Diversas denúncias encaminhadas à Ouvidoria do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) relatando a atuação de milícias em diferentes regiões da capital vêm sendo arquivadas sem a abertura de apuração preliminar.
Segundo decisões do próprio órgão, os relatos são considerados apócrifos, sem identificação dos envolvidos ou elementos mínimos de prova que permitam a verificação dos fatos ou a instauração de investigação criminal.
De acordo com o MP, a ausência de informações básicas — como a qualificação dos suspeitos e indícios concretos — inviabiliza o prosseguimento das notícias de fato, ainda que descrevam situações potencialmente graves.
Entre os registros arquivados está uma denúncia de tiroteios entre traficantes e milicianos na comunidade da Vila Sapê, em Curicica, na Zona Oeste. O confronto citado, no entanto, tem sido relatado por moradores nas últimas semanas e já teria resultado em mortes, embora os envolvidos não tenham sido formalmente identificados nos relatos enviados à Ouvidoria.
Outra denúncias arquivadas por não reunir elementos exigidos pela Promotori.
- Em Cosmos, na Zona Oeste do Rio, funcionaria um bar onde diariamente se reuniriam milicianos não identificados, portando armas de fogo
- Em Campo Grande, estaria programado, para o dia 22/03/2026, às 18h, um evento promovido por miliciano de vulgo “Papinha”, ocasião em que estariam presentes diversos milicianos não identificados, supostamente armados.
- Ainda em Campo Grande, suposto miliciano estaria cobrando mensalidade dos moradores mediante pagamento via PIX, bem como associado a outro indivíduo responsável pela instalação de rede clandestina de TV a cab
- Em Madureira, perto do shopping, , haveria há uma vila de casas, com cerca de seis imóveis, cujo proprietário faleceu e as casas teriam sido invadidas por um grupo de milicianos que está se apropriando do local e fazendo cobranças aos moradores.
- Em Costa Barros, milicianos não identificados, supostamente liderados por indivíduo conhecido pelo vulgo “Marrinha”, estariam cobrando de comerciantes valores a título de segurança, mediante ameaças de fechamento dos estabelecimentos em caso de recusa.
- Em Curicica, onde todo mundo sabe que há atuação de milicianos, paramilitares não identificados estariam realizando cobranças a moradores e comerciantes a título de “segurança”, as quais ocorreriam às segundas e terças-feiras, no período entre 12h e 13h
- Ainda em Curicica, um indivíduo conhecido pelo vulgo “Shurek”, juntamente com outros milicianos oriundos da comunidade Dois Irmãos, estaria extorquindo moradores do local, cobrando taxa de segurança e fornecimento de energia elétrica, bem como armazenando armas e munições em um imóvel.
- Na comunidade Três Pontes, em Paciência, funcionaria um salão de festas pertencente a indivíduo que foi candidato a vereador, o qual supostamente manteria ligação com integrantes de milícia e com policiais corruptos, atuando como elo político entre tais grupos criminosos, sendo ainda mencionados diversos indivíduos supostamente ligados à organização criminosa.
- Em Bangu, milicianos estariam promovendo invasões em lotes clandestinos, bem como ameaçando moradores e expulsando pessoas do local
- Também em Paciência, atuaria grupo de milicianos responsáveis por atividades de grilagem de terras, exploração imobiliária irregular e arrecadação de valores em benefício de organização criminosa, havendo ainda menção à utilização de imobiliárias como fachada para comercialização de imóveis e à existência de vínculos com integrantes de facção criminosa
- Em Jacarepaguá, indivíduos armados supostamente integrantes de milícia estariam impondo cobranças ilegais aos moradores para retirada de encomendas de plataformas de comércio eletrônico, bem como exigindo o pagamento de “taxa de inscrição” mediante intimidação e ameaças,
- Na Penha Circular, , milicianos não identificados estariam cobrando de moradores e comerciantes quantias para o fornecimento de serviços de luz, internet e gás residencial
- Em Santa Cruz, indivíduos supostamente integrantes de milícia estariam praticando agiotagem, mediante cobrança de juros abusivos e ameaças de morte contra moradores inadimplentes, causando situação de pavor coletivo na comunidade,
- Apesar da gravidade dos relatos, o Ministério Público sustenta que a ausência de informações verificáveis impede o avanço das investigações. Especialistas em segurança pública, por outro lado, apontam que o anonimato é comum em denúncias envolvendo milícias, devido ao temor de represálias por parte das organizações criminosas.
A guerra na Vila Sapê
Apesar da guerra ser ignorada pelo MP, clima é de tensão e medo na Vila Sapê. .
Nem mesmo o reforço no policiamento ostensivo tem sido suficiente para conter a expansão da facção criminosa Comando Vermelho , que intensifica ataques e amplia sua presença na região.
O cenário já provocou uma debandada silenciosa: muitos milicianos teriam mudado de endereço e passado a circular com outros veículos, numa tentativa de escapar de possíveis execuções. Outros, conhecidos no meio como “crias”, teriam ido além e optado por se aliar ao próprio inimigo.
A ofensiva do Comando Vermelho também expõe a fragilidade de alianças até então consideradas estratégicas. Nem mesmo a aproximação entre soldados do Terceiro Comando Puro e milicianos foi capaz de frear o avanço da facção rival.
A escalada da violência ficou ainda mais evidente nas últimas horas. Um homem morreu após ser baleado durante uma intensa troca de tiros na noite de quinta-feira (19), na Estrada dos Bandeirantes, na Taquara.
O tiroteio começou por volta das 19h30 e mobilizou equipes de emergência. O quartel do Corpo de Bombeiros de Jacarepaguá foi acionado minutos depois, às 19h34. Ao chegarem ao local, os agentes encontraram um homem já sem vida, caído ao lado de um veículo. A suspeita é de que o homem fosse um paramilitar ligado à milícia que atua na área. Um segundo miliciano, também ferido, acabou preso.