Investigação da 25ª DP descobriu suposta rota de abastecimento da facção, com retirada de tambores de tricloroetileno em transportadora de Duque de Caxias e distribuição em comunidades como Rebu, Vila Aliança, Coreia, Acari e Guaxá
Uma investigação da 25ª DP revelou um suposto esquema ligado ao Terceiro Comando Puro (TCP) para levar tricloroetileno, produto químico utilizado na fabricação do chamado “cheirinho da loló”, para comunidades controladas pela facção no Rio e na Baixada Fluminense. A apuração aponta que tambores eram retirados de uma transportadora em Duque de Caxias e levados clandestinamente para diferentes áreas dominadas pelo grupo criminoso nas zonas norte, oeste do Rio e Baixada Fluminense;
O esquema veio à tona no dia 18 de agosto, quando policiais que já monitoravam a movimentação do produto químico nas transportadoras flagraram dois homens deixando a sede da Transcarapiá, no Parque Duque, em Duque de Caxias, em uma GM Montana prata carregada com um tambor contendo 200 litros de tricloroetileno.
Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público, o produto tinha como destino real comunidades controladas pelo TCP, embora a documentação apresentada durante a abordagem apontasse outro destinatário.
E a investigação pode ser muito maior do que a carga apreendida naquele dia.
Um dos presos, segundo o Ministério Público, afirmou que trabalhava havia cerca de dois anos transportando tricloroetileno retirado na mesma transportadora. Ele teria relatado ainda que já havia feito entregas nas comunidades do Rebu, Vila Aliança, Coreia e Guaxá, indicando que a carga apreendida em agosto não seria um caso isolado.
Produto saía de Duque de Caxias e seguia para áreas do TCP
A investigação começou antes da prisão.
Policiais da 25ª DP passaram a moniRota do ‘cheirinho da loló’: investigação revela como produto químico chegava a comunidades do TCPtorar a retirada de tambores de tricloroetileno em transportadoras depois de identificarem uma movimentação considerada suspeita.
No dia 18 de agosto, os investigadores estavam nas proximidades da Transcarapiá quando viram a Montana deixar o local.
O veículo transportava na carroceria um tambor de grande porte, preso apenas por amarras e sem as cautelas exigidas para o transporte de produto químico perigoso.
Os policiais fizeram a abordagem.
Dentro do veículo estavam os dois denunciados, que apresentaram uma nota fiscal indicando que o produto havia sido vendido por uma empresa O documento apontava como destino o Mercado São Sebastião, na Penha.
O destino, porém, seria outro.
De acordo com a denúncia, um dos homens inicialmente disse aos policiais que havia “perdido” a informação sobre para onde a carga deveria ser levada.
Depois, teria admitido que o produto seria utilizado para fabricar “cheirinho da loló” e que seria entregue nas comunidades do Rebu e da Coreia, em Senador Camará.
Ele também teria citado intermediários responsáveis pela negociação da carga.
Transportador teria revelado entregas anteriores
Foi durante o depoimento formal de um dos presos que a investigação ganhou uma dimensão ainda maior.
Segundo o Ministério Público, ele contou que trabalhava com o transporte de tricloroetileno havia aproximadamente dois anos.
As retiradas ocorreriam na própria Transcarapiá.
O homem teria relatado que já havia levado o produto para diferentes comunidades, citando Rebu, Vila Aliança, Coreia e Guaxá, todas apontadas na investigação como áreas de atuação do TCP.
Ainda segundo o depoimento, os pagamentos eram realizados por Pix cerca de três dias depois das entregas.
O acusado também teria afirmado manter contato direto com Marcelo, conhecido como “Índio”, e outro integrante apontado como responsável pela intermediação da compra do produto.
A informação é considerada relevante porque pode indicar a existência de uma estrutura organizada de compra, retirada, transporte e distribuição do produto químico, com diferentes pessoas desempenhando funções específicas.
Carga era destinada à produção de droga
A perícia realizada pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli confirmou que o conteúdo do tambor era realmente tricloroetileno.
O produto está relacionado na Lista D2 da Portaria SVS/MS nº 344/98, que reúne insumos químicos utilizados na fabricação e síntese de entorpecentes e psicotrópicos.
De acordo com a acusação, o material seria transformado em “cheirinho da loló” nas comunidades para posterior comercialização.
A investigação sustenta que os dois presos atuavam justamente no transporte do insumo, enquanto outros integrantes seriam responsáveis pela aquisição e pelo recebimento das cargas nos pontos determinados.
Cinco comunidades aparecem na investigação
Os nomes de pelo menos cinco comunidades aparecem associados à suposta rota investigada:
- Rebu;
- Coreia, em Senador Camará;
- Vila Aliança;
- Acari;
- Guaxá, em Belford Roxo.
A denúncia afirma que todas estariam sob influência ou domínio do Terceiro Comando Puro.
Para o Ministério Público, os acusados teriam se associado a outros envolvidos para realizar o transporte do produto destinado à fabricação de entorpecentes.
A acusação cita ainda um integrante conhecido pelo apelido de “Garotinho”, que ainda não havia sido identificado.
Esquema do CV também
Esta semana, agentes da 38ª DP (Brás de Pina) realizaram, nesta quarta-feira (09/09), uma operação para desarticular uma estrutura criminosa que utilizava estabelecimentos comerciais de fachada para aquisição, armazenamento e distribuição irregular de gás butano em aerossol.
O alvo da ação seria o maior fornecedor de insumos para a fabricação do “lança-perfume” para integrantes do Comando Vermelho no Complexo da Maré.
Os agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços nos bairros de Irajá, Penha e Vicente de Carvalho, na Zona Norte do Rio, e nos municípios de Belford Roxo e Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Durante as diligências, os agentes encontraram mais de 20 mil unidades de gás em uma loja de produtos domésticos.
A investigação teve início há cerca de um ano, a partir de informações de inteligência e do cruzamento de dados. Na ocasião, os agentes identificaram possíveis vínculos do alvo com atividades relacionadas ao tráfico de drogas. A partir do trabalho investigativo, os policiais descobriram a utilização de empresas aparentemente regulares para viabilizar a obtenção e o escoamento do gás butano em aerossol, que seria utilizado na fabricação do entorpecente “lança-perfume”.
Farmácias, uma barbearia e uma loja de produtos domésticos eram utilizadas como fachadas para a aquisição dos materiais, que posteriormente seriam fornecidos a integrantes da facção criminosa. Os estabelecimentos estavam registrados em nome de pessoas usadas como “laranjas”, com o objetivo de dificultar a identificação dos verdadeiros responsáveis pelas atividades.
As diligências também apontaram que o criminoso frequentava a comunidade da Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, o que reforça os indícios de seu envolvimento direto com a facção criminosa Comando Vermelho, que seria a destinatária final dos insumos químicos desviados.
Diante dos elementos reunidos, foram expedidos mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados e às empresas relacionadas à atividade. As medidas cautelares têm como objetivo reunir novas provas para aprofundar o inquérito que apura os crimes de associação para o tráfico de drogas, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.