As operações policiais realizadas desde a última sexta-feira (21) no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio, acontecem em um território que, segundo uma investigação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, é submetido a uma estrutura criminosa muito mais ampla do que o comércio de drogas.
A denúncia descreve uma organização ligada ao Terceiro Comando Puro (TCP) que teria construído um sistema de poder baseado em tráfico, extorsões, exploração de serviços, cobrança de taxas, controle territorial, violência e uma estrutura armada utilizada contra rivais e agentes do Estado.
O processo reúne informações sobre a atuação do grupo nas comunidades de Vigário Geral, Parada de Lucas, Cidade Alta, Pica-pau e Cinco Bocas. Segundo o Ministério Público, a organização teria se estruturado para obter vantagens econômicas não apenas com a venda de entorpecentes, mas também com a exploração de outros serviços existentes no território.
Entre as atividades apontadas pela investigação estão o fornecimento de TV a cabo, internet e a cobrança de taxas de funcionamento de estabelecimentos comerciais e de serviços. Também são mencionadas cobranças relacionadas a telecomunicações, distribuição de sinais de internet e transportes alternativos.
Na avaliação do Ministério Público, o modelo de atuação apresentava características semelhantes às de uma milícia, razão pela qual a denúncia utiliza a expressão “narcomilícia” para descrever a estrutura.
A organização, segundo a acusação, teria como objetivo ampliar o domínio territorial e transformar esse controle em fonte permanente de arrecadação.
Estrutura hierarquizada e divisão de funções
A denúncia descreve uma organização estruturalmente ordenada, permanente e com divisão de tarefas.
No topo, segundo o Ministério Público, está Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado como principal líder da organização. A investigação afirma que ele exerceria comando sobre o grupo e seria responsável pela administração da sistemática de arrecadação de aluguéis e taxas de funcionamento de comércio e serviços no chamado Complexo de Israel.
Peixão também é apontado na denúncia como mandante de homicídios, torturas e invasões armadas a imóveis e áreas dominadas por grupos rivais. Ainda segundo o Ministério Público, foi durante sua liderança que o território controlado pelo grupo teria se expandido significativamente.
A denúncia também atribui ao líder a imposição da fé cristã aos moradores das áreas dominadas.
Abaixo da principal liderança, a investigação identificou diferentes funções.
Um dos integrantes é apontado como braço direito e liderança do tráfico em Parada de Lucas, enquanto outro, mesmo estando preso, teria mantido posição de prestígio na hierarquia do TCP e continuado a se comunicar com subordinados, inclusive para autorizar ou orientar ações relacionadas a invasões de outras comunidades.
Outro integrante, também atuando de dentro do sistema prisional, é apontado como responsável pela coordenação de invasões a comunidades rivais e pela execução de desafetos de Peixão, além de exercer influência sobre uma comunidade localizada em Duque de Caxias.
Há ainda integrantes identificados como responsáveis pelo gerenciamento de pontos de venda de drogas em Cinco Bocas e Cidade Alta.
Foi justamente a quebra do sigilo de dados de um dos celulares apreendidos durante a investigação que permitiu, segundo o Ministério Público, reunir um grande acervo de conversas entre integrantes da organização.
Esse integrante também teria sido identificado em imagens publicadas em redes sociais ostentando armas de grosso calibre, um caderno de anotações do tráfico e fazendo gestos relacionados à facção.
Outro denunciado é apontado como liderança do tráfico em uma área controlada pelo grupo fora da capital, no Buraco do Boi, em Nova Iguaçu. Segundo a investigação, ele aparecia em redes sociais em pontos de venda de drogas e ao lado de integrantes armados da organização.
Braço armado e homens responsáveis pela segurança
A estrutura tinha ainda uma camada dedicada exclusivamente à força.
Um dos integrantes é apontado como braço armado da organização na Cidade Alta, tendo atuado anteriormente como segurança de uma liderança. A investigação afirma que ele ostentava armas de fogo em redes sociais e comemorava a morte de traficantes rivais.
Outro integrante é apontado como responsável pelo gerenciamento das bocas de fumo da Cidade Alta e como um dos homens de confiança de Peixão, contando inclusive com segurança própria.
Também havia criminosos responsáveis especificamente pela segurança das bocas de fumo e pela contenção de invasões de rivais e operações policiais.
A denúncia cita, inclusive, um episódio em que um desses integrantes teria efetuado disparos contra uma guarnição da Polícia Militar que, ao tentar escapar do trânsito, acabou entrando na comunidade.
Outro integrante exerceria a função de segurança armada, especialmente na Cidade Alta, enquanto outro atuaria como vendedor de drogas, descrito na investigação como responsável pela comercialização dos entorpecentes dentro da comunidade.
A investigação aponta ainda outros três integrantes como seguranças armados da organização, sendo um deles descrito pelos investigadores como particularmente violento.
O Ministério Público ressalta que os chamados “soldados do tráfico” exerciam também a função de proteger criminosos que ocupavam posições superiores na hierarquia da organização, permanecendo constantemente armados e utilizando outros equipamentos bélicos.
Nem o SAMU escapou do domínio territorial
Um dos episódios descritos no processo ajuda a mostrar até onde, segundo a investigação, chegava o controle exercido pelos criminosos.
Em 2 de maio de 2022, uma ambulância do SAMU foi chamada para atender uma emergência dentro de uma comunidade.
Quando a equipe chegou ao local, um integrante apontado pela investigação como segurança armado da organização abordou a técnica de enfermagem e o motorista da ambulância e determinou que eles deixassem a comunidade, alegando que naquele momento ocorria uma operação policial.
O episódio demonstra, segundo os elementos reunidos na investigação, que os criminosos não se limitavam a controlar atividades diretamente relacionadas ao tráfico. Eles também impunham regras sobre a circulação de serviços públicos e de emergência dentro do território, utilizando a força e a ameaça como instrumento de controle.
Menores também participavam da estrutura
A investigação identificou ainda a participação de adolescentes na organização criminosa liderada por Peixão.
Segundo o Ministério Público, menores de idade participavam ativamente de atividades de interesse da facção.
A presença de adolescentes se somava à utilização de homens armados para garantir a vigilância das comunidades, proteger pontos de venda de drogas, impedir invasões e acompanhar a movimentação das forças de segurança.
O resultado, segundo a acusação, era uma estrutura capaz de manter uma presença armada permanente no território.
Homicídios, torturas e guerras pelo domínio
O poder territorial descrito no processo também teria sido construído por meio da violência.
Segundo o Ministério Público, a organização utilizava a força para ampliar seu território e preservar as áreas já dominadas, travando guerras tanto contra grupos criminosos rivais quanto contra agentes do Estado.
A denúncia menciona homicídios, torturas, invasões armadas e execução de desafetos dentro da dinâmica atribuída à organização.
A Justiça, ao analisar o pedido de prisão preventiva, destacou a gravidade concreta dos fatos e afirmou que os elementos reunidos indicavam uma organização criminosa complexa, dotada de estrutura suficiente para criar obstáculos à aplicação da lei penal.
A decisão também apontou o controle territorial exercido pelo grupo e a imposição da chamada “lei do silêncio”.
Segundo o Judiciário, testemunhas relacionadas aos crimes atribuídos à organização demonstravam temor por suas vidas, circunstância que poderia comprometer o andamento da instrução processual.
A decisão ressaltou ainda a existência de um “poderoso braço armado”, capaz de dificultar a atuação dos órgãos de repressão.
Operações se intensificam desde sexta-feira
Desde sexta-feira, as polícias vêm realizando operações na localidade.
Nesta terça-feira (25), uma nova operação, resultado de investigações conduzidas pela 38ª DP (Brás de Pina), teve como objetivo cumprir dezenas de mandados contra integrantes envolvidos em diferentes crimes.
Ao todo, oito criminosos foram presos.
As diligências ocorreram em Cinco Bocas, Pica-pau, Cidade Alta, Parada de Lucas e Vigário Geral.
Também houve uma ação no Buraco do Boi, em Nova Iguaçu, onde três criminosos foram presos. Segundo a polícia, o responsável pelo gerenciamento do tráfico na região atacou os policiais e foi morto.
Durante a ofensiva, foram apreendidos dois fuzis, grande quantidade de drogas e veículos, além de celulares e equipamentos eletrônicos que serão submetidos à perícia.
Casamata tinha seteiras e visão para a linha férrea
Foi durante a operação desta terça-feira que os policiais encontraram uma estrutura que resume o nível de preparação do território para confrontos.
Uma casamata com seteiras foi localizada entre Parada de Lucas e Vigário Geral.
A estrutura possuía diversas aberturas que permitiam ampla visão da linha férrea e da região da Rua Bulhões Marcial.
A posição estratégica permitia monitorar a movimentação no entorno e oferecia proteção para quem estivesse dentro da estrutura durante um eventual confronto.
A descoberta revela que a estrutura de defesa do território não dependia apenas dos criminosos armados espalhados pelas ruas. Havia também construções preparadas especificamente para observação e proteção durante confrontos.
Mansão de Peixão tinha academia, churrasqueira e jacuzzi
E, ao mesmo tempo em que a polícia encontrava uma estrutura voltada para a guerra territorial, os agentes localizaram uma outra representação do poder construído dentro do Complexo de Israel: uma casa de luxo atribuída a Peixão.
O imóvel possui academia, churrasqueira e jacuzzi, além de uma estrutura de alto padrão.
Como reação à ofensiva policial, os traficantes jogaram um artefato explosivo na linha férrea em Parada de Lucas, o que provocou a interrupção da circulação dos trens em cinco estações.