Um homem apontado pelas investigações como integrante da milícia foi perseguido e executado por traficantes do Comando Vermelho após sair da Baixada Fluminense para realizar cobranças ilegais em estabelecimentos comerciais de São Gonçalo. O crime, segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, foi seguido de uma sessão de tortura contra o mototaxista que transportou a vítima até a Comunidade do Feijão. O trabalhador foi espancado por diversos criminosos, teve a moto e o celular roubados e escapou da morte ao aproveitar um momento de distração dos traficantes.
Os fatos levaram a Justiça a receber denúncia por homicídio qualificado, tortura e roubo contra Wanderson Silva Nogueira, o “Wandgol”, Cristian Rodrigues Nepomuceno de Souza, o “Negueba”, Wesley Luiz Leite Martins, o “Nego”, e Hilário Gabriel dos Santos Rangel, o “Biel do Feijão”, apontado como uma das lideranças do tráfico na comunidade.
Investigação aponta que vítima saiu de São João de Meriti para fazer “recolhe” em área dominada pelo tráfico
Segundo a denúncia, a vítima fatal foi Carlos Alberto da Silva Junior, morador de São João de Meriti.
A investigação sustenta que ele costumava se deslocar até São Gonçalo para realizar atividades atribuídas à milícia, especialmente o chamado “recolhe”, que consiste na cobrança de dinheiro de comerciantes.
A companheira da vítima, Darlene Silva Almeida, prestou depoimento à polícia e apresentou mensagens que, segundo os investigadores, reforçam a suspeita de que Carlos Alberto atuava em favor da milícia.
O Ministério Público afirma que o assassinato ocorreu porque traficantes do Comando Vermelho descobriram a presença do suposto miliciano em território controlado pela facção.
Para os investigadores, o crime foi motivado pela disputa entre tráfico e milícia pelo controle de áreas e fontes de arrecadação.
Corrida começou em Nova Iguaçu
A principal testemunha do caso foi o mototaxista Jorge Michal Cirino da Costa.
Em depoimento, ele contou que trabalha como mototaxista e eventualmente utiliza o aplicativo 99.
Ele admitiu que utilizava uma conta de terceiro para fazer corridas porque possuía habilitação provisória e anotações criminais.
Jorge afirmou que estava em um ponto de mototáxi próximo à Via Dutra, em Nova Iguaçu, quando Carlos Alberto o procurou.
Segundo o relato:
“A vítima perguntou se eu faria uma corrida para São Gonçalo e ofereceu R$ 150.”
O motorista disse que não conhecia Carlos Alberto e afirmou que, naquele momento, não sabia que ele seria apontado posteriormente como integrante da milícia.
Três paradas antes da execução
Durante o trajeto, Carlos Alberto pediu diversas paradas.
Segundo a testemunha, a primeira ocorreu em uma loja de roupas.
A vítima permaneceu aproximadamente 30 minutos no local e saiu carregando uma sacola.
Depois foi até um salão de beleza instalado em um prédio.
Lá, permaneceu cerca de uma hora.
A terceira parada ocorreu em uma loja de ração.
O motorista afirmou que, naquele momento, começou a suspeitar que o passageiro estivesse realizando o chamado “recolhe”.
Após as visitas, seguiram para o destino final: um posto de combustíveis localizado na entrada da Comunidade do Feijão.
Moto chega em alta velocidade e criminosos anunciam assalto
Quando chegaram ao posto, Carlos Alberto iniciou uma transferência via PIX para pagar a corrida.
Nesse momento, uma motocicleta Yamaha Lander azul surgiu em alta velocidade.
Segundo Jorge, os ocupantes foram diretamente em direção à moto dele.
O carona já desceu com uma pistola na mão.
As primeiras palavras foram:
“Perdeu! Perdeu!”
Os criminosos mandaram os dois levantarem a camisa.
Jorge disse que imediatamente informou ser trabalhador.
Carlos Alberto reagiu de forma diferente.
Ao perceber a abordagem, correu.
Perseguição termina com execução
Segundo o mototaxista, o homem armado saiu correndo atrás de Carlos Alberto.
Ele ouviu vários tiros.
Em um depoimento relatou mais de dois disparos.
Posteriormente afirmou que ouviu mais de cinco.
Pouco depois, o atirador retornou.
Foi então que, segundo Jorge, ouviu a frase:
“Matei o seu amigo e você vai ser o próximo.”
A investigação aponta que quem efetuou os disparos foi Wanderson Silva Nogueira, o Wandgol.
Segundo o Ministério Público, ele perseguiu Carlos Alberto pelas ruas da região até alcançá-lo e executá-lo.
Mata-leão e sequestro
Enquanto Carlos Alberto era perseguido, Jorge tentou fugir para o lado oposto.
Mas acabou capturado.
Segundo o relato, o piloto da Yamaha Lander o alcançou e aplicou um golpe conhecido como mata-leão.
A polícia afirma que esse homem era Cristian Rodrigues Nepomuceno de Souza, o Negueba.
A partir daí começou uma sequência de agressões.
Os traficantes passaram a arrastá-lo para dentro da comunidade.
“Tu tá mandado”
Ainda próximo ao posto, os criminosos iniciaram os espancamentos.
O motorista relatou que recebia socos, chutes e golpes enquanto era interrogado.
A todo momento escutava ameaças.
Segundo ele, os traficantes repetiam:
“Tu tá mandado.”
“Tu vai morrer.”
Eles queriam saber quem ele era e qual sua ligação com Carlos Alberto.
Quando informou que morava em Valverde, em Nova Iguaçu, a situação piorou.
Segundo o depoimento, os criminosos passaram a desconfiar ainda mais dele porque a região possui atuação de grupos milicianos.
Tráfico acreditava que motorista também era ligado à milícia
O trabalhador insistia que era apenas mototaxista.
Chegou a pedir seu celular para mostrar provas.
Mas os traficantes já haviam ficado com o aparelho.
Enquanto era espancado, um terceiro criminoso apareceu conduzindo sua motocicleta roubada.
Nesse momento, segundo o relato, avisou:
“Tem viatura rondando.”
Mesmo assim as agressões continuaram.
“Parecia um formigueiro”
O motorista contou que não conseguia identificar todos os agressores.
Mas afirmou que o número de traficantes aumentava rapidamente.
Em determinado momento disse:
“Parecia um formigueiro em cima de mim.”
Ele relatou que ouviu criminosos chamando uns aos outros pelos apelidos “Negueba” e “Wandgol”.
Também afirmou que um novo grupo chegou ao local em outra motocicleta.
Aparição de Biel do Feijão
Segundo a testemunha, uma Honda 160 preta chegou com dois ocupantes.
O passageiro desembarcou, conversou com os traficantes e foi embora.
Jorge afirmou ter reconhecido o homem como Hilário Gabriel dos Santos Rangel, o Biel do Feijão.
Ele declarou que reconheceu o traficante por fotografias divulgadas na imprensa após uma prisão anterior.
Para o Ministério Público, a presença de Biel é um elemento importante porque ele ocuparia posição de chefia dentro da facção.
A denúncia sustenta que crimes dessa natureza não seriam praticados sem sua autorização ou conhecimento.
Tortura continua em área de mata
Temendo a aproximação da polícia, os traficantes levaram Jorge para um local ainda mais afastado.
Ele foi conduzido para uma área de mata dentro da comunidade.
As agressões continuaram.
O trabalhador relatou que era chutado e espancado continuamente.
Segundo a investigação, além de Negueba e Wandgol, outros traficantes participaram da sessão de tortura.
Entre eles estaria Wesley Luiz Leite Martins, o Nego.
Falha na arma permitiu fuga
O momento decisivo ocorreu quando um dos criminosos resolveu verificar a munição da pistola.
Segundo Jorge, o traficante retirou o carregador.
Como já havia servido ao Exército Brasileiro, ele percebeu algo importante.
O carregador estaria vazio.
Aproveitando a distração, saiu correndo.
Perseguição e desespero
A fuga desencadeou uma nova perseguição.
O motorista correu morro abaixo enquanto diversos traficantes tentavam alcançá-lo.
Em determinado trecho desceu por um barranco.
Os criminosos seguiram por outro caminho.
Jorge conseguiu alcançar a pista principal.
Ao avistar uma padaria, correu para dentro do estabelecimento pedindo socorro.
Segundo ele, as pessoas ficaram assustadas e ninguém quis ajudá-lo.
Por isso, se escondeu atrás do prédio.
Traficantes foram procurá-lo na padaria
Mesmo após a fuga, os criminosos continuaram procurando o motorista.
Ele afirmou que ouviu os traficantes perguntando por seu paradeiro nas proximidades da padaria.
Pouco depois, uma equipe do Segurança Presente apareceu.
Nesse momento, os traficantes fugiram.
O motorista relatou ainda ter ouvido disparos vindos da direção dos criminosos, sem saber se foram efetuados para o alto ou em direção à viatura.
Reconhecimento dos acusados
Posteriormente, Jorge participou de reconhecimento fotográfico.
Segundo os autos, ele identificou:
- Negueba como o homem que conduzia a Yamaha Lander azul, aplicou o mata-leão e participou das agressões;
- Wandgol como o criminoso armado que perseguiu e matou Carlos Alberto;
- Nego como um dos traficantes que participaram dos espancamentos;
- Biel do Feijão como o traficante que chegou ao local, deu orientações aos demais e deixou a área.
Justiça vê forte risco à ordem pública
Ao analisar o caso, o juiz concluiu que existem indícios suficientes para a abertura da ação penal.
A decisão destaca que os crimes imputados — homicídio qualificado, tortura e roubo — possuem extrema gravidade e causaram grande repercussão social.
O magistrado também observou que os acusados são apontados como integrantes do tráfico local e que sua liberdade poderia colocar em risco testemunhas, familiares da vítima e o andamento das investigações.
Outro ponto ressaltado foi a motivação atribuída ao crime: a suposta atuação de Carlos Alberto em favor da milícia dentro de uma área dominada pelo Comando Vermelho.
Para a Justiça, os elementos reunidos pela Polícia Civil e pelo Ministério Público demonstram indícios suficientes de autoria e materialidade, justificando a manutenção das prisões para garantia da ordem pública e da futura aplicação da lei penal.
Com isso, foi recebida a denúncia e decretada a prisão preventiva de Wandgol, Negueba, Nego e Biel do Feijão, que agora responderão pelos crimes perante a Justiça