Antes de ser apontado pela Polícia Civil como um dos envolvidos na tortura de duas mulheres submetidas a um “tribunal do tráfico” na comunidade do Risca-Faca, em São Gonçalo, um dos investigados, vulgo Mumu, sustentava na Justiça que não possuía perfil de alta periculosidade para permanecer em Bangu 1, uma das unidades prisionais mais rígidas do estado.
Em uma petição apresentada após sua prisão em outro processo, a defesa questionou a transferência do acusado para a Penitenciária Laércio da Costa Pellegrino, conhecida como Bangu 1. Segundo os advogados, ele foi o único entre sete denunciados encaminhado para a unidade de segurança máxima, apesar de, segundo a tese defensiva, não se enquadrar nos critérios normalmente utilizados para esse tipo de custódia.
Os advogados também alegaram que a transferência teria ocorrido sem fundamentação adequada e relataram dificuldades enfrentadas pelo preso dentro da unidade, incluindo a falta de acesso ao banho de sol durante parte do período em que permaneceu custodiado, argumento utilizado para pedir sua remoção para um presídio comum.
Meses depois, porém, o nome do suspeito voltou a aparecer em uma investigação relacionada a um dos episódios mais violentos registrados recentemente na região de São Gonçalo.
Segundo a Polícia Civil, ele está entre os integrantes do Comando Vermelho investigados por participação nas agressões praticadas contra duas mulheres em 18 de maio deste ano, no interior da comunidade do Risca-Faca.
De acordo com as investigações, as vítimas foram levadas ao chamado “tribunal do tráfico”, mecanismo de punição ilegal utilizado por facções criminosas. Elas teriam sido espancadas, humilhadas e obrigadas a se submeter a uma série de castigos impostos pelos traficantes. As mulheres tiveram os cabelos raspados e foram forçadas a caminhar pelas ruas da comunidade pedindo desculpas aos criminosos diante de moradores da região.
As cenas foram registradas pelos próprios traficantes e posteriormente divulgadas nas redes sociais. Para os investigadores, a exposição das imagens teve o objetivo de intimidar a população local, reforçar o controle territorial da facção e demonstrar o poder exercido pelo grupo criminoso.
Após a repercussão do caso, a Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Capital (DRE-CAP) iniciou uma investigação que envolveu análise de vídeos, coleta de depoimentos, cruzamento de informações e diligências de inteligência.
Segundo a Polícia Civil, o conjunto de provas reunido aponta a participação direta de integrantes da organização criminosa. As investigações também indicam que as ordens para a prática das torturas teriam partido de lideranças da facção com histórico de atuação no tráfico de drogas.
Nesta terça-feira (2), agentes da DRE-CAP, com apoio do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE), realizaram uma operação na comunidade para cumprir mandados de busca e apreensão contra os investigados. Três pessoas foram presas.
As investigações prosseguem para identificar todos os participantes das agressões e aprofundar a apuração sobre a atuação da facção na comunidade do Risca-Faca.
O caso chama atenção porque, enquanto a defesa sustentava anteriormente que o investigado não apresentava características que justificassem sua permanência em uma unidade destinada a presos considerados de alta periculosidade, as apurações mais recentes o colocam entre os alvos de uma investigação envolvendo um episódio de extrema violência atribuído ao chamado tribunal do tráfico.
Mumu era apontado como chefe do tráfico no Morro do Estado, em Niterói.
Ele fo preso ano passado (Durante a ação, os policiais apreenderam um grande arsenal: dois fuzis Colt AR-15 calibre 5,56 mm, uma pistola Glock calibre 9 mm, 91 munições calibre 5,56 mm, nove munições calibre 9 mm, três munições calibre 45 mm, além de carregadores, 885 trouxinhas de maconha, duas capas de colete, um cinto tático e R$ 200 em dinheiro. Dois veículos, um Chevrolet Onix e um Chevrolet Prisma, ambos brancos, também foram apreendidos.
Segundo a polícia, ‘Mumu’ possui duas anotações criminais por tráfico de drogas e uma por homicídi