Uma investigação da Polícia Civil revelou como funcionava, por dentro, a estrutura da milícia que atuava em áreas de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio. A organização teria dividido o território, distribuído funções entre seus integrantes e criado diferentes fontes de arrecadação, em um modelo descrito pelo Ministério Público como semelhante ao de uma empresa criminosa.
No topo da estrutura, segundo a denúncia, estavam Dalmir Pereira Barbosa e Taillon de Alcântara Pereira Barbosa, apontados como os líderes da organização.
Abaixo deles, havia integrantes responsáveis por funções específicas. “Missim”, apontado como homem de confiança de Dalmir, teria atuado na administração dos recursos arrecadados pela organização. Thiago era acusado de cuidar do abastecimento do grupo com armas e munições.
A investigação também apontava que “Missim” havia participado de um episódio de tortura ocorrido em dezembro de 2021.
Território era dividido para organizar a arrecadação
Um dos aspectos revelados pela investigação era a forma como a organização teria dividido o território para facilitar a cobrança.
Na região conhecida como Invasão, na Estrada do Itanhangá, as áreas eram repartidas entre diferentes responsáveis. Laerte era apontado como responsável por um dos setores.
A Polícia Civil chegou a apontar Gerardo como responsável por outra área, mas depois reconheceu que havia ocorrido um erro na identificação do homem conhecido como “Bolado”. Por isso, a Justiça retirou Gerardo do processo.
A estrutura funcionava em diferentes níveis. Enquanto os líderes comandavam a organização, os responsáveis por cada área administravam a arrecadação e os cobradores atuavam diretamente junto à população.
Moradores que ocupavam imóveis também eram cobrados
Segundo a denúncia, Luana, Naira e Janderson atuavam na cobrança de taxas dos ocupantes de imóveis nas áreas controladas pela organização.
Luana exercia uma função de supervisão. Ela centralizava os valores arrecadados por Naira e Janderson e fazia a prestação de contas aos responsáveis pelo gerenciamento da área.
A investigação, portanto, apontava para um sistema organizado de cobrança: os ocupantes de imóveis pagavam taxas à milícia, enquanto os valores eram recolhidos por cobradores e posteriormente repassados dentro da estrutura da organização.
Os comerciantes tinham uma fonte de cobrança específica. Pablo era apontado como responsável pela arrecadação das taxas impostas aos estabelecimentos comerciais.
A organização também explorava o fornecimento irregular de energia elétrica. Biel e Tipa eram acusados de fornecer energia clandestina e cobrar os moradores pelo serviço.
Dinheiro teria sido transformado em patrimônio milionário
A investigação também acompanhou o destino de parte dos recursos que, segundo o Ministério Público, eram obtidos pelas atividades criminosas.
Em um dos casos, Dalmir teria utilizado R$ 300 mil na aquisição de um imóvel no Condomínio Praia do Café, em Angra dos Reis.
O imóvel, porém, não havia sido registrado em seu nome. A companheira e o filho de Dalmir apareciam formalmente como compradores.
Para os investigadores, a operação tinha como objetivo esconder a verdadeira propriedade do imóvel e dificultar a identificação da origem do dinheiro utilizado na compra.
A acusação sustentava que a manobra havia sido planejada e coordenada por Dalmir para ocultar patrimônio que teria sido adquirido com recursos provenientes das atividades criminosas da organização em Rio das Pedras.
Em outro episódio, Dalmir e Taillon eram acusados de participar da aquisição de uma lancha avaliada em aproximadamente R$ 1 milhão.
A embarcação Humility havia sido registrada em nome de uma empresa, utilizada, segundo o Ministério Público, para dificultar a identificação dos verdadeiros proprietários.
A companheira de Dalmir também teria se apresentado como proprietária da lancha perante a marina onde a embarcação era mantida.
Uma organização com várias fontes de renda
O retrato traçado pela investigação era o de uma estrutura organizada para controlar território e arrecadar dinheiro.
No topo estavam os líderes. Abaixo, responsáveis pelo dinheiro, pelas armas e por áreas específicas. Na ponta, cobradores encarregados de recolher as taxas diretamente dos ocupantes de imóveis e dos comerciantes.
A organização teria explorado diferentes fontes de renda, como a cobrança de ocupantes de imóveis, a extorsão de comerciantes e o fornecimento irregular de energia elétrica.
Segundo o Ministério Público, o modelo também envolvia a divisão territorial, a descentralização da administração e o uso da violência para manter o controle das áreas e afastar concorrentes.
Parte do dinheiro obtido, de acordo com a acusação, teria sido transformada em patrimônio de alto valor, como o imóvel em Angra dos Reis e a lancha de R$ 1 milhão.
A Justiça considerou que havia indícios suficientes para o prosseguimento da ação penal. As acusações ainda seriam analisadas durante o processo, e os denunciados tinham direito à ampla defesa e ao contraditório.