Nos últimos anos, o Comando Vermelho ampliou significativamente seu poder no Rio de Janeiro, impulsionado principalmente pela tomada de territórios antes controlados por grupos rivais.
Com o traficante Doca, do Complexo da Penha, apontado como principal liderança da facção nas ruas, o CV avançou sobre uma extensa área da Grande Jacarepaguá. A ofensiva atingiu comunidades como Barão, Bateau Mouche, Covanca, Teixeiras, Santa Maria, Chacrinha, Sítio Pai João, Morro do Banco, Muzema, Tijuquinha, Gardênia Azul, Cesar Maia, Fontela e Ipadu, entre outras áreas que estavam sob domínio de milicianos.
Mais recentemente, a facção passou a dominar o bairro de Vargem Grande, também na Zona Sudoeste, após rivais do Terceiro Comando Puro aderirem à organização.
Na Zona Norte, a facção também ampliou seu território. O CV avançou sobre o Morro dos Macacos, em Vila Isabel, e sobre os morros do Fubá e do Campinho, áreas que estavam sob controle do Terceiro Comando Puro (TCP).
Matérias recentemente divulgadas na imprensa apontam que a expansão do CV a busca criar corredores de passagem na Região Metropolitana para acessar os Portos do Rio, de Itaguaí e a Baía de Guanabara.
2. Os próximos alvos
A política expansionista, porém, está longe de ter terminado.
Um dos principais focos atuais é Rio das Pedras, em Jacarepaguá. A disputa pelo controle da região se intensificou nas últimas semanas após quase 20 milicianos, segundo relatos, deixarem a milícia e aderirem ao Comando Vermelho. A movimentação provocou uma escalada da tensão e aumentou a pressão da facção sobre um dos principais redutos milicianos da Zona Oeste.
Rio das Pedras, no entanto, não é o único alvo.
Comunidades da Zona Oeste controladas pela milícia ligada ao grupo conhecido como Bonde do Zinho/PL, como Antares, Carobinha, Barbante e Cachamorra, vêm sendo alvo de ataques recorrentes do Comando Vermelho, principalmente de criminosos ligados ao Bonde de Rio das Pedras.
Na Zona Norte, o CV mantém a pressão sobre áreas da Tijuca controladas pelo TCP. Entre os territórios cobiçados estão os morros da Casa Branca, Cruz e Chácara do Céu, palcos de constantes tiroteios.
Na Baixada Fluminense, outro foco de tensão está em Itaguaí, onde o Comando Vermelho disputa áreas com o TCP e grupos milicianos. Uma recente escalada da guerra na cidade deixou três mortos.
Em Costa Barros, na Zona Norte, a disputa entre CV e TCP também permanece. A região está inserida em uma antiga guerra pelo controle dos complexos da Pedreira e do Chapadão, um dos principais pontos de conflito entre as duas facções. As comunidades do Bairro 13 e do Morro do Chaves chegaram a ser tomadas pela organização.
3. Uma guerra que provocou uma reação policial
O avanço territorial do Comando Vermelho colocou a facção no centro de uma das maiores ofensivas de segurança pública do estado.
As forças policiais passaram a concentrar esforços não apenas na prisão de traficantes, mas também na interrupção da estrutura logística e financeira que sustenta a expansão territorial do grupo. É nesse contexto que foi criada a Operação Contenção, voltada para frear o avanço do Comando Vermelho e atingir sua capacidade operacional e financeira.
Até o momento, a operação já resultou em mais de 370 prisões e 137 criminosos mortos em confrontos, segundo os dados divulgados pelas autoridades. Também foram apreendidas cerca de 480 armas, incluindo aproximadamente 190 fuzis, além de mais de 51 mil munições.
4. O CV não vive apenas do tráfico
Ao mesmo tempo em que amplia seu domínio territorial, o Comando Vermelho também diversifica suas atividades criminosas e busca novas fontes de financiamento. A facção deixou de depender exclusivamente do tráfico de drogas e passou a atuar em diferentes setores da economia ilegal.
Entre as atividades estão complexos esquemas de lavagem de dinheiro, incluindo o uso de estruturas clandestinas ligadas à mineração de criptomoedas e fraudes bancárias. A facção também incorporou a tecnologia à sua atuação criminosa, utilizando drones em operações e confrontos, além de novas estratégias de intimidação e monitoramento dos territórios.
Outra frente de expansão está na exploração de serviços e mercados ilegais. Criminosos ligados ao grupo passaram a controlar ou disputar a distribuição clandestina de internet e televisão por assinatura, além de cobrar taxas e praticar extorsões contra comerciantes e moradores de áreas sob sua influência.
5. Clubes, pousadas e outros negócios
Outras frentes de exploração envolvem clubes e pousadas. Segundo investigações, criminosos exigiam o pagamento de taxas para permitir o funcionamento dos estabelecimentos, enquanto pessoas de confiança da organização criminosa teriam assumido informalmente a administração dos locais.
A atuação incluiria o controle de eventos, movimentações financeiras e decisões internas, mesmo sem qualquer vínculo jurídico ou estatutário com as instituições.
Os valores movimentados chamam atenção. Somente com a exploração de um clube e de uma pousada, a facção teria gerado R$ 11 milhões. No Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, uma estrutura criminosa investigada por ocultação, dissimulação e lavagem de recursos ilícitos provenientes do tráfico teria movimentado mais de R$ 453 milhões.
6. Uma estrutura que ultrapassa as fronteiras do Rio
O Comando Vermelho também montou uma estrutura criminosa de grande complexidade, com conselho nacional, conselhos regionais e articulação entre organizações criminosas de diferentes estados.
As investigações apontam ainda para possíveis relações de cooperação com organizações criminosas de outros estados, inclusive com indícios de aproximação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Essa estrutura permite que decisões estratégicas, recursos financeiros e alianças ultrapassem os limites das comunidades controladas pela facção no Rio de Janeiro.
7. Quem está no comando
Mesmo após quase três décadas no sistema prisional, investigações indicam que o traficante Marcinho VP continua exercendo papel central na estrutura de comando da facção, sendo apontado como liderança do chamado conselho federal permanente do grupo.
Segundo investigações, parentes do criminoso também teriam sido utilizados em operações relacionadas à lavagem de dinheiro da organização.
Nas ruas, Doca é apontado como o principal homem do CV, mas outras figuras de destaque permanecem em liberdade. Entre elas estão Luciano Martiniano da Silva, o “Pezão”, apontado como responsável pela gestão financeira do grupo, e Carlos da Costa Neves, o “Gardenal”, acusado de operacionalizar determinações da liderança.
8. A infiltração na política
O poder da facção também alcançou a esfera política. Investigações envolvendo o então deputado estadual TH Joias apontaram suspeitas de utilização do mandato em benefício do crime organizado.
Segundo as apurações, TH Joias teria intermediado negócios envolvendo drogas, fuzis e equipamentos antidrones destinados ao Complexo do Alemão. Também foram identificadas movimentações financeiras suspeitas envolvendo empresas ligadas ao parlamentar, com alertas emitidos por instituições financeiras e suspeitas de lavagem de dinheiro.
As investigações sobre possíveis relações entre integrantes do crime organizado e agentes políticos também atingiram o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, que acabou preso.
9. Um império criminoso em expansão
A diversificação mostra que a estratégia do Comando Vermelho vai muito além da conquista de comunidades. O objetivo é transformar o controle territorial em uma estrutura permanente de arrecadação, explorando diferentes atividades ilegais para aumentar o poder financeiro da facção e sustentar sua expansão.
O cenário revela uma disputa que está longe de se limitar ao controle de comunidades. O avanço do Comando Vermelho vem redesenhando o mapa territorial do crime no Rio, provocando novas guerras com milícias e facções rivais e colocando diferentes regiões da capital e da Baixada no centro de uma disputa permanente por território, armas, dinheiro, negócios e influência.