O advogado Rodrigo Marinho Crespo pode ter sido assassinado porque pretendia entrar no mercado de apostas abrindo um estabelcimento jsutamente em uma área controlada pelo bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho. Segundo o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, o contraventor foi denunciado como mandante da execução do advogado, morto a tiros em fevereiro de 2024, no Centro do Rio.
A suspeita de que o crime estaria relacionado à disputa pelo mercado de jogos e apostas já havia sido apresentada pelo Ministério Público durante o julgamento dos executores de Crespo, realizado em março deste ano.
Na ocasião, o promotor Bruno de Faria Bezerra afirmou que Rodrigo Crespo estudava entrar no ramo das chamadas bets e pretendia montar um Sporting Bar em Botafogo, onde seriam realizadas apostas e poderiam funcionar máquinas semelhantes a caça-níqueis conectadas à internet.
O detalhe apontado pela acusação era justamente o local onde o advogado pretendia instalar o empreendimento. Segundo o Ministério Público, Adilsinho era o responsável pelos pontos de jogo do bicho e por um bingo clandestino na região de Botafogo.
Para a acusação, portanto, a entrada de Crespo nesse mercado poderia representar uma ameaça aos interesses econômicos da organização comandada pelo contraventor.
Durante a sustentação no Tribunal do Júri, o promotor afirmou que o assassinato teria servido como um recado para quem pretendesse disputar aquele mercado.
“A morte dele, encomendada, foi um recado claro.”
Rodrigo Marinho Crespo foi executado no dia 26 de fevereiro de 2024, por volta das 17h15, na Avenida Marechal Câmara, em frente ao número 160, no Centro do Rio, próximo à sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Executores foram condenados a 30 anos
A ligação entre o assassinato e a organização de Adilsinho já havia aparecido de forma contundente no julgamento realizado em 6 de março de 2026 pelo III Tribunal do Júri do Rio.
Na ocasião, Leandro Machado da Silva, o “Cara de Pedra”, Cezar Daniel Môndego de Souza, o “Russo”, e Eduardo Sobreira Moraes foram condenados a 30 anos de prisão cada um pela participação na morte do advogado.
O Ministério Público sustentou no julgamento que os três faziam parte da organização criminosa chefiada por Adilsinho.
A acusação apresentou ao Conselho de Sentença a dinâmica dos acusados antes e depois do assassinato e afirmou que eles participaram do planejamento e da execução do crime.
As defesas, porém, negaram que os réus soubessem que Rodrigo seria assassinado.
Cezar Daniel Môndego de Souza afirmou, por meio de seus advogados, que havia sido contratado por R$ 5 mil apenas para monitorar a vítima e que não sabia que ela seria morta.
A defesa de Eduardo Sobreira Moraes sustentou que ele teria sido contratado somente como motorista de Cezar Mondego e também desconhecia a existência de um plano de execução.
Já os advogados de Leandro Machado da Silva alegaram que o nome dele sequer aparecia no checklist do veículo usado no monitoramento de Rodrigo e afirmaram que ele apenas sublocava carros da empresa Horizonte 16 para obter renda extra.
As teses não convenceram os jurados.
Sentença descreveu “extenso grupo de sicários”
Ao proferir a sentença, o juiz Cariel Bezerra Patriota afirmou que ficou evidenciada a participação dos três condenados em um grupo maior, estruturado para a prática de homicídios e outros crimes.
O magistrado classificou a organização como um “extenso grupo de sicários”, com ordenação, divisão de tarefas e estrutura voltada à obtenção de vantagens econômicas e expansão de poder.
A sentença apontou ainda que o grupo teria utilizado métodos para destruir provas e dificultar investigações futuras.
Um dos trechos mais graves da decisão trata da participação de policiais militares da ativa na estrutura.
“É extremamente preocupante que a investigação da morte de RODRIGO MARINHO CRESPO revelou a participação de vários policiais militares da ativa em um grupo de execução/extermínio, um verdadeiro grupo de sicários que se aproveita do poder estatal para criar um poder paralelo e ainda se infiltrar no Poder Estatal.”
Para o juiz, o grupo não apenas executava pessoas, mas também atuava na destruição de evidências e na obstrução de investigações.
Agora, MP aponta Adilsinho como mandante
O Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (GAECO/MPRJ) denunciou e obteve a decretação da prisão preventiva de mais quatro acusados de envolvimento no homicídio do advogado Rodrigo Crespo, morto a tiros no Centro do Rio, em 26 de fevereiro de 2024. Nesta segunda-feira (24/08), a Polícia Civil cumpriu mandado de prisão preventiva contra o policial militar da ativa Renato Franco Lopes, conhecido como Pitbull, lotado no 15º BPM. Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, e Ryan Patrick Barboza de Oliveira, o Motinha, já estavam presos, e os mandados de prisão foram cumpridos no dia 20/08. Rafael Ferreira Silva, conhecido como Cachoeira, é considerado foragido pela Justiça.
De acordo com a denúncia, Adilsinho, apontado como uma das principais lideranças da chamada “nova cúpula do jogo do bicho”, encomendou o assassinato do advogado por considerar que sua atuação representava risco aos seus interesses na exploração do mercado de apostas online, as bets.
À época do crime, de acordo com o GAECO/MPRJ, os chamados “contraventores” estavam se inteirando sobre a entrada no lucrativo mercado de bets, segmento em que Rodrigo Crespo manifestava interesse em investir. As investigações revelaram que ele, inclusive, já buscava financiadores para a implantação de empreendimento de grande porte, além de ter exposto a intenção de abrir um “sports bar” com máquinas semelhantes a caça-níqueis, universo historicamente dominado pelos bicheiros.
“Os elementos de investigação indicam que a escolha do local, do horário e do modo de execução não foi aleatória, havendo fortes indícios de que a organização buscou conferir ao crime caráter ostensivo e intimidatório, com o propósito de transmitir uma mensagem de poder e dissuasão a potenciais concorrentes ou a terceiros que viessem a contrariar seus interesses econômicos/criminosos”, descreve a denúncia.
A denúncia também aponta que Ryan fez a vigilância da vítima nos dias anteriores ao homicídio, identificando os locais e horários favoráveis à execução. Os denunciados Renato e Rafael, por sua vez, forneceram apoio operacional e monitoraram Rodrigo até o momento do crime, permanecendo dentro do veículo utilizado pelo executor. A análise de diversas evidências técnicas revelou que Renato e Rafael estiveram no local do homicídio, bem como em diversos pontos do trajeto percorrido pelo veículo empregado na fuga dos executores. A apuração constatou, inclusive, que os dois se deslocaram para a região onde está localizado o sítio utilizado por Rafael como esconderijo.
Além de receber a denúncia do GAECO/MPRJ pelo crime de homicídio qualificado, o Juízo da 3ª Vara Criminal determinou a manutenção de Adilsinho em presídio federal de segurança máxima pelo prazo de três anos e decretou a suspensão do exercício das funções públicas e do porte de arma do policial militar Renato Franco Lopes.
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