A reportagem teve acesso à íntegra do projeto de lei apresentado na Assembleia Legislativa do RJ que pretende transformar as facções criminosas Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital em organizações terroristas no Estado assim como já fez o governo norte americano e outros países
A proposta, que está em análise na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na Casa, sustenta que o Rio é o estado brasileiro mais atingido pela atuação do Comando Vermelho e afirma que a facção já teria ultrapassado os limites tradicionais do crime organizado e do tráfico de drogas, passando a atuar com domínio territorial, intimidação da população, emprego de armamento de guerra, ataques contra agentes públicos, sabotagem da mobilidade urbana, tortura e articulação criminosa em diferentes estados e até com organizações estrangeiras.
O texto também defende que o Primeiro Comando da Capital (PCC) seja submetido à mesma discussão.
A proposta apresentada no Rio reúne episódios de influência sobre agentes públicos, ameaças contra autoridades, uso de drones com bombas, fuzis, fechamento de vias, tortura e expansão nacional do Comando Vermelho e também do PCC.
FACÇÃO TERIA PASSADO A TENTAR INFLUENCIAR O PRÓPRIO ESTADO
Um dos argumentos centrais apresentados no projeto é que a atuação do Comando Vermelho não estaria restrita ao controle de pontos de venda de drogas.
A justificativa cita investigações jornalísticas que apontaram tentativas de influência da facção sobre o funcionamento do aparelho estatal, inclusive sobre o policiamento.
Reportagem de O Globo, baseada em diálogos interceptados pela Polícia Federal, revelou uma suposta tentativa do Comando Vermelho de influenciar o policiamento no Rio.
O Globo — Comando Vermelho tentou influenciar policiamento no Rio, mostram diálogos interceptados pela PF:
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/11/12/comando-vermelho-tentou-influenciar-policiamento-no-rio-mostram-dialogos-interceptados-pela-policia-federal.ghtml
O projeto também cita levantamento jornalístico sobre a influência de facções criminosas na política e no funcionamento do poder público.
Metrópoles — Do PCC ao CV: como facções elegem políticos e contaminam o governo:
https://www.metropoles.com/colunas/mirelle-pinheiro/do-pcc-ao-cv-como-faccoes-elegem-politicos-e-contaminam-o-governo
BBC — CV e PCC entram na lista americana de organizações terroristas:
https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3v20pg2kkro
G1 — PCC e CV entram na lista do governo dos EUA:
https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/05/29/pcc-e-cv-entram-na-lista-do-governo-dos-eua-para-organizacao-terrorista.ghtml
Outro episódio citado envolve o vereador Salvino Oliveira, preso sob suspeita de negociar com o traficante Doca, apontado como integrante do CV, uma autorização para campanha eleitoral na Gardênia Azul.
O Globo — Vereador é preso suspeito de negociar com traficante autorização para campanha:
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/03/11/vereador-salvino-oliveira-e-preso-suspeito-de-negociar-com-traficante-doca-do-cv-autorizacao-para-campanha-eleitoral-na-gardenia-azul.ghtml
A justificativa ainda recupera reportagens sobre a própria origem e expansão do Comando Vermelho.
O Globo — Quem foram os fundadores do Comando Vermelho:
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2024/07/16/quem-foram-os-fundadores-do-comando-vermelho-faccao-que-protagoniza-guerra-por-territorios-no-rio.ghtml
Também são mencionadas reportagens sobre supostas relações históricas entre o crime organizado e setores políticos.
Jornal da Cidade Online — A origem do Comando Vermelho e sua ligação com políticos:
https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/46992/a-origem-do-comando-vermelho-e-a-sua-ligacao-com-os-politicos-de-extrema-esquerda
AMEAÇAS CONTRA JUÍZES, DELEGADOS E AGENTES QUE COMBATEM A FACÇÃO
Outro fundamento apresentado é a existência de ameaças contra integrantes do próprio Estado responsáveis pelo combate ao crime organizado.
A justificativa cita reportagem sobre um suposto plano do Comando Vermelho para matar juízes e delegados, interpretado na proposta como demonstração de que a organização não apenas enfrenta as forças de segurança, mas busca intimidar e eliminar agentes responsáveis por combatê-la.
Metrópoles — Plano do CV de matar juízes e delegados:
https://www.metropoles.com/colunas/mirelle-pinheiro/plano-sangrento-do-cv-de-matar-juizes-e-delegados-e-guerra-declarada
A proposta também menciona reportagem sobre decisão do Conselho Nacional de Justiça envolvendo um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio.
InfoSaj — CNJ afasta desembargador do TJ-RJ após decisões questionadas:
https://infosaj.com.br/cnj-afasta-desembargador-do-tj-rj-apos-decisoes-que-favoreceram-lideres-do-comando-vermelho-e-do-povo-de-israel/
DRONES COM BOMBAS, FUZIS, BLINDADOS E ARMAMENTO DE GUERRA
Talvez um dos pontos mais contundentes da proposta seja o poderio bélico empregado pelas facções.
O texto cita operações policiais que revelaram um arsenal formado por drones adaptados para transportar bombas, fuzis, blindados e outros equipamentos de alto poder de fogo.
A justificativa utiliza essas apreensões como argumento para sustentar que o enfrentamento deixou de ser uma simples operação policial contra traficantes armados e passou a envolver organizações capazes de utilizar equipamentos associados a conflitos armados.
Diário do Grande ABC — Arsenal da guerra entre agentes e CV no Rio:
https://www.dgabc.com.br/Noticia/4265849/arsenal-da-guerra-entre-agentes-e-cv-no-rio-drones-com-bomba-fuzis-helicopteros-e-blindados
R7 — Drones com bombas, fuzis e blindados:
https://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/drones-com-bomba-fuzis-e-blindados-veja-o-arsenal-de-guerra-usado-em-operacao-no-rio-28102025/
Jornal do Commercio — Arsenal do Comando Vermelho é exposto em operação:
https://jc.uol.com.br/brasil/2025/10/28/drones-com-bombas-e-fuzis-arsenal-do-comando-vermelho-e-exposto-em-operacao-mais-letal-do-rio.html
A capacidade de enfrentar até aeronaves policiais também aparece na justificativa.
AeroIN — Helicóptero da polícia pega fogo após ser atingido por criminosos:
https://aeroin.net/em-cena-de-guerra-helicoptero-da-policia-pega-fogo-apos-ser-atingido-por-criminosos-no-rio/
O projeto ainda lembra que o poder de fogo das organizações criminosas não é um fenômeno recente.
Em 2011, policiais apreenderam em uma favela do Rio um fuzil apontado como capaz de derrubar um helicóptero.
G1 — Polícia apreende fuzil capaz de derrubar helicóptero:
https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2011/12/policia-apreende-em-favela-do-rio-fuzil-capaz-de-derrubar-helicoptero.html
TORTURA PARA IMPOR O MEDO NAS COMUNIDADES
O projeto também aponta para uma das faces mais brutais do domínio territorial: a utilização da tortura como mecanismo de controle da população.
A justificativa cita reportagens sobre o chamado “tribunal do CV”, estrutura clandestina utilizada para julgar e punir moradores submetidos às regras impostas pela facção.
CNN Brasil — Tribunal do CV: entenda como facção tortura moradores:
https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/tribunal-do-cv-entenda-como-faccao-tortura-moradores-em-comunidade-no-rj/
Outro caso citado envolve integrantes do Comando Vermelho investigados por tortura e morte de um jovem na Zona Norte do Rio.
Extra — Integrantes do CV envolvidos em tortura e morte de jovem são alvos de operação:
https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/01/integrantes-do-cv-envolvidos-em-tortura-e-morte-de-jovem-sao-alvos-de-operacao-na-zona-norte-do-rio.ghtml
Para os autores do projeto, a existência de estruturas de punição e tortura dentro de territórios dominados pelas facções reforçaria o argumento de que a população não estaria apenas convivendo com o tráfico, mas submetida a um regime de medo imposto pela organização criminosa.
QUANDO O TRÁFICO MANDA FECHAR A CIDADE
A proposta também chama atenção para episódios em que criminosos determinaram o fechamento de vias públicas em represália a operações policiais.
Em junho de 2024, criminosos fecharam trechos da Linha Vermelha e da Avenida Brasil, provocando impactos diretos na mobilidade de milhares de pessoas.
O Globo — PM libera Linha Vermelha e parte da Avenida Brasil fechadas por criminosos:
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2024/06/11/pm-consegue-liberar-linha-vermelha-e-parte-da-avenida-brasil-fechadas-por-criminosos-em-represalia-a-operacao-na-mare.ghtml
O texto também cita episódio em que traficantes fecharam vias durante operação contra o Comando Vermelho.
Metrópoles — Com fuzis, traficantes fecham vias durante operação contra o CV:
https://www.metropoles.com/distrito-federal/na-mira/com-fuzis-traficantes-fecham-vias-durante-operacao-contra-o-cv-no-rj
O Tempo — Comando Vermelho manda fechar ruas em resposta a operação policial:
https://www.otempo.com.br/brasil/2025/10/28/comando-vermelho-manda-fechar-ruas-em-resposta-a-operacao-policial
A justificativa interpreta esses episódios como demonstração da capacidade de uma organização criminosa de interferir diretamente no funcionamento da cidade como instrumento de pressão contra o Estado.
CV OPERA EM VÁRIOS ESTADOS E MANTÉM CONEXÕES INTERNACIONAIS
Outro argumento utilizado para sustentar o enquadramento é a expansão do Comando Vermelho para além das fronteiras do Rio.
A proposta cita operações que investigaram o tráfico de drogas e armas associado à facção em diferentes estados.
CNN Brasil — Operação mira tráfico de armas e drogas do CV em seis estados:
https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/nordeste/pe/operacao-mira-trafico-de-armas-e-drogas-do-comando-vermelho-em-6-estados/
Também são citadas conexões com grupos criminosos estrangeiros.
UOL — Guerrilhas colombianas atuam com CV no Amazonas:
https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2025/08/14/guerrilhas-colombianas-atuam-com-cv-no-am-e-lavam-dinheiro-com-peixarias.htm
BBC — atuação do Comando Vermelho fora do Rio:
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj0eyv3r08mo
FACÇÃO ESTARIA TREINANDO CRIMINOSOS DE OUTROS ESTADOS
A justificativa ainda aponta a presença de criminosos de diferentes partes do país em estruturas ligadas ao CV no Rio.
Um dos episódios citados envolve uma operação na Rocinha que tinha como alvo traficantes vindos de outros estados.
Globoplay — Operação na Rocinha tenta prender mais de 30 traficantes vindos de outros estados:
https://globoplay.globo.com/v/13191872/
A proposta também menciona reportagem sobre um suposto centro de treinamento para criminosos localizado em um bunker ligado à facção na Rocinha.
Metrópoles — Bunker do CV na Rocinha escondia centro de treinamento para bandidos:
https://www.metropoles.com/colunas/mirelle-pinheiro/bunker-do-cv-na-rocinha-escondia-centro-de-treinamento-para-bandidos
Outro caso citado envolve a liderança do CV em uma cidade de Goiás.
Veja — Líder do Comando Vermelho em cidade goiana é preso em praia do Rio:
https://veja.abril.com.br/brasil/lider-do-comando-vermelho-em-cidade-goiana-e-preso-em-praia-do-rio/
A proposta sustenta que esse conjunto de episódios demonstra uma organização com capacidade de recrutar, deslocar, treinar e articular criminosos em diferentes regiões do país.
PROJETO PODE SER AMPLIADO PARA OUTRAS FACÇÕES
Embora o Comando Vermelho seja o principal alvo da proposta, o texto não pretende necessariamente limitar o debate a uma única organização.
A justificativa afirma que, caso os parlamentares entendam que outras facções também reúnem características compatíveis com uma organização terrorista, o projeto poderá ser ampliado.
O PCC aparece, portanto, como outro grupo que deveria ser submetido à mesma discussão.
A proposta argumenta que a classificação das duas facções pelos Estados Unidos reforça a necessidade de o Brasil discutir internamente se o modelo tradicional de combate ao crime organizado é suficiente diante do poder territorial, financeiro, bélico e operacional alcançado por essas organizações.
“GUERRA” CONTRA O ESTADO
No centro da justificativa está a afirmação de que o Comando Vermelho teria atingido um nível de organização que ultrapassa o tráfico de drogas convencional.
O projeto reúne como elementos dessa tese:
armamento de guerra; drones com bombas; ataques contra policiais; ameaças contra juízes e delegados; tortura; domínio territorial; fechamento de vias; tentativa de influência sobre agentes públicos; articulação política; expansão interestadual; conexões internacionais e treinamento de criminosos.
Para os autores da proposta, esse conjunto de circunstâncias demonstra que o Estado do Rio enfrenta uma estrutura criminosa que não apenas explora atividades ilegais, mas também disputa o controle territorial e desafia diretamente a autoridade estatal.
A classificação pretendida também é apresentada como uma forma de ampliar a cooperação com forças federais e organismos internacionais e aumentar o suporte às polícias estaduais responsáveis pelo enfrentamento direto das facções.
O projeto chega ao Parlamento em um momento em que a discussão deixou de ser exclusivamente brasileira: os Estados Unidos já deram às duas maiores facções do país um tratamento jurídico dentro de sua política de combate ao terrorismo e ao crime organizado transnacional.
Agora, a proposta pretende levar essa discussão para dentro do próprio Estado do Rio de Janeiro.
A questão colocada aos parlamentares é direta: até onde o Estado brasileiro deve continuar tratando organizações que dominam territórios, empregam armamento pesado, aterrorizam moradores, ameaçam autoridades e desafiam forças de segurança exclusivamente como facções criminosas — e em que momento esse fenômeno passa a exigir outro enquadramento jurídico e institucional
Vale lembrar que nesta semana após Donald Trump afirmar que os Estados Unidos poderão utilizar força militar na América Latina para proteger seus interesses, 14 países da região divulgaram um comunicado anunciando uma ação conjunta contra 24 organizações criminosas classificadas pelo grupo como “narcoterroristas”, incluindo o PCC e o Comando Vermelho.
Os 14 países que integram a iniciativa são Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
Recentes ações e medidas dos Estados Unidos “contra” o terrorismo e o crime organizado na América Latina:
• PCC e Comando Vermelho passaram a ser classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas.
• Drones MQ-9 Reaper da Força Aérea dos Estados Unidos estão sendo implantados na América do Sul.
O governo americano elevou o alerta para regiões de fronteira do Brasil devido aos riscos relacionados ao crime e a sequestros. O Departamento de Estado recomenda atualmente que cidadãos americanos evitem áreas próximas às fronteiras terrestres brasileiras devido a esses riscos.