A traficante Luana Rosa de Araújo, conhecida como “Madrinha da Cidade Alta”, presa nesta terça-feira (25) durante uma operação policial no Complexo de Israel, é suspeita de envolvimento em um homicídio ocorrido em 2020, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
O crime aconteceu em meio a uma disputa territorial entre traficantes do Terceiro Comando Puro (TCP) e integrantes do Comando Vermelho (CV). Segundo as investigações, criminosos armados realizavam uma espécie de falsa blitz na Avenida dos Coqueiros, na região da comunidade do Massapê, quando abordaram veículos que passavam pelo local.
A vítima fatal foi Alan Kardec, que estava em uma Ford Ranger prata. O processo aponta que ele acabou atingido por disparos de arma de fogo depois de tentar escapar do bloqueio realizado pelos criminosos.
O caso também envolve o traficante conhecido como “Noventinha”, apontado como parceiro de Luana. Ele será submetido a júri popular pelo homicídio, enquanto o processo em relação à traficante foi desmembrado e continua tramitando.
Traficantes esperavam confronto com o CV
De acordo com os elementos reunidos na investigação e posteriormente apresentados no processo, os criminosos estariam posicionados na Avenida dos Coqueiros à espera de um possível confronto com integrantes do Comando Vermelho, que dominariam a comunidade conhecida como “Vai Quem Quer”.
A dinâmica descrita pelas testemunhas ajuda a explicar como Alan acabou sendo morto.
Segundo o relato de um amigo da vítima, policiais que atenderam a ocorrência disseram que os criminosos realizavam uma falsa blitz na região do Massapê, área apontada como dominada pelo TCP.
O amigo afirmou ainda ter ouvido dos policiais que, antes de Alan tentar passar pelo bloqueio, um Toyota Corolla blindado, conduzido por um homem que seria policial militar, havia chegado ao local.
O motorista teria reagido à abordagem e efetuado disparos contra os traficantes.
Foi nesse momento que Alan, que vinha logo atrás em sua Ranger, teria tentado fugir.
A suspeita levantada durante a investigação é que os criminosos possam ter confundido a Ranger com um veículo ligado à facção rival, já que o motorista tentou escapar depois de presenciar os disparos.
Grupo tinha fuzis e atirou contra veículos
Uma das pessoas que sobreviveu ao ataque contou em juízo que retornava para casa, em Santa Cruz da Serra, acompanhado da esposa, Danielle, depois de um treinamento.
Ao acessar a Avenida dos Coqueiros, próximo a uma praça antes da Rua Massapê, o casal teria sido abordado por um homem armado com uma pistola, que apontou a arma para o vidro do veículo.
O motorista, que é policial militar, decidiu fugir porque seu carro era blindado.
Segundo seu depoimento, o criminoso chegou a se colocar à frente do veículo, mas caiu no chão sem ser atropelado e passou a efetuar disparos contra o automóvel.
O policial acreditou inicialmente que a situação havia terminado. No entanto, pouco depois, deparou-se com outro grupo de criminosos.
Desta vez, segundo seu relato, havia pelo menos seis homens armados com fuzis.
Sem alternativa para retornar, o motorista decidiu atravessar o bloqueio. Os criminosos então passaram a atirar contra o veículo.
O carro sofreu pelo menos 16 perfurações provocadas por disparos.
Durante o ataque, Danielle, que estava no banco do carona, que havia sido reclinado para baixo, acabou atingida por um tiro na região do cóccix. O projétil atravessou o glúteo.
Ela teria avisado ao marido que havia sido atingida somente depois que conseguiram deixar o local.
PM reconheceu um dos acusados
Em seu depoimento, o policial afirmou ter conseguido reconhecer um dos acusados.
Segundo ele, a identificação foi possível porque havia boa iluminação pública no local e o criminoso não utilizava qualquer acessório para esconder o rosto.
O policial afirmou ainda que, por exercer a função de agente de segurança e morar na região, já havia visto o acusado anteriormente no Portal dos Procurados.
A testemunha contou que só posteriormente tomou conhecimento de que outro veículo, que vinha atrás, também havia tentado atravessar o bloqueio.
Era o carro de Alan.
Ranger foi atingida por vários disparos
A perícia encontrou diversas marcas de tiros na Ford Ranger conduzida por Alan.
Foram identificadas perfurações provocadas por projéteis de arma de fogo na porta dianteira direita, roda dianteira direita, para-choque dianteiro, para-lama dianteiro esquerdo, porta dianteira esquerda e para-choque traseiro.
Os vestígios indicaram impactos no sentido de fora para dentro.
A prova pericial foi reforçada pelos depoimentos das testemunhas, que relataram que Alan havia sido atingido por disparos.
Depois de conseguir sair da região, ele ainda estava vivo.
Um amigo da vítima contou que recebeu a informação de que Alan havia sido baleado e estava sendo levado para o Hospital Adão Pereira Nunes.
Ao chegar à unidade, encontrou o colega sendo submetido a uma cirurgia.
Alan, entretanto, não resistiu aos ferimentos e morreu pouco tempo depois.
Mulher também foi atingida durante o ataque
A ocorrência deixou outras vítimas.
Além de Alan, Danielle foi baleada enquanto estava dentro do Corolla blindado. Segundo os depoimentos, ela foi atingida na região do cóccix, com o disparo atravessando o glúteo.
O amigo de Alan também afirmou ter recebido dos policiais a informação de que uma mulher que estava no veículo blindado havia sido atingida durante a troca de tiros.
As circunstâncias descritas no processo apontam para um cenário de extrema violência, com criminosos fortemente armados tentando controlar a circulação de veículos em uma área disputada por facções rivais.
Processo aponta atuação do TCP na região
Segundo o relato prestado pelo amigo de Alan, policiais que participaram da ocorrência atribuíram o ataque a traficantes que controlavam a região do Massapê.
O depoente afirmou ter ouvido que os criminosos pertenciam ao grupo comandado pelo traficante conhecido como “Peixão”, apontado como liderança do TCP na região.
Ainda de acordo com o depoimento, a disputa pelo território ocorria justamente entre criminosos do TCP e do Comando Vermelho.
A investigação, portanto, trabalha com a hipótese de que Alan tenha sido vítima de uma ação criminosa relacionada à guerra entre as duas facções.
O fato de ele ter tentado escapar da falsa blitz, segundo a linha investigativa apresentada no processo, pode ter feito com que os criminosos o confundissem com integrantes da facção rival.