Uma investigação da Polícia Civil, posteriormente analisada pela Justiça do Rio de Janeiro, revela uma atuação de milícia privada voltada ao controle econômico de comerciantes de água e gás em Armação dos Búzios, na Região dos Lagos.
Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público, o grupo não se limitava à cobrança de valores. Os integrantes são acusados de determinar de quem os comerciantes poderiam comprar mercadorias, impedir a entrada de produtos adquiridos em outros municípios, roubar cargas e impor aumento de preços para financiar a própria estrutura criminosa.
Os detalhes aparecem no processo de habeas corpus nº 0033453-73.2026.8.19.0000, analisado pela Quarta Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
De acordo com a acusação, os episódios ocorreram principalmente entre os dias 3 e 10 de abril de 2026 e tiveram como alvo comerciantes que trabalhavam com a distribuição e revenda de botijões de gás e galões de água.
BOTIJÕES DE GÁS VIRARAM ALVO DO GRUPO
Um dos primeiros episódios relatados na investigação ocorreu em 3 de abril.
Segundo a denúncia, W.G.O teria sido abordado por integrantes do grupo e ameaçado para que passasse a adquirir botijões de gás exclusivamente da Supergasbras.
A ordem, segundo a acusação, vinha acompanhada de uma ameaça direta: caso o comerciante não obedecesse, sua mercadoria poderia ser subtraída.
No mesmo dia, um segundo comerciante, identificado como José Roberto da Hora Mendes, teria sido abordado enquanto transportava sete botijões de gás adquiridos em Cabo Frio para revenda em Búzios.
Segundo seu relato à polícia, dois homens que estavam em um Jeep Renegade prata interceptaram o comerciante e levaram os sete botijões.
A justificativa apresentada pelos suspeitos, de acordo com a investigação, era que aqueles produtos não poderiam ser revendidos em Búzios porque haviam sido adquiridos fora dos fornecedores determinados pelo grupo.
O caso, segundo o Ministério Público, não terminou com o roubo da carga.
José Roberto teria passado a receber mensagens pelo WhatsApp nas quais era novamente advertido de que não poderia comercializar produtos comprados de fornecedores diferentes daqueles indicados pelos suspeitos.
AMEAÇAS PARA CONTROLAR QUEM PODIA FORNECER GÁS
A investigação aponta que a estratégia era mais ampla.
No dia 7 de abril, R.R.O teria sido abordado e, segundo a acusação, recebeu uma determinação semelhante: comprar botijões exclusivamente dos depósitos Supergasbras ou Fontoura Gás.
Caso desobedecesse, poderia sofrer prejuízos ou ter sua mercadoria subtraída.
O padrão descrito pela investigação chama atenção porque indica uma tentativa de estabelecer controle sobre a origem das mercadorias que circulavam no município.
Na prática, segundo a acusação, comerciantes seriam impedidos de buscar produtos onde encontrassem melhores condições comerciais e obrigados a seguir fornecedores previamente escolhidos pelo grupo.
ÁGUA: O PRÓXIMO PASSO DO ESQUEMA
A partir de 9 de abril, segundo a investigação, o foco também passou a ser o comércio de água.
Nesse dia, quatro dos denunciados teriam comparecido ao estabelecimento Depósito JW Bebidas e Cia, localizado na Avenida José Bento Ribeiro Dantas, na Rasa.
Segundo o relato da vítima J.W.C, os suspeitos determinaram que o preço dos galões de água fosse aumentado em R$ 2 por unidade.
O dinheiro adicional, de acordo com a acusação, deveria ser repassado à organização.
A alternativa apresentada ao comerciante seria ainda mais direta: passar a comprar os produtos diretamente dos integrantes do grupo.
A ameaça, segundo a denúncia, era de que, caso não obedecesse, sua atividade comercial poderia ser inviabilizada.
O mesmo procedimento teria sido aplicado contra outro comerciante, Doque dos Santos Machado.
Segundo seu depoimento, os integrantes do grupo também exigiram o aumento de R$ 2 no preço de cada galão.
O valor adicional deveria ser recolhido pela organização a cada viagem de entrega.
Doque também teria relatado que recebeu novas cobranças por meio do WhatsApp.
NÃO ERA APENAS EXTORSÃO: INVESTIGAÇÃO APONTA ESTRUTURA DE DOMÍNIO ECONÔMICO
É justamente nesse ponto que a investigação ganha uma dimensão maior.
Para o Ministério Público, os episódios não constituíam crimes isolados praticados por indivíduos sem conexão.
A acusação sustenta que os denunciados constituíram e integraram uma milícia particular com a finalidade de praticar crimes patrimoniais, especialmente roubos e extorsões contra comerciantes de água e gás em Búzios.
O objetivo apontado pela acusação era exercer uma forma de poder paralelo sobre um setor da economia local.
O grupo, segundo o Ministério Público, teria utilizado ameaças para determinar:
- quem poderia fornecer gás aos comerciantes;
- de onde os produtos poderiam ser comprados;
- quais mercadorias poderiam ser revendidas em Búzios;
- quanto os comerciantes deveriam cobrar pelos galões de água;
- quanto deveria ser repassado à organização;
- e quais comerciantes poderiam continuar exercendo suas atividades.
É uma dinâmica que ultrapassa a tradicional cobrança de dinheiro por proteção.
A acusação descreve uma tentativa de interferir diretamente no funcionamento do mercado, criando regras próprias e utilizando a ameaça e a violência para obrigar comerciantes a cumpri-las.
O JEEP RENEGADE QUE ENTROU NO RADAR DA POLÍCIA
O veículo utilizado pelo grupo também acabou se tornando uma das peças importantes da investigação.
Segundo os autos, aproximadamente 15 dias antes da prisão, a unidade policial já vinha recebendo denúncias sobre indivíduos que utilizavam um Jeep Renegade para abordar comerciantes e obrigá-los a comprar produtos exclusivamente de fornecedores determinados.
No dia 10 de abril, por volta das 10h, policiais civis receberam informações do centro de monitoramento sobre o deslocamento do veículo, que já era investigado por suposto envolvimento em extorsões em Búzios.
A equipe saiu de Cabo Frio em direção ao município e localizou o Renegade na Avenida José Bento Ribeiro Dantas, nas proximidades do bairro Marina.
A abordagem foi realizada em conjunto com equipes da Polícia Militar.
Dentro do veículo estavam, segundo os autos, Pablo, Gustavo e Matheus.
DINHEIRO, CELULARES E ANOTAÇÕES COM DADOS DE COMERCIANTES
A busca no veículo encontrou elementos que, segundo a investigação, reforçaram a suspeita de que havia uma estrutura organizada por trás das abordagens.
Foram apreendidos sete aparelhos celulares, R$ 10.200 em dinheiro vivo e diversas anotações.
Os registros continham, segundo os autos, endereços de estabelecimentos comerciais que trabalhavam com água e gás, valores, números de CNPJ e chaves Pix.
O material passou a ser considerado pela acusação como indicativo de uma atividade organizada e contínua.
Também foi apreendido com Pablo o valor de R$ 647 em espécie, apontado na investigação como possivelmente relacionado à atividade criminosa.
Os três homens foram presos e conduzidos à delegacia.
TELEFONE USADO NAS EXTORSÕES ESTAVA COM UM DOS PRESOS
Outro elemento considerado importante pela investigação foi o telefone utilizado para fazer as ameaças aos comerciantes.
As vítimas relataram que receberam ligações e mensagens de um mesmo número.
Um dos interlocutores se apresentava como “Xavier” e, segundo os depoimentos, posteriormente foi identificado pela investigação como Matheus.
Após a prisão, os policiais fizeram uma ligação para o número utilizado nas extorsões.
Segundo consta nos autos, o aparelho tocou quando estava em posse de Matheus.
Para a investigação, o episódio reforçou a ligação entre um dos presos e as comunicações utilizadas para pressionar os comerciantes.
MESMO COM AS PRISÕES, AS AMEAÇAS TERIAM CONTINUADO
Um dos aspectos considerados mais graves pelo Ministério Público foi a informação de que a atuação do grupo poderia não ter terminado com a prisão dos três suspeitos.
J.W.C relatou que, na própria sexta-feira 10 de abril, data das prisões, dois homens diferentes teriam comparecido ao seu estabelecimento procurando por ele.
Os indivíduos teriam deixado um número de telefone e se identificado como “Netinho”.
Para o Ministério Público, o episódio indicaria que outros integrantes poderiam estar envolvidos na estrutura e tentariam manter a pressão sobre os comerciantes mesmo depois da prisão dos primeiros suspeitos.
OUTRO SUSPEITO FOI APONTADO COMO INTEGRANTE DA ESTRUTURA
A investigação também chegou a Rhuan Couto Andrade de Souza.
Segundo o Ministério Público, ele faria parte da mesma estrutura criminosa e teria participação nas extorsões praticadas contra comerciantes.
A acusação pediu sua prisão preventiva, sustentando que a investigação apresentava indícios de uma organização estável, com divisão de tarefas e atuação contínua.
O pedido foi acolhido pela Justiça em 15 de abril de 2026.
Na decisão, o juízo destacou os depoimentos das vítimas e dos policiais, além dos elementos apreendidos durante a operação.
Uma das vítimas, D.S,M, teria apontado Rhuan como pessoa conhecida na cidade e integrante da mesma organização dos demais investigados.
J.W.C também teria reconhecido Rhuan como um dos homens que estiveram em seu estabelecimento durante a extorsão.
JUSTIÇA VÊ INDÍCIOS DE PODER PARALELO
Ao analisar o caso, a Justiça destacou que a gravidade da investigação não estaria apenas nos crimes individualmente considerados.
O entendimento registrado nos autos é de que o grupo teria montado uma estrutura para dominar, por meio de intimidação violenta, um setor considerado essencial da economia local.
A decisão cita a pluralidade de vítimas, o dinheiro apreendido e os cadernos com informações sobre estabelecimentos comerciais como elementos que apontariam para uma atividade estável e contínua.
Também foi destacado o risco de que outros comerciantes da cidade fossem submetidos ao mesmo tipo de pressão.
UM MODELO DE MILÍCIA VOLTADO AO CONTROLE DO MERCADO
O caso de Búzios expõe uma característica importante da atuação de grupos milicianos: o interesse não necessariamente está restrito ao domínio territorial tradicional.
A investigação descrita no processo aponta para uma tentativa de controlar uma atividade econômica específica, utilizando a intimidação para estabelecer fornecedores, preços e formas de pagamento.
No caso investigado em Búzios, água e gás teriam sido escolhidos como setores estratégicos.
A lógica descrita nos autos seria simples: quem comercializasse deveria obedecer às regras impostas pelo grupo.
Quem comprasse fora dos fornecedores determinados poderia perder a mercadoria.
Quem se recusasse a aumentar o preço poderia ser impedido de trabalhar.
E quem não aceitasse comprar diretamente dos integrantes da estrutura poderia sofrer novas ameaças.
DE ROUBOS A UMA TENTATIVA DE CRIAR UM “MERCADO” SOB CONTROLE CRIMINOSO
Os episódios investigados mostram uma sequência que começa com ameaças a comerciantes, passa pelo roubo de mercadorias, avança para a imposição de fornecedores e chega à tentativa de determinar o preço final cobrado do consumidor.
É essa combinação que levou o Ministério Público a sustentar que não se tratava apenas de uma associação eventual para cometer crimes.
A acusação aponta a existência de uma milícia particular organizada para explorar economicamente comerciantes de Búzios.
O caso ainda será submetido ao devido processo judicial, e os denunciados têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência.
Mas os elementos reunidos na investigação revelam uma frente pouco conhecida da atuação de grupos criminosos na Região dos Lagos: a tentativa de transformar setores inteiros da economia local em territórios sob regras impostas pela criminalidade.