circunscrição da 21a DP, que abrange o Complexo de Manguinhos, diligência que trouxe conhecimento significativo sobre a posição de destaque ocupada por cada integrante do núcleo associativo.
Além disso, alguns policiais militares lotados no setor de inteligência da Unidade de Polícia Pacificadora de Manguinhos – 15a UPP, trouxeram diversas informações relevantes sobre os denunciados, conhecidos pelos agentes que patrulham aquela região diariamente, explicando em seus depoimentos a atuação de cada um e realizando reconhecimentos formais.
Vítimas de outros roubos de carga ocorridos na localidade conseguiram identificar alguns dos denunciados, enriquecendo o acervo probatório ao descrever a atuação de cada um durante a interceptação e o transbordo da carga subtraída.
Imagens das redes sociais, em cotejo com o reconhecimento formal feito em sede policial e com laudos de perícia morfológica, permitiram confirmar a qualificação de outros denunciados e, principalmente, estabelecer o vínculo associativo entre eles.
Além de Maurinho, o bandido conhecido como Jogador , é quem opera o roubo de cargas na Comunidade do Mandela.
Uma testemunha revelou que “nenhuma carga entra no Mandela sem a permissão do responsável, , além de reconhecer que Jogador circula pela Comunidade do Mandela portando pistolas e escoltado por seguranças armados com fuzis e ostentando coletes balísticos. O denunciado possui anotações criminais por roubo majorado e porte ilegal de arma de fogo de uso restrito.
Policiais militares Edward Sonderman de Oliveira reconheceram Jogador como o gerente da Comunidade do Mandela. Os militares ainda acrescentaram que, como o denunciado veio da Comunidade de Santa Lúcia, no município de Duque de Caxias, ele serve como elo entre roubadores de carga daquele município e a capital, permitindo que cargas roubadas em Duque de Caxias sejam transportadas à Comunidade do Mandela e lá descarregadas, garantindo infraestrutura e proteção bélica a esses roubadores.
Coxinha é um dos integrantes do braço armado da associação. Ele atua na segurança do transbordo da carga, permanecendo armado no local do descarregamento do produto do roubo para intimidar o motorista e impedir qualquer ação policial que tente recuperar o material roubado.
Policiais militares reconheceram formalmente Coxinha como um dos integrantes do roubo de carga que garante a segurança do transbordo das cargas que são levadas à Comunidade do Arará.
Fato confirmando por uma vítima de um roubo de carga ocorrido no dia 21 de novembro de 2024, que declarou ter sido obrigado a seguir os roubadores até o interior do Complexo de Manguinhos, ocasião em que reconheceu Coxinha como o homem que organizava o transbordo, ordenando que outros retirassem as barricadas para permitir a passagem do caminhão e determinando onde se daria o descarregamento. O motorista acrescentou que o denunciado portava um fuzil e carregava uma pistola na cintura.
Coxinha faz a proteção e segurança das cargas roubadas. Ele frequentemente é visto no Complexo de Manguinhos utilizando armamento de uso restrito e foi reconhecido pelos policiais militares como o homem que aparece armado durante uma reportagem da Record TV, portando um fuzil, carregadores e rádio transmissor.
Em suas redes sociais, Coxinha que ostenta 8 anotações criminais, por crimes como roubo, furto, receptação e resistência qualificada, confirma sua participação na associação criminosa armada.
Du Ouro atua especialmente no roubo de carga propriamente dito, interceptando os caminhões e veículos de transporte e empregando violência e grave ameaça para subtrair a carga, obrigando o motorista a dirigir até o interior do Complexo de Manguinhos para o transbordo.
Ele possui sua própria equipe de roubo de carga, a qual denomina “Equipe Di Ouro” ou “Tropa do Paquistão”, e foi reconhecido pelo policial militar Nomecomo o homem que, armado com um fuzil e vestido roupa tática preta, gesticulava e dava ordens para os indivíduos que descarregavam o caminhão roubado no dia 11 de junho de 2025, conforme RO 918-00323/2025.
O denunciado possui duas anotações criminais por furto e tráfico de drogas, e ostenta em suas redes sociais fotografias com fuzis, coletes balísticos, carregadores e rádio transmissores.
Bugiganga , integra a associação criminosa a partir do emprego de aparato bélico a fim de garantir a hegemonia da facção criminosa Comando Vermelho na região, criando um ambiente propício ao transbordo de cargas roubadas.
Ele foi reconhecido pelos policiais militares, lotados na UPP de Manguinhos, como o indivíduo que foge armado de uma operação policial no Complexo de Manguinhos no dia 09 de janeiro de 2025. A fuga foi capturada por câmeras de segurança do estacionamento da Fiocruz, onde o denunciado aparece saindo de um rio vestido de roupa tática.
Ele foi reconhecido ainda por ter atirado em uma guarnição da PMERJ durante uma operação policial no Complexo de Manguinhos. Ele possui 13 anotações criminais, por crimes como roubo e homicídio, além de um mandado de prisão em aberto.]
Bicudo foi reconhecido por PMs na UPP de Manguinhos, como um dos soldados da facção criminosa da Comunidade do Arará, que utiliza armamento de uso restrito para coibir operações policiais na área, e garantir que o transbordo da carga se dê sem intercorrências.
As informações de inteligência trazidas pelos militares da equipe de P2 da UPP dão conta de que Bicudo, que ostenta 8 anotações criminais, por crimes como tráfico de drogas, associação para o tráfico de drogas, receptação e porte ilegal de arma de fogo de uso restrito, exerce a mesma função que Coxinha, ou seja, segurança e organização do transbordo das cargas roubadas.
Jajá participa do roubo de carga garantindo a preservação do transbordo da carga subtraída, utilizando-se de armas de fogo para repelir incursões policiais, como aconteceu no dia 31 de julho de 2025, quando o denunciado efetuou disparos de arma de fogo contra a guarnição da PM, que atendia a uma ocorrência de roubo de carga no Complexo de Manguinhos.
Ele ostenta em redes sociais fotografias com os armamentos mencionados, tendo sido reconhecido tanto pelos policiais militares quando por laudo de comparação facial.