Policiais da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO) prenderam nesta terça-feira (18/08) Lucian Guimarães Ferreira, o Play do Jordão, apontado como uma das antigas lideranças da milícia que atua na região de Jacarepaguá. A prisão ocorreu em um condomínio na Barra da Tijuca e está relacionada à investigação sobre a morte de Leonardo Pacheco Lima, o Léo Problema, assassinado em 11 de março deste ano.
Durante a operação, os agentes apreenderam uma escopeta, um revólver, uma pistola e diversas munições. Por causa do armamento, Play também foi autuado em flagrante por porte ilegal de arma de fogo.
A investigação sobre o assassinato de Léo Problema prossegue para esclarecer a dinâmica do crime e identificar outros possíveis envolvidos.
Segundo a Polícia Civil, Play e Léo Problema eram amigos e teriam se conhecido em 2016, quando estavam presos no Bangu 6. Depois, passaram a atuar juntos em diferentes áreas de Jacarepaguá.
Os dois teriam dividido o controle de regiões como Boiúna, Jordão, Tanque e Taquara, explorando fontes de renda ilegais, entre elas gatonet, gás e água. Com o avanço do Comando Vermelho, porém, algumas áreas foram perdidas para a facção.
A investigação trabalha com a hipótese de que a relação entre os dois acabou sendo superada pela disputa pelo poder e pelo dinheiro. Play é suspeito de ter participado da morte de Léo Problema para ficar com o controle das áreas que anteriormente eram divididas entre os dois.
A trajetória dessa dupla está diretamente ligada à guerra que durante anos envolveu a milícia da Taquara, outros grupos paramilitares de Jacarepaguá e o Comando Vermelho.
A queda de Nem e Damião da Malvina
Antes da ascensão de Play e Léo, a região da Taquara era controlada pelos irmãos Nem e Damião da Malvina.
Os dois haviam sido aliados do grupo de Ecko, morto em 2021. Nem acabou preso em 2022 e, a partir daí, Damião passou a exercer o comando de várias comunidades da região.
Entre as áreas que estavam sob influência do grupo estavam Malvinas, Caramarú, Invasão, Nova Aurora, Tancredo e Lote Mil.
Damião também foi preso em 2023. Durante o período em que permaneceu atrás das grades, o comando passou para seu filho, João da Malvina. Depois de deixar a prisão, Damião voltou a exercer influência sobre a estrutura.
Foi justamente nesse período de enfraquecimento da antiga liderança que Play do Jordão e Léo Problema começaram a ganhar espaço.
Os dois teriam passado a atuar contra o grupo dos irmãos Juvino, Damião e Nem, avançando sobre as áreas que eles controlavam.
Damião acabou assassinado.
Segundo a investigação, Léo Problema e Play do Jordão teriam participado da articulação para matar Damião, abrindo caminho para que os dois assumissem as comunidades anteriormente controladas pelos irmãos.
O episódio marcou a ruptura da antiga estrutura da milícia da Taquara e a ascensão de uma nova composição, da qual também faziam parte nomes como Acrísio, Tota e Betinho.
Horácio, o arsenal e a expansão de Play e Léo
Antes de se tornar uma das principais lideranças da Taquara, Léo Problema já tinha uma ligação antiga com a estrutura criminosa da região.
Ele havia trabalhado como segurança do miliciano Horácio, que controlava áreas da Praça Seca e de Jacarepaguá.
Horácio foi assassinado em Búzios, em 2023.
Depois da morte dele, Play e Léo teriam ampliado sua atuação sobre áreas que estavam nas mãos de outros grupos paramilitares.
Um dos pontos mais importantes dessa expansão foi o arsenal de armas.
Segundo informações que circulavam entre investigadores e nos bastidores da criminalidade, a nova estrutura teria conseguido ficar com mais de 40 fuzis que pertenciam ao grupo de Horácio, além de outras armas que estavam em poder da antiga milícia de Damião.
O domínio desse arsenal aumentou o poder de fogo do grupo justamente quando começavam novas disputas territoriais na Zona Oeste.
Léo Problema também passou a ser relacionado a outros episódios violentos.
Ele era apontado como suspeito de envolvimento na morte do miliciano conhecido como Cientista, assassinado em Jacarepaguá em 2024.
A sequência de mortes, prisões e mudanças de comando abriu espaço para uma nova configuração da milícia na Taquara.
Acrísio, Tota e Betinho entram na disputa
Com a queda da antiga estrutura de Nem e Damião, Acrísio e Tota, ligados à milícia da Cabeça de Porco, passaram a atuar ao lado de Play e Léo.
Outro nome que ganhou espaço foi Betinho.
Segundo informações que circulavam sobre a reorganização dos grupos, Betinho teria participado da tomada da Vila Sapê, em uma disputa que envolveu o miliciano conhecido como Boto.
A partir daí, Play, Léo, Betinho, Acrísio e Tota passaram a formar uma nova composição paramilitar na região da Taquara.
A estrutura tinha como uma de suas bases a Cabeça de Porco e passou a disputar áreas que anteriormente estavam sob o controle dos irmãos Malvina.
A expansão, porém, encontrou um obstáculo cada vez maior: o Comando Vermelho.
A guerra com o Comando Vermelho
A disputa pelo território da Taquara deixou de ser apenas uma briga entre grupos de milicianos.
O Comando Vermelho passou a avançar sobre comunidades que estavam nas mãos de paramilitares.
Entre os grupos ligados ao tráfico que passaram a pressionar a região estava a Tropa de Madureira, apontado como uma das lideranças do CV na área.
O grupo ligado a Play e Léo tinha como objetivo ampliar seu território justamente em regiões que estavam sob domínio do tráfico.
A Boiúna, por exemplo, era uma área de interesse na disputa com o grupo ligado a Madureira.
No Jordão, havia a presença do tráfico ligado ao CV, enquanto comunidades como Santa Maria e Teixeiras também apareciam no mapa das áreas controladas pela facção.
Play passou a fazer incursões no Jordão, o que provocou ataques e reações do Comando Vermelho.
A guerra se espalhou por outras áreas de Jacarepaguá.
Em 2025, a milícia ligada a Play e Léo passou a contar com apoio de grupos de Catiri e Santa Cruz, enquanto o grupo de André Boto e Capitão América, ligado a Rio das Pedras, passou a se posicionar do outro lado da disputa.
Boto e seus aliados também estavam envolvidos em uma guerra pelo controle da região de Dois Irmãos, em Curicica, onde houve confrontos com traficantes do Comando Vermelho.
A disputa acabou conectando diferentes grupos paramilitares de Jacarepaguá.
De um lado, a estrutura de Play e Léo, com apoio de grupos de Catiri e Santa Cruz. Do outro, Rio das Pedras, Curicica e aliados de Boto, além da pressão exercida pelo próprio Comando Vermelho.
A guerra chega aos 700
Um dos principais episódios dessa disputa ocorreu na comunidade dos 700, na Taquara.
A área estava sob domínio do Comando Vermelho e foi tomada por homens ligados a Léo Problema e Play do Jordão.
Os milicianos invadiram a comunidade durante a madrugada e conseguiram expulsar os traficantes.
Na saída, porém, integrantes do grupo se depararam com agentes da DRACO que realizavam uma ação contra criminosos envolvidos em cobranças ilegais.
Houve confronto. Um miliciano morreu e outro ficou ferido e acabou preso. Os policiais apreenderam uma pistola calibre 9 mm com numeração raspada, dinheiro e constataram que o veículo utilizado pelos criminosos era roubado e estava com placa clonada.
A tomada dos 700 provocou uma nova reação.
Rio das Pedras e o grupo de Curicica ligado a Boto passaram a tentar recuperar a área, enquanto traficantes do CV também mantinham pressão sobre os territórios da Taquara. Houve confrontos com uso de granadas e drones.
Foi nesse período que a guerra passou a envolver também Rodrigo Barraca, apontado como uma das lideranças da milícia do Camorim.
Barraca se alinhou ao grupo de Boto e Rio das Pedras na disputa contra a estrutura de Léo Problema e Play.
A morte de Barraca
Rodrigo Ferreira de Souza Vaz, o Rodrigo Barraca, acabou assassinado em Cabo Frio.
O miliciano, que havia sido integrante do Corpo de Bombeiros e utilizava tornozeleira eletrônica, foi morto a tiros no bairro Gamboa. Segundo as informações divulgadas na época, dois criminosos em uma motocicleta teriam participado da execução, com apoio de um carro.
A morte de Barraca passou a ser relacionada à guerra entre os grupos paramilitares de Jacarepaguá.
Segundo informações que circularam nos bastidores, Léo Problema teria sido apontado como responsável pela morte de Barraca, embora essa versão devesse ser tratada como informação investigativa e não como fato definitivamente comprovado. O próprio Fatos Policiais registrou que a morte de Barraca era relacionada à disputa entre o grupo dele e a estrutura de Léo e Play.
Barraca também já havia sido alvo de ameaças do Comando Vermelho. Em 2024, vídeos atribuídos a traficantes da facção circularam com ameaças contra ele.
Léo Problema rompe com Play
Enquanto a guerra externa contra traficantes e outros grupos paramilitares avançava, a aliança entre Léo Problema e Play do Jordão começou a ruir.
Os dois, que haviam atuado juntos na expansão sobre os territórios de Nem e Damião, passaram a disputar o próprio domínio da estrutura que ajudaram a construir.
Léo acumulava um histórico de confrontos e investigações. Na década passada, ele havia integrado a milícia dos irmãos Juvino e posteriormente passou a rivalizar com o grupo de Orlando Curicica.
Segundo investigações citadas anteriormente, Léo teria sido acusado de envolvimento em um homicídio e em tentativas de assassinato contra integrantes do grupo rival. Ele também chegou a ser preso em 2020 e acumulava sete passagens pela polícia por crimes como homicídio, organização criminosa, roubo e porte ilegal de arma.
Nos últimos anos, porém, ele havia deixado de ser apenas um integrante de grupos criminosos para se transformar em uma das principais lideranças da disputa territorial na Taquara.
Léo participou de ofensivas contra o CV, buscou apoio de grupos paramilitares de outras regiões e entrou em choque com a estrutura de Rio das Pedras e Curicica.
A guerra também envolveu Dois Irmãos, Boiúna, 700, Jordão, Camorim, Teixeiras e outras áreas de Jacarepaguá, com diferentes alianças sendo formadas e desfeitas ao longo dos confrontos.
Em 11 de março deste ano, Léo Problema foi assassinado.
A Polícia Civil passou a investigar Play do Jordão como suspeito de envolvimento na execução.
A hipótese é de que, depois de anos de parceria, a disputa pelo controle das áreas e das fontes de dinheiro tenha colocado os dois antigos aliados em lados opostos.
Agora, Play está preso.
A investigação sobre a morte de Léo continua para determinar exatamente como ocorreu o crime e qual foi a participação de cada um dos envolvidos.