Dados e certificados de registro de atiradores e colecionadores de armas (CACs) foram utilizados de forma fraudulenta para a compra de armas e munições que, segundo a investigação da Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos (Desarme), acabaram inseridas em um esquema de abastecimento de organizações criminosas no Rio de Janeiro.
A Polícia Civil concluiu a investigação sobre o grupo especializado na compra, montagem e comercialização ilegal de armas de fogo, munições e acessórios para organizações criminosas. Uma decisão da Justiça, porém, detalhou as diligências que foram consideradas essenciais para que a polícia pudesse esclarecer completamente a atuação do grupo, identificar os demais envolvidos e chegar aos destinatários finais do armamento.
Entre as providências apontadas pela Justiça estão a perícia e extração dos dados de três celulares, três HDs e um tablet apreendidos com os investigados, a identificação e oitiva de outros integrantes da associação criminosa e o depoimento dos CACs cujos dados foram utilizados nas compras fraudulentas.
A decisão também destaca a necessidade de descobrir quem eram os integrantes responsáveis pelo recebimento final das armas.
O juiz Gustavo Gomes Kalil, do 1º Juízo das Garantias da Comarca da Capital, considerou que essas diligências eram indispensáveis para o aprofundamento da apuração e prorrogou por 30 dias a prisão temporária de dois investigados.
Perícia nos celulares deveria revelar a estrutura do grupo
De acordo com a decisão judicial, a análise dos três celulares, três HDs e um tablet apreendidos deveria permitir aos investigadores identificar outros coautores, mapear a estrutura da associação criminosa e descobrir o destino final do armamento comercializado.
A polícia também deveria identificar e ouvir os demais integrantes do grupo.
A Justiça apontou que essa medida era necessária porque os investigados poderiam, caso fossem colocados em liberdade, alertar comparsas ainda não localizados e comprometer a obtenção de provas.
Outro ponto determinado na apuração era a oitiva dos CACs que tiveram seus documentos utilizados.
Os investigadores deveriam esclarecer como os dados e certificados de registro dessas pessoas foram utilizados para viabilizar as compras e se os titulares dos registros tinham conhecimento das operações.
Investigação identificou compra de mais de 10 mil munições
A investigação durou aproximadamente cinco meses e identificou a compra clandestina de mais de 10 mil munições para fuzis e pistolas, além de dezenas de carregadores.
Segundo a Polícia Civil, as aquisições movimentaram aproximadamente R$ 150 mil.
O grupo também teria adquirido clandestinamente quatro fuzis e oito pistolas.
A apuração contou com apoio da Diretoria de Operações Integradas e de Inteligência (Diopi), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio da Operação Desarme.
Busca apreendeu arsenal e impressora 3D
Os elementos reunidos durante a investigação levaram a Desarme a representar pela prisão temporária dos principais investigados e pela realização de buscas.
Os mandados foram cumpridos em 26 de junho de 2026.
Durante a operação, os policiais apreenderam dois fuzis calibre 5,56, quatro pistolas, mais de 200 munições, peças suficientes para a montagem de mais de dez fuzis e cinco pistolas, carregadores e outros acessórios.
Também foram encontradas duas granadas e uma impressora 3D que, segundo a investigação, era utilizada para fabricar componentes de armas de fogo.
A operação resultou ainda na apreensão de quatro veículos roubados e clonados e aproximadamente R$ 20 mil em espécie.
Cinco criminosos foram presos e um adolescente foi apreendido. Entre os presos estavam os dois principais investigados pelo tráfico de armas.
Esquema envolvia compra, montagem e venda de armas
Segundo a Polícia Civil, a estrutura investigada atuava em diferentes etapas do comércio ilegal de armamentos.
O grupo era responsável pela aquisição clandestina de armas, munições e componentes, pela montagem dos armamentos e pela posterior comercialização do material para organizações criminosas.
A quantidade de peças encontrada reforçou a suspeita de que havia capacidade para montar dezenas de armas.
A impressora 3D encontrada durante as buscas também passou a integrar o conjunto de provas da investigação.
Justiça determinou aprofundamento para chegar aos destinatários
A decisão judicial mostra que, além da apreensão do arsenal e da identificação dos principais envolvidos, a investigação precisava avançar sobre a estrutura que recebia as armas.
Por isso, foram consideradas essenciais a análise dos equipamentos eletrônicos, a identificação dos demais integrantes da associação criminosa, a localização e oitiva dos CACs utilizados nas compras fraudulentas e a identificação dos responsáveis pelo recebimento final do armamento.
Segundo a investigação, esse conjunto de diligências permitiria reconstruir a cadeia completa do esquema — desde a utilização fraudulenta dos documentos para aquisição das armas até o destino do armamento que seria comercializado para organizações criminosas.
Com a conclusão do inquérito, os dois principais investigados foram indiciados por associação criminosa majorada e comércio ilegal de armas de fogo, acessórios e munições. A Polícia Civil também representou pela conversão das prisões em preventivas.