Na investigação sobre o tráfico de drogas na comunidade Ladeira dos Tabajaras, foram identificadas mensagens que mencionam R9, conhecido como Ronaldinho Tabajaras, apontado pelos criminosos como o “dono” da comunidade. Preso há vários anos, ele teria recebido da cúpula do Comando Vermelho a Favela de Antares, em Santa Cruz, atualmente sob domínio da milícia.
Em uma das conversas interceptadas, um dos criminosos comenta a situação de R9 e afirma que a comunidade de Antares teria sido dada a ele como presente pela facção:
“Q nem o pai r9 mano. Eu queto até para com esses baglh. Jaja ele bate 30 anos de cadeia. Ta maior tempão também. Esses dia foi aniversario dele ne. E sai pq n tem bg de fica mais de 30 ano. Foi mm. CV deu antares para ele kkkkk. De presente.”
Conversa sobre a morte do policial Marquini
Também chamou atenção dos investigadores um trecho em que um dos criminosos relata a participação de Jefinho de Antares na morte do policial civil João Pedro Marquini Santana, durante um ataque ocorrido em 30 de março de 2025.
Segundo o relato interceptado, Jefinho teria avançado em direção ao veículo do policial com um fuzil apontado para ele. A conversa também menciona disparos efetuados contra o carro após a motorista realizar uma manobra de marcha à ré:
“Jefinho de Antares foi em direção a frente do carro do Policial Civil com o fuzil apontado pra ele. Que após a Juíza dar marcha ré, o Chocolate efetuou DAF ́s em direção ao carro dela; Que o Policial Civil tentou sacar a arma e, por isso, o Jefinho de Antares efetuou dois DAF ́s no peito dele (…)”
Escutas mostram funcionamento das bocas
O relatório de investigação reúne ainda diversos trechos de interceptações que, segundo os investigadores, revelam o funcionamento das bocas de fumo e a rotina de comercialização de drogas na comunidade.
Em uma das conversas, os criminosos discutem o funcionamento de um ponto de venda e o sistema de revezamento dos integrantes:
“porra, viado. Tipo assim, eu tava pensando em render umas dez horas, tá ligado não? Foi a hora que menó me rendeu. Só que tipo assim, mané. Porra, nós chegou lá, nós montou a boca lá, porra já era duas e pouca. Tá ligado não? Nós não ficou nem porra, nem dez hor ali, tá ligado? Ai também é f…”
Em outra conversa, aparecem referências ao armazenamento e à comercialização de haxixe, além de uma pergunta sobre o armamento mantido na boca:
“Tô com haxixe aqui que t me deu.”
“Cadê as pistolas da boca?”
“Tuio. Kkkk”
“Q isso cara. Todas né? Aq n tem nenhuma.”
As interceptações também registraram conversas sobre grandes quantidades de maconha:
“Tô com uns quilos de maconha lá.”
“Pior que estou com uns quilos aqui também.”
Skunk, haxixe e drogas sintéticas
As escutas mostram ainda que a estrutura criminosa comercializava diferentes tipos de drogas, incluindo skunk, com referências específicas a variedades e à qualidade do produto.
Em uma das conversas, um dos integrantes fala sobre a aquisição de skunk importado, quantidade, preço e possibilidade de revenda:
“Skunk gringo runtz. Skunk gringo blubblegum. Porra peguei uma flor que tá nesse aqui. O mattut dessa flor mrm. E o heron. Ele vende pra nós amigo. Mas paguei caro. Tá valendo pela qualidade. Peguei 400g. Vou paga no 37. Ta pagando bem. Que bomkkkk.Fazer a meta nesse bag. Ainda tá com vc na mão? Se acabar minhas flor eu ter venda vou rajar as suas. Flor vendo muito. Tudo aqui na mão. Próximas que chegar q o amigo já jogo um kilo. Já tava desenrolando com ele isso. Áudio: é eu sei, eu sei, De qualquer forma, já vaia ajudar. Quando a tua acabar tu vende as minhas.”
Em seguida, outro trecho mostra a negociação de pagamento e a intenção de revender a droga:
“Ai, vou pegar vinte aqui, valeu, Toin? Aí eu fazendo a venda eu te mando o dinheiro. Não sei se vai ser no pix ou se vai ser no dinheiro, entendeu? Vou vender pro parceiro que faz corre também. Pegou a visão?”
As conversas também fazem referência à comercialização de drogas sintéticas, incluindo MD e “bala”:
“To passando todos os clientes ainda par esse meu rlk. Se tiver gente querendo é só jogar. Fiel vai tá on se n vai ser eu. Quantidade e varejo. Já é. Virando o mês dia 5, os mlk tudo começa a mandar mensagem atrás de hxx aí eu vou falando ctg dnv pq vai ter carnaval c ctz vou jogar mais tb. Tem bala e md também meu rlk. Varejo de md no 80. Bala no 25. Em mãos. Escama também. N sei se tu conhece quem gostakkkkkk”.
Pix, encomendas e entrega de drogas
Outras interceptações revelam negociações envolvendo pagamentos por Pix, separação de drogas e entrega de encomendas.
Em uma das conversas, um dos criminosos informa que o pagamento havia sido feito e que outra pessoa estava preparando o material:
“Contato Yasmin…já foi o pix. Meu irmão tá pra sair. Disse que pode entregar rapidinho. Ele que tá separando os bgl aq pa mim. Mas qtt. Doidão aqui piloto. Roncando pá mim. Escutou logo papo”.
Em seguida, outro integrante fala sobre uma entrega de droga:
“Já é viado. Acabei de acordar aqui, entendeu? Vou comer um bagulho aqui e vou fazer essa missão. Tô aqui na boca ainda. Entrega esse kg ai pro wl. Tu busca lá com ele umas gramas de Coloômbia e qvs de tu busca os kilo.”
Outra conversa demonstra a preocupação com a localização de uma porção de haxixe:
“Porra viado, pô eu to suave, ainda mais bagulho de quantidade assim. Bagulho pô final de ano, maluco, tô suave.. Viado, tu sabe se saiu, viado, aquele haxixe uvinha que tava aqui dentro do pote, viado. Que eu não tô achando essa bolinha de haxixe não, viado. O bagulho eu vi ontem tava aqui.”
A “boca do túnel”
As interceptações também fazem referência direta à “boca do túnel”, ponto de venda de drogas instalado nas proximidades do Túnel Alaor Prata, em Botafogo.
Em uma das conversas, um integrante afirma estar no local e combina a retirada e entrega de drogas:
“Fala tu, vou te mandar o pix agora. Eu to na boca do túnel, mano. Tô aqui em cima do túnel aqui. Já é vou levar pelo túnel mermo. Já é, já é vou te mandar o pix agora. Já é vou te levar aí agora. Eu vou ir lá agora pegar. Fala comigo ô guerreirinho, fala comigo, tá no ar? Pô só tô terminando de almoçar aqui, terminando de almoçar eu já vô logo. Daqui mermo eu já pelo túnel mermo e entrego aí por cima, tá ligado? Aí na boca, né aí em Botafogo aí Toin. Vô leva á ira tu.”
Faturamento e plantões na boca
Em outra interceptação, um dos criminosos afirma que o ponto estava vendendo bem e que, inicialmente, a comercialização estava concentrada no crack, mas começava a incluir também maconha.
“Bota pra anda. È isso. Vou mesmo rlk. Já tá vendendo maneiro mas só crack. Po tá começando as maconha também. È isso. Da mesma aq no beco e sv.”
A conversa prossegue com a organização dos plantões e a permanência dos integrantes no ponto:
“Tá indo na boca tu, tá de plantão hoje, viado?”
“Não, porra. Saí, sai ontem, fala tu.”
Na sequência, surge a referência a drogas como Ice, crumble e flor:
“Deixei o Do Rodo ontem empenhado. Peguei um Ice, peguei crumble, tava cim uma flor, caralho, Botem embaixo (inaudível) com pressão no (inaudível).”
Outro interlocutor pergunta:
“Quem é esse, quem é esse Do Rodo?”
Controle de qualidade da droga
As interceptações revelaram ainda uma preocupação dos traficantes com a qualidade dos entorpecentes comercializados. Em uma das conversas, integrantes discutem reclamações de usuários sobre determinada carga de droga e comparam diferentes tipos de material.
“Sério mano. O que eles estão falando.”
“Sim.”
“?”
“Tão falando que esse amarelão tá ruim. O escuro q tá maneiro.”
“Peguei a visão. Peguei a visão irmão.”
A conversa prossegue com a discussão sobre a quantidade de reclamações e a necessidade de encontrar uma solução:
“Tendeu mano. De 10 daq a pouco já vai chora mais de 1 de ontem pra hj vai ser a 3. Só por causa dessa pedra laranja aí.”
O interlocutor responde:
“Peguei a visão, irmão. Peguei a visão. Vou ver aqui, vou bater no amigo aqui pra ver o que nós pode fazer, tá ligado? Ver a melhor forma O foda que tem umas carga comigo ainda desse amarelo, tá ligado? Tenta ve aí depois em casa quantas carga tem pra vê se não dá pra trabalhar, pra pode bota um pouco pra sair.”
Em seguida, outro integrante afirma estar tratando do problema diretamente com L7:
“É, tô falando com L7 aqui também esse bagulho, esse laranjão, escuro, eles estão gostando bem mais. Sei qual foi não, não fiz essa porra.”
A conversa termina com a orientação para acompanhar novas reclamações:
“Mas amarelão eles estão falando que tá fraquinho, não tá dando muita onda não. Tá maio pedrão, mas não ta dando muita onda não.”
“Já é, Já é, fica aí na visão se algum deles vai reclamar ainda. Tá ligado? Aí tu passa a visão.”