Condenado a 32 anos e 9 meses de prisão pelo assassinato do contraventor Fernando Iggnácio, o ex-policial militar Rodrigo Silva das Neves já havia afirmado, logo após ser preso, que se arrependeu de participar do crime — segundo ele, cometido por dinheiro e “aventura”.
Os promotores apontaram imagens, rastreamento de veículos e diligências policiais que teriam levado até um imóvel ligado a Rodrigo, onde foram encontrados fuzis e outros materiais, reforçando a tese de que ele teria papel central na logística do crime e vínculo com os demais envolvidos.
De acordo com as investigações, o assassinato teria sido planejado por outro ex-PM, conhecido como Araújo, apontado como responsável por controlar uma das áreas ligadas ao contraventor Rogério de Andrade.
Iggnácio e Rogério são, respectivamente, genro e sobrinho de Castor de Andrade, figura histórica e considerada, à época, uma das maiores lideranças do jogo do bicho no Estado do Rio de Janeiro.
Após a morte de Castor, em 1997, as investigações indicam que houve uma ruptura familiar marcada por uma disputa pelo controle das atividades ilícitas deixadas pelo contraventor. O conflito, segundo os autos, teria desencadeado uma sequência de crimes ao longo de mais de duas décadas, incluindo os homicídios de Paulinho de Andrade, filho de Castor, e de Diogo de Andrade, filho de Rogério.
Ainda segundo a apuração, Araújo integrava o esquema de segurança pessoal de Rogério de Andrade, a quem se referia como “chefe” ou “01”. Ele teria sido o responsável por recrutar, por ordem superior, outros envolvidos para a execução de Fernando Iggnácio.
Rodrigo Silva das Neves e Ygor Rodrigues Santos da Cruz, conhecido como Farofa (já falecido), também citado nas investigações, teriam atuado anteriormente como seguranças da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, cujo patrono era Rogério de Andrade.
A motivação do crime, conforme apontado pela investigação, estaria diretamente ligada ao histórico de rivalidade e à disputa territorial e econômica entre Rogério de Andrade e a vítima, especialmente em atividades ilegais relacionadas ao jogo do bicho e à exploração de máquinas caça-níqueis.
Os investigadores destacam ainda que Fernando Iggnácio possuía diversos inimigos em razão de sua atuação e posicionamento dentro desse cenário. As apurações também mencionam o interesse de grupos ligados à milícia e ao tráfico em atividades desenvolvidas tanto pela vítima quanto por Rogério, o que ampliaria ainda mais o contexto de conflito em torno do caso.
O crime
ernando Iggnácio, executado no estacionamento de um heliponto no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste do Rio, em 2020.
Ele foi executado após retornar de sua casa de praia em Angra dos Reis, na Costa Verde. Genro do também contraventor Castor de Andrade, Iggnácio teria sido morto a mando do bicheiro Rogério de Andrade, sobrinho de Castor.
A defesa do acusado adotou uma linha técnica, afirmando que não haveria provas diretas que vinculem Rodrigo à execução. O advogado argumentou que o réu não tem ligação comprovada com os supostos mandantes e que os elementos apresentados pela acusação são frágeis ou dizem respeito a outros investigados. Também questionou a interpretação das provas telemáticas, destacando que os registros indicariam apenas deslocamentos compatíveis com a rotina do acusado, sem demonstrar participação no planejamento ou na execução do homicídio. A defesa enfatizou ainda que cada réu deve ser julgado individualmente, com base nas provas específicas do seu caso, e apelou ao princípio do livre convencimento dos jurados.