Documentos oficiais obtidos pela reportagem mostram que, logo após a prisão do ex-PM Ronny Pessanha de Oliveira, conhecido como Negão do Bope, houve transferências de valores entre a empresa ligada ao ex-policial e o traficante Manoel Cinquine, o Paulista, apontado como integrante da cúpula do Comando Vermelho. A movimentação financeira aparece nos documentos como mais um elemento da relação de Ronny com a facção.
Ronny, que no início da década era uma das peças-chave da milícia de Rio das Pedras, em Jacarepaguá, passou de membro ativo da organização miliciana a uma figura central do Comando Vermelho, segundo os elementos reunidos na investigação. Sua atuação passou a estar relacionada à estrutura do tráfico de drogas e à ocupação territorial da Muzema e do Itanhangá, regiões onde a facção ampliou sua presença.
Nesse processo, Ronny passou a manter relação com duas lideranças do Comando Vermelho: Manoel Cinquine, o Paulista, e William Chaves, o Corolla, ligado às regiões de Manguinhos e São João.
Para dissimular os rendimentos obtidos com as atividades ilícitas, segundo a investigação, Ronny teria utilizado a Skull 47 Segurança e Vigilância Patrimonial Ltda., empresa registrada em sociedade com sua mãe. A estrutura empresarial passou a ser analisada como possível instrumento de lavagem de dinheiro.
As mensagens telemáticas interceptadas, somadas aos registros financeiros, apontaram práticas consideradas compatíveis com o crime de lavagem de capitais. Entre os elementos identificados estão depósitos em espécie na conta da empresa, considerados incompatíveis com o faturamento declarado, o que, segundo a investigação, reforça a suspeita de que a empresa era utilizada como fachada para dissimular a origem ilícita dos valores.
Depois do deferimento da prisão temporária, Ronny foi preso e permanece acautelado. Foi justamente após a efetivação da prisão que os investigadores identificaram as transferências de valores entre a empresa ligada ao ex-PM e Paulista, integrante da cúpula do Comando Vermelho.
A movimentação envolvendo a empresa e o traficante passou a integrar o conjunto de elementos financeiros e telemáticos reunidos contra Ronny, que aparece na investigação como personagem que percorreu o caminho da milícia de Rio das Pedras para a estrutura do Comando Vermelho na Muzema e no Itanhangá.
A trajetória também chamou a atenção da Polícia Civil porque Ronny havia integrado o Bope e, segundo as investigações que resultaram em sua prisão, teria utilizado conhecimentos adquiridos na unidade para treinar integrantes do Comando Vermelho em técnicas de combate e guerra urbana. A prisão ocorreu durante a Operação Contenção, em março de 2025.