O esquema financeiro montado pelo traficante Antônio Ilário Ferreira, o “Rabicó”, ia muito além do simples uso de empresas de fachada para ocultar dinheiro do tráfico. As investigações da Polícia Civil e do Ministério Público revelam uma estrutura criminosa altamente profissionalizada, sustentada por familiares, operadores financeiros, contas bancárias de terceiros, veículos registrados em nome de pessoas próximas e empresas do ramo de reciclagem usadas para dar aparência de legalidade a milhões de reais movimentados pelo Comando Vermelho em São Gonçalo.
Embora a operação deflagrada nesta semana tenha chamado atenção pela prisão da companheira do traficante, Raquel, os documentos mostram que o principal alvo das autoridades é desmontar uma engrenagem financeira sofisticada que, segundo os investigadores, vinha sendo estruturada há anos para blindar o patrimônio da facção.
Núcleo familiar era usado para esconder patrimônio do traficante
As investigações apontam que Rabicó utilizava pessoas do próprio círculo familiar para dificultar o rastreamento de bens e valores obtidos com o tráfico de drogas, roubos, extorsões e outras atividades criminosas.
A companheira do traficante, Raquel, aparece inserida justamente nesse contexto de ocultação patrimonial. Segundo os autos, familiares e pessoas próximas atuavam como interpostas pessoas — os chamados “laranjas” — registrando veículos, movimentando contas bancárias e mantendo bens formalmente desvinculados do nome do chefe do tráfico.
Os investigadores afirmam que veículos utilizados pela estrutura criminosa apareciam registrados em nomes de parentes e pessoas ligadas ao núcleo familiar, estratégia considerada fundamental para impedir bloqueios patrimoniais e dificultar a identificação da origem dos recursos.
Esses automóveis, segundo as apurações, não serviam apenas para uso pessoal. Eles eram utilizados em deslocamentos operacionais da facção, transporte de dinheiro, apoio logístico e circulação de integrantes do grupo criminoso entre áreas dominadas pelo Comando Vermelho.
As autoridades identificaram ainda incompatibilidade entre o patrimônio mantido pelos familiares e a renda oficialmente declarada por eles.
Esquema de lavagem girava milhões através de operador conhecido como “Tec”
O principal responsável pela movimentação financeira da organização seria Alex Sandro Ferreira de Araújo, conhecido como “Tec” ou “Tek”, apontado como homem de confiança de Rabicó e peça central do núcleo financeiro do grupo.
Relatórios de inteligência financeira do COAF revelaram que Tec movimentou R$ 72.932.144,00 entre agosto de 2020 e setembro de 2024.
Segundo as investigações, foram identificados:
- R$ 36,4 milhões em créditos;
- R$ 36,4 milhões em débitos;
- centenas de depósitos em espécie;
- transferências fracionadas;
- movimentações incompatíveis com a renda declarada;
- circulação rápida de dinheiro entre contas bancárias;
- operações sem justificativa econômica conhecida.
Os investigadores apontam que o padrão é típico de organizações criminosas especializadas em lavagem de capitais.
Depósitos fracionados eram usados para escapar da fiscalização
As autoridades identificaram ainda o uso do método conhecido como “smurfing”, prática comum em esquemas de lavagem de dinheiro.
O sistema consistia em dividir grandes quantias em depósitos menores realizados em caixas eletrônicos espalhados por diferentes cidades do Estado do Rio de Janeiro. O objetivo era evitar movimentações únicas de alto valor que pudessem gerar alertas automáticos nos órgãos de controle financeiro.
Além disso, as investigações revelaram o uso de chamadas “contas de passagem”, utilizadas apenas para receber e repassar rapidamente os valores ilícitos.
Segundo o Ministério Público, muitas dessas contas pertenciam a moradores de áreas controladas pelo Comando Vermelho no Complexo do Salgueiro e em outras comunidades da região.
Os relatórios apontam que diversos titulares dessas contas não possuíam renda compatível com os valores movimentados. Alguns eram cadastrados em programas assistenciais do governo e, ainda assim, apareciam vinculados a movimentações financeiras consideradas milionárias.
Empresas de reciclagem eram usadas para dar aparência legal ao dinheiro do tráfico
Outro braço importante da estrutura era o núcleo empresarial, composto por empresas ligadas ao ramo de reciclagem.
Segundo o Ministério Público, Rabicó já utilizava esse tipo de atividade para ocultar patrimônio desde 2008, quando foi preso anteriormente. Agora, as investigações apontam que o modelo foi ampliado e profissionalizado.
As empresas analisadas apresentavam características consideradas típicas de fachada:
- ausência de funcionários;
- sedes incompatíveis com o volume financeiro movimentado;
- baixa emissão de notas fiscais;
- ausência de atividade operacional compatível;
- movimentações milionárias sem lastro econômico.
Os investigadores afirmam que essas empresas eram utilizadas para inserir o dinheiro do tráfico na economia formal, mascarando a origem ilícita dos recursos.
Estrutura financeira sustentava o poder do CV em São Gonçalo
As autoridades sustentam que o esquema financeiro montado por Rabicó era essencial para manter o funcionamento do Comando Vermelho no Complexo do Salgueiro e em outras áreas de São Gonçalo.
Segundo os investigadores, o dinheiro lavado através da estrutura era usado para financiar compra de armas, logística da facção, pagamento de criminosos, manutenção de pontos de tráfico e expansão territorial do grupo.
Os documentos apontam ainda que a organização criminosa possuía divisão clara de funções entre operadores financeiros, familiares, empresários ligados ao esquema e integrantes armados da facção.
Embora a operação desta semana tenha sido divulgada principalmente pela prisão da companheira de Rabicó, os autos mostram que as autoridades enxergam a estrutura financeira da facção como um dos pilares mais importantes do poder criminoso exercido pelo grupo na região.