A Polícia Militar confirmou em depoimentos prestados à Justiça que traficantes do Comando Vermelho (CV) utilizaram um drone para monitorar uma operação de invasão territorial em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. O equipamento foi encontrado por policiais durante uma ação desencadeada após a corporação receber informações de que criminosos da facção pretendiam invadir a comunidade de São Leopoldo, área do Terceiro Comando Puro. .
Os detalhes constam de uma decisão judicial que manteve a condenação de dois acusados de associação para o tráfico e posse ilegal de arma de fogo. Os depoimentos dos policiais revelam como a informação sobre a invasão chegou à corporação, como o drone foi localizado e o que os agentes encontraram no ponto utilizado pelos criminosos para acompanhar a movimentação.
Segundo os relatos registrados no processo, a inteligência policial recebeu inicialmente a informação de que traficantes do Comando Vermelho fariam uma invasão na comunidade do São Leopoldo.
A equipe foi deslocada para a região e conseguiu prender quatro suspeitos armados na entrada da comunidade.
Quando os policiais já deixavam o local para conduzir os presos à delegacia, receberam uma nova informação: a ação dos criminosos estaria sendo monitorada por um drone.
Foi então que a equipe retornou à região.
Policiais encontram grupo escondido em construção abandonada
De acordo com um dos policiais ouvidos pela Justiça, os agentes chegaram a uma área de mata e encontraram quatro homens reunidos em uma construção abandonada.
Ao perceberem a aproximação da viatura, os suspeitos correram em diferentes direções.
Os policiais dividiram a equipe e partiram atrás deles.
Um dos agentes relatou que conseguiu alcançar um dos homens enquanto outro policial perseguiu outro suspeito.
Quando retornaram ao ponto onde o grupo estava reunido, encontraram duas pistolas e o drone.
O equipamento estava no mesmo local onde os criminosos haviam sido vistos sentados.
Um dos policiais afirmou ainda que havia um homem responsável pelo controle do drone, mas ele conseguiu fugir.
A construção ficava em uma área de mata, no final de uma rua de terra, depois da qual havia apenas trilhas.
Drone era usado para monitorar a movimentação
Outro policial confirmou à Justiça a sequência da ocorrência.
Segundo ele, a equipe recebeu informações do setor de inteligência de que traficantes do Comando Vermelho iriam invadir a comunidade do São Leopoldo.
Depois da prisão dos primeiros quatro suspeitos, os policiais receberam a informação de que a atividade estava sendo monitorada por um drone.
A equipe voltou à região e encontrou novamente quatro homens, que fugiram quando perceberam a presença da viatura.
Dois foram alcançados pelos policiais.
No local onde estavam reunidos foram encontradas duas pistolas e o aparelho utilizado para monitoramento aéreo.
As armas estavam municiadas.
Armas e drone foram encontrados juntos
A Justiça considerou relevantes as circunstâncias da apreensão.
Os acusados estavam reunidos em uma construção abandonada situada em uma área de mata, enquanto o drone era utilizado para acompanhar a movimentação no entorno.
Uma das armas apreendidas apresentava numeração suprimida.
A decisão também registra que os armamentos eram pistolas calibre 9mm.
Para a acusação, a combinação entre armas de fogo, reunião de integrantes de uma facção em uma área de conflito territorial e utilização de tecnologia para monitoramento demonstrava que não se tratava de uma reunião ocasional.
O Ministério Público sustentou que o equipamento era utilizado como parte da logística da facção para monitorar o território e antecipar a movimentação de rivais e das forças de segurança.
Justiça vê estrutura de guerra territorial
Ao analisar o caso, a acusação destacou a utilização do drone como elemento que demonstraria a sofisticação da atuação criminosa.
Segundo a fundamentação apresentada no processo, o equipamento permitia o monitoramento territorial durante uma disputa entre facções, funcionando como uma espécie de vigilância aérea para apoiar a movimentação dos criminosos.
A utilização do drone foi considerada um elemento adicional para demonstrar a existência de uma associação estável voltada ao tráfico.
A acusação sustentou que os réus não estavam simplesmente reunidos no local, mas integravam uma estrutura organizada, com divisão de tarefas e utilização de armas e tecnologia para atuação em uma área de conflito entre grupos criminosos.
Condenados em regime fechado
Os dois acusados foram condenados pelo crime de associação para o tráfico, com a incidência da causa de aumento prevista na Lei de Drogas em razão do emprego de arma de fogo.
Um deles recebeu pena de 4 anos e 8 meses de reclusão, em regime fechado, além de 1.088 dias-multa.
O outro foi condenado a 5 anos e 4 meses de reclusão, também em regime fechado, além de 1.244 dias-multa.
A defesa recorreu pedindo a absolvição dos dois ou, alternativamente, a retirada da causa de aumento pelo uso de arma, redução das penas e mudança do regime inicial para o semiaberto.
O recurso, porém, não foi acolhido.
Ao manter as condenações, a Justiça considerou que os depoimentos dos policiais eram coerentes entre si e estavam apoiados pelos demais elementos de prova, incluindo o auto de apreensão e o laudo das armas e munições.
A decisão também destacou o contexto de “guerra de facções” e invasão territorial, além da utilização do drone como instrumento de monitoramento.
O caso revela como a tecnologia passou a integrar a logística das disputas territoriais entre organizações criminosas na Baixada Fluminense: enquanto homens armados se preparavam para uma invasão, outro integrante utilizava um drone para acompanhar a movimentação da área e aumentar a capacidade de vigilância do grupo.