Uma investigação da Polícia Civil revelou detalhes sobre a atuação da organização paramilitar ligada à liderança de Gilson Ingrácio de Souza Junior, o “Juninho Varão”, apontado como chefe da milicia que manteria o controle sobre moradores do Condomínio Jardim Guandu, na Baixada Fluminense.
Segundo a investigação, o condomínio seria dominado por milicianos, que explorariam economicamente os moradores por meio da imposição da aquisição de produtos e serviços, especialmente gás e mantimentos, além da cobrança sistemática de valores sob a justificativa de uma suposta “segurança”.
As denúncias, recebidas de forma frequente e reiterada pelo Disque Denúncia e por outros canais institucionais, apontam para um esquema de exploração dos moradores que, em tese, envolveria práticas de extorsão e esbulho possessório.
A apuração é conduzida pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (DRACO-IE), no âmbito do Inquérito Policial nº 405-00102/2026, instaurado para investigar a atuação da organização paramilitar vinculada a “Juninho Varão”.
A investigação aponta que o esquema contaria com uma estrutura organizada para controlar, registrar e administrar o dinheiro arrecadado dos moradores. Durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão judicial, deferido em regime de plantão no processo nº 0033229-35.2026.8.19.0001, os policiais apreenderam em um imóvel localizado no interior do condomínio talonários de recibos, controles de cobrança, escrituras e diversos documentos compatíveis com a arrecadação sistemática de valores provenientes das extorsões.
O imóvel era ocupado por uma mulher que, segundo informações de inteligência, exerceria uma função ativa na organização criminosa, especialmente na arrecadação dos valores cobrados dos moradores.
A análise preliminar do celular apreendido com ela, realizada com autorização judicial, revelou grupos e conversas estruturadas voltadas à cobrança de moradores. O aparelho também continha informações sobre o monitoramento de ações policiais, inclusive referências diretas à atuação da unidade responsável pela investigação e à autoridade policial que subscreveu a representação.
Para os investigadores, o material apreendido demonstra a existência de organização, divisão de tarefas e funções específicas dentro da estrutura criminosa.
Os elementos encontrados — incluindo registros manuscritos, diálogos e comprovantes de pagamentos — indicariam que a mulher exercia a função de gerenciar a arrecadação dos valores extorquidos dos moradores, controlando e registrando os pagamentos ilícitos exigidos mediante coação.
A função, segundo a investigação, já vinha sendo delineada durante a apuração e teria sido confirmada pelo material apreendido.
Investigação também relaciona grupo a homicídio
A organização investigada também é relacionada a crimes violentos.
Em uma investigação recente sobre um homicídio ocorrido na Baixada Fluminense, formalizada no Registro de Ocorrência nº 861-0866/2025, a mãe da vítima relatou que o filho teria sido morto por milicianos ligados à liderança de “Juninho Varão”.
Segundo o relato, integrantes do grupo atuariam e residiriam no Condomínio Jardim Guandu. A mulher apontou ainda Felipe Alves da Silva, companheiro da investigada, como um dos envolvidos diretamente no homicídio.
Para a polícia, a informação reforça a possível ligação do núcleo familiar da mulher com a estrutura criminosa violenta investigada.
Celulares roubados
Durante a operação, os policiais também constataram que dois celulares encontrados com a mulher possuíam registros de roubo em sistemas oficiais.
Um dos aparelhos era um Motorola Moto G8 Power, relacionado ao Registro de Ocorrência nº 35-03843/2021, com o IMEI nº 359097101021775.
O outro era um Apple iPhone 14 Pro Max, relacionado ao Registro de Ocorrência nº 044-04457/2025, com os IMEIs nº 355901946584307 e 355901946880184.
Segundo a investigação, a manutenção dos aparelhos na posse da conduzida, sem comprovação de origem lícita, poderia configurar, em tese, o crime de receptação, previsto no artigo 180 do Código Penal.
A apuração prossegue para identificar outros integrantes da organização, esclarecer a extensão do domínio exercido pela milícia sobre o condomínio e aprofundar a investigação sobre o sistema de cobrança, arrecadação e controle imposto aos moradores.