O Ministério Público Eleitoral quer barrar a candidatura de Cristiano Santos Hermógenes irmão de Marcinho VP, à Assembleia Legislativa do Rio, sob o argumento de que existem elementos que indicariam uma possível ligação do candidato com a estrutura do Comando Vermelho e até uma suposta atuação como intermediário político da facção em comunidades dominadas pelo tráfico. O MPE cita ainda um episódio de 2006, quando Cristiano foi preso e apontado, no contexto das investigações, como possível sucessor do irmão no controle do tráfico nos Complexos do Alemão e da Penha.
A acusação mais grave, porém, é mais recente. De acordo com reportagem mencionada no processo, Cristiano foi apontado como suposto responsável por intermediar o acesso de candidatos e campanhas eleitorais a comunidades controladas pelo Comando Vermelho, permitindo a entrada de alguns postulantes e dificultando a de outros. Para o Ministério Público, se confirmada, a prática representaria uma interferência direta de uma organização criminosa armada no processo eleitoral.
Na avaliação do MPE, o domínio territorial exercido pelo Comando Vermelho poderia ser convertido em poder político caso candidatos dependessem da autorização ou intermediação de pessoas ligadas à estrutura da facção para fazer campanha em determinadas regiões.
O Ministério Público ressalta que não pretende responsabilizar o candidato pelos crimes atribuídos ao irmão. O parentesco, isoladamente, não seria suficiente para impedir uma candidatura. O argumento é que a relação familiar precisa ser analisada juntamente com outros episódios e circunstâncias apontados no processo.
Um dos fatos recuperados pelo MPE ocorreu em 2006. Cristiano foi preso em flagrante e, segundo as investigações realizadas na época, chegou a ser apontado como possível sucessor provisório de Marcinho VP no tráfico dos Complexos do Alemão e da Penha.
A ação penal, entretanto, terminou com a absolvição do candidato. O resultado é reconhecido pelo próprio Ministério Público, que afirma não pretender transformar aquele episódio em uma condenação. O caso é utilizado como parte do histórico que, segundo o MPE, deve ser analisado em conjunto com os acontecimentos posteriores.
A Folha de Antecedentes Criminais requisitada durante o processo também registrou três ocorrências envolvendo o candidato: o flagrante de 2006, o Inquérito Policial CORE nº 020/2006 e um procedimento iniciado em 2018 relacionado a notícia de posse ou porte de arma de fogo. A defesa afirma que os procedimentos foram encerrados.
O MPE também cita a trajetória política de Cristiano; Ex-vereador de Belford Roxo, ele chegou em 2026 à presidência do diretório municipal do PSDB. Pouco depois de se tornar pública a informação de que era irmão de Marcinho VP, acabou afastado da função partidária.
Para o Ministério Público, a destituição não representa prova de envolvimento com o crime organizado, mas demonstra que a relação com o chefe do Comando Vermelho teve consequências políticas concretas. O órgão considera relevante o fato de o próprio partido ter recuado após a repercussão do parentesco.
A defesa também argumenta que Cristiano já teve sua candidatura aceita pela Justiça Eleitoral em eleições anteriores. O MPE rebate afirmando que decisões referentes aos pleitos de 2020 e 2022 não garantem uma espécie de salvo-conduto para a eleição de 2026.
Segundo o Ministério Público, existem fatos novos que não estavam necessariamente presentes nos processos anteriores, entre eles a passagem do candidato pelo comando municipal do PSDB, sua posterior destituição e a denúncia sobre a suposta intermediação de campanhas em áreas dominadas pelo Comando Vermelho.
O MPE rejeita ainda a tentativa de analisar separadamente cada episódio. Para o órgão, o que precisa ser examinado é o conjunto: o parentesco com Marcinho VP, o episódio criminal de 2006, os registros policiais posteriores, a trajetória política, a destituição partidária e, principalmente, a acusação de que o candidato teria atuado como uma espécie de ponte entre campanhas eleitorais e territórios sob domínio da facção.
Na prática, a tese do Ministério Público é que o problema não está simplesmente no fato de Cristano ser irmão de Marcinho VP. O ponto central é saber se uma relação dessa natureza, somada aos demais elementos apontados no processo, poderia permitir que o poder territorial do Comando Vermelho fosse convertido em influência eleitoral.
Para o MPE, uma organização criminosa que controla comunidades pela força das armas não pode também controlar quem entra nesses territórios para pedir votos. Se a acusação de intermediação for comprovada, argumenta o órgão, estaria configurada uma situação capaz de comprometer a liberdade de escolha dos eleitores e a normalidade da disputa eleitoral.